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Carlos Barros (editor) - HISTORIA A DEBATE, Actas do II Congresso Internacional "Historia A Debate", realizado em Santiago de Compostela de 14 a 18 de Julho de 1999, t. I (Cambio de Siglo), t.II (Nuevos paradigmas), t. III (Problemas de Historiografia), Santiago de Compostela, HAD, 2000, 1235 p.

 

De 14 a 18 de Julho de 1999 reuniram-se em Santiago de Compostela cerca de três centenas de Historiadores de todo o mundo para participarem no II Colóquio Internacional Historia A Debate. Ao mesmo tempo realizou-se, através da Internet, o I Congresso Virtual HaD. No contexto deste Congresso os historiadores foram ainda solicitados a pronunciar-se sobre diversas matérias referentes à História e ao ofício do historiador através da realização de um inquérito (Encuesta).

Os objectivos do II Congresso Historia a Debate foram enunciados da seguinte forma pela organização:

"Queremos actualizar as nossas reflexões e debates sobre metodologia e epistemologia da História, continuar a inovar perspectivas de investigação, ajudar a colocar a historiografia como campo de estudo no auge, combater a fragmentação da nossa disciplina, promover a globalização da História que se escreve. Queremos sobretudo ir além da "crise da História" dinamizando alternativas, descobrindo novos paradigmas ou consensos que orientem o ofício de historiador no novo século, o qual só será possível se, ao mesmo tempo, nos reencontrarmos com a sociedade, assumindo de alguma forma a responsabilidade da História perante os problemas de um mundo em transição, começando pelos nossos problemas como investigadores e professores de História".

A este desafio responderam mais de três centenas de historiadores. Para publicação foram seleccionados 79 conferências e as intervenções orais proferidas nas 19 mesas redondas. Deste colóquio resultaram 1235 páginas de texto muito denso, distribuídas por 3 tomos, de reflexão epistemológica e metodológica sobre o ofício do historiador e sobre o processo de construção do conhecimento histórico, fruto da reflexão de diversos historiadores submetida a um amplo debate que evidenciou um grande compromisso de historiadores e filósofos na discussão dos grandes problemas que se colocavam à História no final do século XX, debate que se caracterizou por uma grande abertura à problematização, à crítica, à inovação e à criatividade.

Santiago de Compostela, terra com uma forte tradição de acolhimento de gentes de todo o mundo, constitui-se mais uma vez como um lugar central no panorama historiográfico mundial. Com efeito, esta cidade tem sido palco da realização de encontros científicos que marcaram a ciência histórica mundial, dos quais destaco os Congressos de Metodologia Histórica coordenados por Eiras Roel e os Congressos Historia a Debate dinamizados por Carlos Barros.

Santiago de Compostela tornou-se um centro de inovação historiográfica porque acolhe e dá voz a historiadores consagrados por uma vasta experiência de investigação, mas também a jovens aprendizes do ofício de historiador, animados por generosas utopias de construção de um mundo mais humano e menos injusto e que acreditam que a História é um instrumento privilegiado para pensar os problemas do homem e para perspectivar de forma mais correcta as soluções para esses problemas.

Neste congresso ouviram-se as palavras sábias de Jacques Revel, perspectivando a escrita da História em tempo longo e demonstrando que continuidade e inovação se entrelaçam no discurso histórico, mas também a voz de historiadores mais jovens, de pensamento menos sistematizado, mas cheios de coragem para desbravar terreno que acolherá as sementes que irão frutificar ao longo do século XXI.

A quantidade de comunicações e de intervenções nas mesas redondas torna impossível uma resenha exaustiva de todas elas. O que pretendo por agora é fazer um convite para a leitura das actas, o que constituirá uma forma de prolongar o debate até ao III Congresso, momento em que por certo frutificarão ideias que neste momento estão ainda em flor.

1. A historiografia do século XX: um olhar projectado no futuro

Um dos aspectos menos positivos do discurso, ou das leituras do discurso, do projecto de renovação da história da primeira metade do século XX foi apresentar-se em contraposição com as correntes anteriores, em especial a positivista; um discurso de ruptura em contradição com uma prática que se caracterizava por continuidades. Ora neste Congresso procurou-se pensar o futuro da historiografia alicerçado na solidez de uma tradição que integra múltiplos e diversos contributos. Como afirmou Carlos Barros, a ideia de mestiçagem de géneros historiográficos é algo que irá fazer parte dos novos paradigmas. Nesta linha realizou-se uma reflexão sobre a historiografia do século XX.

Hal S. Barron (Recent Trends in U.S. Social History (I, p. 51-59) analisou as principais tendências da História Social construída na última década nos Estados Unidos.

François Dosse, (Paul Ricoeur, Michel de Certeau et l’histoire: entre le dire et le faire, I, p. 61- 94), procedeu a um exercício hermenêutico entrecruzado da obra de dois dos mais destacados pensadores franceses do século XX da problemática do tempo. Sergio Guerra ("Las grandes líneas de la producción historiográfica latinoamericana", I, p. 95-106), evidenciou uma historiografia particularmente comprometida com os problemas do seu tempo e "em busca de novos paradigmas que permitam uma identificação mais profunda com as raízes latinoamericanas". Alisa Ginio (El problema converso en la historiografia judía, I, 107-112) apresentou diferentes imagens dos conversos consubstanciadas em teses de vários historiadores, com particular destaque para Netanyahu. Harvey J. Kaye (Fanning The Spark of Hope in The Past: The British Marxist Historians, I, p. 113-119) revisitou a historiografia marxista, exaltando o compromisso social dos historiadores que perfilham esta ideologia. Francisco Vasquez (La historia social espanõla y los nuevos paradigmas: encuentros e desencuentros, I, p. 219- 230) analisou a recepção que as diversas tendências da História Social tiveram em Espanha. Fernando Sánchez- Marcos, (La influencia de la historiografía germánica en España en el decenio de 1990-1999, I, p. 129-138) destacou algumas figuras e obras emblemáticas da teoria da história e historiografia alemãs, obras que, graças às traduções, se começaram a difundir em Espanha, contribuindo paea diversificar e enriquecer o debate historiográfico durante muito tempo protagonizado pelas historiografias francesa, anglosaxónica, italiana e espanhola.

James Vernon (Telling the subaltern to Speak: Mass Observation and the Formation of Social History in Post-War Britain, t. I pp. 139-152) apresentou a experiência autobiográfica da sua formação como historiador social, ocorrida na era Tatchter e dedicada à investigação sobre as margens sociais.

Robert Bonnaud (L’Histoire au XXe Siècle. Et après?, I, p. 175-190) produziu uma notável síntese sobre a evolução da historiografia francesa no século XX, defendendo que a "nova História" a construir será mais próxima daquela com que sonhava Henri Berr em 1900, e da "nova História" braudeliana dos anos 1940-1968, do que da "nova História" dos anos 1970, 1980 e 1990, uma "nova História velha de cem anos, renovada, enriquecida pela travessia do século".

A historiografia de diversos espaços foi também objecto de debate em mesas redondas intituladas respectivamente: La historiografia gallega a debate, El futuro de la historiografia española e La historiografia latinoamericana y su identidad.

Finalmente e situando-se num plano de reflexão epistemológica situam-se as comunicações dos seguintes congressistas: José Carlos Bermejo (Hacer historia, hablar sobre historia, III, p. 9-21), Claudio Canaparo (Autopsia, escritura y "theory of Knowing", III, p. 23-27), Gonzalo Pasamar (La Historia de la historiografía, un tema entre la retrospectiva y la investigación, III, p. 29-39), Antonio Urquízar (Apuntes para la definición teórica y metdológica de la historia de la historiografia del arte, III, p. 41-46).

2.A desconstrução das teorias do fim da história e da pós-modernidade

O debate sobre a História na década de 90 foi alimentado pelo título da obra de Fukuyama "O fim da história". Israel Sammartín (El fin de la historia, mirado hacia atrás y pensado hacia adelante, I, p 199-212) analisou o conteúdo da teoria expressa naquela obra, interpretando-a à luz do contexto ideológico em que foi elaborada, bem como daquele em que se processou a sua recepção, produzindo um texto modelar de análise histórica sobre a temática.

Mais do que o título da célebre obra de Fukuyama, as teorias pós-modernistas anunciaram o "fim da História" (Carlos Barros). Com efeito, quando não se reconhecem diferenças metodológicas e epistemológicas fundamentais entre História e Literatura e se exclui do discurso histórico, de forma radical, os conceitos de objectividade e verdade, na prática faz-se tábua rasa de um património de investigação que se construiu ao longo dos séculos XIX e XX.

Apresentando-se o discurso pós-moderno, principalmente nas suas expressões mais radicais, como um dos maiores "inimigos" dos historiadores, compreende-se que o problema tenha estado em pano de fundo ao longo de todo o Congresso, constituindo para além disso tema de mesas redondas (Postmodernidad, Historia e Nova Ilustração, II, p. 357-384; Historia y discurso, narración y ficción t. II, p. 333- 356), bem como de várias conferências.

Hayden White foi um dos pensadores que marcou profundamente o debate sobre a pós-modernidade. A obra deste autor foi objecto de uma profunda análise da parte de George G. Iggers (Historiography between schloarship and poetry. Reflections on Hayden White’s Approach to Historiography, III, p. 119-128) que interpretou o pensamento do autor contextualizando-o no tempo em que foi produzido.

3. A narrativa em história

A publicação do artigo de Lawrene Stone intitulado The revival of narrative deu origem a um debate sobre a narrativa em História que tem assumido muitas ambiguidades e confusões. O problema, a meu ver, foi bem colocado por Jacques Revel ("Ressourses narratives et connaissance historique", III, p. 137-152) através da sua análise em perspectiva histórica. Com efeito, este autor demonstrou que "fazer história e contar uma história" estiveram sempre associados na tradição ocidental, tendo servido a narrativa diversas estratégias de investigação. Neste artigo, Revel chama a atenção para uma dupla leitura da narrativa na actualidade: por um lado ela poderia significar um recuo das ambições científicas das ciências sociais; por outro e, ao contrário, ela pode ser investida de "funções cognitivas novas", como "recurso", como "uma das formas possíveis de contribuir para construir e ensaiar uma inteligibilidade dos objectos", inseparável, de novo, de "uma elaboração crítica da interpretação".

Por sua vez, Mark Bevir (Narrative as a form of explanation, III, p. 113-118) equacionou o problema da narrativa em História demarcando-a dos pressuspostos teóricos subjacentes à narrativa ficcional e sobretudo à positivista. Finalmente, Carlos Barros defendeu que "a nova história narrativa" poderá assumir a forma de síntese entre a "nova" e a "velha" história, revelando-se também "um bom caminho" para reconstruir a relação do historiador com a sociedade.

4- Reflexão sobre o conhecimento histórico

Carlos Barros "profetizara" nas actas do I congresso Historia A Debate que o bom historiador do futuro se distinguiria pelo facto de reflectir sobre "metodologia, historiografia ou teoria da história". Este desígnio cumpriu-se no II Congresso. Na verdade, a reflexão epistemológica sobre a história perpassou pela maioria das intervenções orais, reflectindo-se nos textos escritos. O debate foi particularmente estimulado pelos discursos da pós-modernidade e constituiu oportunidade para se revisitar o pensamento de autores do século XX.

Hubert Watelet (Illusions et sous-estimation du rôle du sentiment dans la démarche historienne, I, p. 231-246) reflectiu sobre o problema da objectividade e subjectividade do conhecimento histórico, através de releitura de vários autores como Ranke, Marrou, Beard, Becker e Ricoeur. E concluiu afirmando que a análise do problema da objectividade deve fazer-se com a predisposição de espírito preconizada por Ricoeur: o historiador deve esforçar-se por afastar a "subjectividade passional e manter-se no plano de todas as possibilidades da subjectividade de pesquisa" de modo que a racionalidade atravesse "o coração do sentimento e da objectividade". A coexistência da razão com a vontade e a afectividade constituiu também matéria para uma reflexão muito estimulante de Francisca Colomer (El sueño de una razón que no produzca monstruos, II, p. 393- 403)

Hubert Watelet juntamente com François Dosse, Willen Erauw, Mark Bevir, Jonas Harvard, Eugenio Piñero e Lawrence McCRANK, coordenaram uma mesa redonda onde se deram várias respostas à pergunta: Sigue Siendo la historia una ciencia? (II, 297-322). Nesta matéria enquanto não se enraizar no seio da comunidade dos historiadores um discurso sobre a ciência em sintonia com a prática e a teoria científicas do nosso tempo, discurso que se contraponha ao persistente paradigma positivista, perdurará a confusão babélica. O reconhecimento da cientificidade do conhecimento histórico exige ainda uma definição conceptual mais rigorosa da linguagem utilizada pelo historiador. Um exemplo desta preocupação foi dado por Eugenio Piñero na sua comunicação (La historia no es un arte. La historia es una ciencia, II, p.323-332).

5 - A teoria em História. Novas proposta de modelos teóricos.

Teoría e historia: uma relação difícil foi o tema em debate numa mesa redonda. Paradoxalmente, numa discussão realizada no final de um Congresso em que o registo dos historiadores se situou fundamentalmente no plano da teoria do conhecimento (epistemologia histórica), na reflexão sobre o ofício do historiador e também, ainda que em menor grau, no plano das teorias explicativas dos processos sociais, o discurso produzido pelos historiadores nesta mesa continuou a evidenciar uma relação difícil entre teoria e História. O debate contribuiu, no entanto, para clarificar aspectos cruciais da problemática. Neste contexto, ressaltariam as intervenções, na minha opinião muito clarividentes, da filósofa María Inés Mudrovcic que desfez a ambiguidade do conceito de teoria decorrente da confusão de múltiplos planos, através da explicitação da semântica da palavra teoria (teoria no contexto de res gestae e de rerum gestarum).

No mesmo plano, situo as posições de Antonio Campillo, para quem "o historiador moderno se define precisamente pelo seu trabalho teórico, pela construção de um objecto e a explicação de uma série de acontecimentos tendo para isso de tomar opções teóricas" ou de Chenntouf TAYEB que afirmou: "Temos o laboratório ou os laboratórios de experimentação mais amplos de todas as disciplinas, que se ampliaram ao longo do tempo do ponto de vista espacial e geográfico, o que nos dá uma quantidade muito considerável de factos que podemos recolher, relacionar e analisar".

Apesar da dificuldade dos historiadores assumirem que fazem, ou utilizam instrumentalmente a teoria, é um facto que a fragmentação temática e teórica registada no seio da História nas últimas décadas constitui um motivo de forte preocupação na actualidade. Os historiadores manifestam há algum tempo alguma desconfiança em relação às grandes teorias macro-sociológicas, aos modelos teóricos que se pretendia que navegassem em todas as águas. Sentem, no entanto, a necessidade de pensar a realidade histórica à luz de modelos englobantes, com escalas a reinventar. Neste sentido, Antonio Campillo apresentou uma proposta de variáveis a integrar num modelo explicativo da organização das sociedades na comunicação intitulada (Cuatro tesis para una teoria da Historia, II, p. 17-30). Por sua vez, José Piqueras (Historia social e comprensión histórica de las sociedades, I, p. 121-128) discorreu sobre as diversas concepções e modelos interpretativos da organização e evolução sociais, de Hobsbawn a Ginzburg. Situando-se no plano da escrita da história afirmou: "a questão hoje em dia como sempre, radica em como interrogar e apresentar os factos empiricamente estudados, dentro de um modelo interpretativo ou construindo casos que devem falar sobre si mesmos".

Novas teorias unificadoras resultarão necessariamente do desafio que a Historia global coloca actualmente aos historiadores. Esta forma de fazer história apresenta-se ainda como um problema, facto que se reflectiu no número diminuto de comunicações sobre este tema. Willem Erauw aceitou o desafio da abordagem desta problemática numa perspectiva epistemológica (Writing global history? Narrative Representation beyond Modernist and Postmodernist Theories of History, I, p. 103-105).

Uma história à escala global é a ecológica. Micheline Cariño (Historia ecológica: una nueva síntesis en el marco de la historia global, II, p. 129-137) apresentou neste Congresso uma fundamentada proposta teórico-metodológica para a investigação ecohistórica, demonstrando também a pertinência social e a actualidade deste ramo de investigação. "Ao descobrir as estratégias civilizatórias que permitiram aos nossos antepassados estabelecer relações menos abusivas com o meio ambiente podemos enriquecer os projectos de desenvolvimento sustentável" defende a autora.

No II Congresso Historia a Debate a reflexão epistemológica e teórica sobrepôs-se à apresentação de métodos a aplicar à investigação empírica. Esta dimensão esteve, no entanto, presente em alguns artigos como o de Ciro Cardoso (Análisis semiótico de peliculas: un método para Historiadores, II, p. 31-44) e de Lawrence J. McCRANK (Historical Information Science: a Unidiscipline at The intercises of History, Computing, and Information Science,II, p. 109-128).

A interdisciplinaridade, grande utopia do século XX, com algumas concretizações muito profícuas, continua a considerar-se como necessária tanto ao nível interno como na articulação com outros saberes que integram agora para além das ciências sociais, as humanidades e as ciências da natureza (Carlos Barros). O tema foi abordado em várias comunicações, sendo também objecto de uma mesa redonda (La interdisciplinaridade a debate, t. III, 227-246)

6- Territórios do historiador

No final do século XX, período que se caracterizou pelo desbravar de múltiplos territórios historiográficos, é difícil encontrar ainda campos totalmente novos na investigação. É possível e oportuno, no entanto, revisitar antigas temáticas. Nesta linha Francisco Andújar (Da "nova História militar" à história velha e "nova História militarI, p.9-16) defendeu a renovação metodológica da História militar, inserindo a componente militar no contexto mais vasto da realidade social "na totalidade da complexidade histórica".

Por sua vez Matti Peltonen (Clues, Margins and Monads. Rethinking the Idea of Microhistory, II, p. 63-72) analisou as diversas formas de construção da micro-história apresentando ainda as potencialidades da convergência entre abordagens micro e macro.

Adeline Rucqoi (El historiador sujeto-objeto, I, p.191-197) apresentou os condicionamentos da formação intelectual e vivência do historiador na selecção da sua futura área de pesquisa.

Há também algums campos que, pela própria natureza do objecto de estudo, se tem revelado menos consistentes. É o caso da História das mentalidades e do simbólico. Neste contexto, Boris Berenzon (La demanda de la historia al psicoanálisis. Un paradigma entre dos siglos, I, p. 255-262) reflectiu sobre a percepção do simbólico num diálogo interdisciplinar entre a história e a psicanálise. Por sua vez, Normam Simms (Using Psychohistory and the History of Mentalities to Understand the Un(der)recorded Past, I, p. 277-286) apresentou diversas abordagens teóricas no campo da história das mentalidades.

É reconhecido por muitos historiadores que a investigação desenvolvida na área da História das mulheres, da História pós-colonial, bem como da História das minorias, para além de terem revelado o papel de sujeitos históricos até aí ignorados, contribuiu também para uma alteração das teorias sociais. O fenómeno teve naturalmente expressão neste Congresso. Assim Barbara Bush reconstruiu, num artigo muito inovador, a História da mulher negra na diáspora (History, Memory, Myth? Reconstructing the History (or Histories) of Black Women in the African Diaspora, I, p. 263-276). A História das mulheres e a História feita por mulheres foi ainda objecto de debate numa mesa redonda (Mujeres y hmobres? Una historia comun?, III, p. 279-292) e da comunicação de Isabel Morant (Historia de las mujeres e historia: innovaciones e confrontaciones, III, p. 293-304).

Para além dos temas já enunciados foram abordados em mesas redondas vários outros: a saber: Mitos, historiografía Y nacionalismo; Sexualidade, história e política; El Historiador y el Poder. Sobre esta última temática apresentou Luis Reis Torgal a comunicação intitulada O poder da História. A História do poder.

7- O compromisso do historiador com o seu tempo.

A História como ponte entre passado e futuro (Jerôme Baschet) é uma imagem que nos transporta para a ideia que o conhecimento do passado é absolutamente necessário para compreender de forma mais adequada o presente bem como de construir o futuro. Este tema foi objecto de várias comunicações apresentadas na sua maioria por historiadores latinoamericanos ou da Europa de Leste (Eslovénia), áreas em que se pretende reconstruir identidades enraízadas em experiências históricas perspectivadas fora do contexto da história oficial. Sobre esta problemática debruçaram-se os seguintes historiadores: Irma Antognazi (Necessidad del enfoque historiográfico para explicar os processos sociales del presente, I, p. 289-298); María Eugenia Borsani (Tradición: passado, presente y futuro, I, p. 299-304); Jérôme Baschet (L’Histoire face au present perpetuel. Quelques remarques sur la relation passé/futurI, p. 305-316); Montserrat Huguet, José Carlos Gibaja (Grandes cuestiones para una historia del tiempo presente, I, 317-322); Oto Luthar (The Battle for the past: The problem of Historical Representation and The process of Reinventing History. The Case of Slovenia, p. 323-326); Carlos Navajas (De la historia del passado a la historia del tiempo, I, p. 289-340).

Num tempo caracterizado por conflitos étnicos e religiosos, muitas vezes sangrentos, Karl Acham (Global Culture – its Promise and its discontent, III, p. 49-58) reflectiu sobre o problema da construção de uma coexistência pacífica. Preservando o que caracteriza o conceito de cultura - diversidade, diferenciação e complexidade - propôs a construção de uma "Global culture of human rights".

8- O ensino da história e a profissão de historiador.

A didáctica da História e o papel desta disciplina na formação do jovem e do cidadão foi outro dos temas em debate num Congresso que tentou percorrer a problemática do mundo historiográfico nas suas múltiplas facetas.

Joan Corbalán (A historia no ensino secundário: fazemos história?, II, p. 141-144) defendeu que ensinar é formar pessoas críticas, participativas, responsáveis e tolerantes, considerando o ensino da História como o melhor recurso para atingir esse fim. Na mesma linha Rafael Vals (Consciência histórica e ensino da história (na educação obrigatória),II, 173-182) dissertou sobre a "função social que o ensino da história pode e deve cumprir no ensino obrigatório de uma sociedade democrática e plural". Citando J. Rusen, para quem "a especificidade da história se situa na actividade de experimentar e interpretar o tempo para poder orientar-se através da memória histórica na própria vida", defendeu o conhecimento histórico como socialmente fundamental.

Marcos J. Correa (Teoria, Historia y Didáctica, II, p. 145-152) reflectiu sobre o problema dos pressupostos teóricos subjacentes à didáctica da história, defendendo a necessidade de um debate epistemológico no seio da própria História, de modo a sintonizar a didáctica com a reflexão teórica produzida no seio da disciplina.

As comunicações de Amelia Galetti e Nidia Pérez Campos, (Memória e contexto: dinamica de um binómio para a revitalização permanente do ensino da história; II, p.153-160); Pilar Maestro (História a ensinar: velhas e novas concepções, II, p. 161-172) e Ana Zavala (A didáctica da história: entre a teoria do ensino e a metodologia da história, II, p. 183-194), enriqueceram o debate sobre a problemática do ensino da História articulando-a com o importante papel social desta disciplina.

A História é ensinada por homens e mulheres que se debatem actualmente com vários problemas de natureza profissional. Para dar expressão e visibilidade a estas dificuldades, os organizadores do Congesso dedicaram-lhe duas mesas redondas intituladas: Universidad: acesso al professorado y carrera docente e Historia, empleo y relevo geracional.

Conclusão

Num tempo de transição de paradigmas em que o "velho" e o "novo" se misturam de forma confusa, com retornos ao positivismo e às velhas certezas da historiografia do século XIX, enquanto outros optam por um relativismo inspirado nas concepões pós-modernas e no "turn linguistic", o II Congresso Historia a debate procurou encontrar "novos e produtivos consensos", capazes de estabelecer a síntese entre o novo e o melhor das tradições historiográficas, através do debate e da confrontação de ideias, num amplo forum mundial em que intervieram historiadores de todos os continentes, destacando-se a participação muito activa, criativa e empenhada dos historiadores da América Latina.

Em Santiago de Compostela, em Julho de 1999, realizou-se assim um "macro-congresso académico" que consolidou de facto Historia a debate como "lugar de encontro, discussão, consenso e experimentação dos historiadores do mundo" (Carlos Barros).

Os textos inseridos nas actas deste Congresso assumem-se como clara demonstração da possibilidade de se produzir um discurso profundo e consistente no seio da própria comunidade dos historiadores, em diálogo transdisciplinar com saberes provenientes de outras áreas científicas, sobre o ofício que praticam e o saber que produzem, não dando todas as respostas, mas apresentando os grandes travejamentos de um edifício que por natureza está sempre em reconstrução. Os historiadores têm nas actas deste Congresso matéria de reflexão, bem como alguns alicerces e linhas de rumo para a reconstrução dos paradigmas orientadores da historiografia do século XXI.

Margarida Sobral Neto

(Instituto de História Económica e Social e Centro de História da Sociedade e da Cultura – Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra)

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