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0 QUE VASCO DA GAMA TEM FEITO POR NÓS.

0 QUE VASCO DA GAMA TEM FEITO POR NÓS. O QUE TEMOS NÓS FEITO COM ELE

Antonio M. Hespanha

Univ. Nova de Lisboa, Portugal

A imagem histórica de Gama.

A viagem de Vasco da Gama foi, sem dúvida, um dos momentos que mareou a história do mundo, com a configuração humana, política e económica que nós hoje o conhecemos. Inaugurou uma rota que se manteve activa durante cerca de quatrocentos anos, como via de contacto entre. a Europa Ocidental e as bacias do índico e dos mares da China. Por aí se efectuaram trocas económicas e culturais e se desenhou unia geografia política do mundo que ainda reconhecemos nos equilíbrios mundiais dos nossos dias. Pode dizer-se que Vasco da Gama desenhou a rua principal da "aldeia global". Mas também se deve dizer que esta aldeia global, com as suas actuais grandezas e misérias, se deve a que esta viagem se tenha feito naquela época e naquele sentido. Daí a comlexidade dos sentimentos que se pressente nas comemorações do seu V Centenário, corno já aconteceu, há uns poucos anos, com as comemorações da viagem de Colombo.

Gama antes das comemorações.

A primeira fonte. de perplexidades é a própria figura de Vasco da Gama. De alguma forma, Vasco da Gama - tal corno Colombo - estão nesta história um pouco como Pilatos no Credo.

De facto, nada o apontava inequivocamente para a missão que lhe foi confiada. Ainda hoje os historiadores - nomeadamente os seus biógrafos mais recentes - Sanjay Subrahmaniam, Luis Adão da Fonseca e Geneviève Bouchon -se colocam a questão. Não se pode dizer que fosse um conhecido cabo de guerra, que aliás não se adequaria ao perfil da missão. Mas não era, seguramente, um homem de grandes façanhas náuticas anteriores. Nem era, pela sua hierarquia no seio da nobreza da época, o protótipo do grande embaixador que iria inaugurar um novo cenário das relações externas de Portugal e da Europa. Tinha, seguramente, a firmeza e o voluntarismo exigidos por uma viagem que já se adivinhava longa e arriscada. Mas, em contrapartida, era "homem assomadiço" -tal como o definem os seus contemporâneos -, o que o levou a cometer erros que logo os seus seguidores - Cabral e Albuquerque - tiveram que pagar caro e que, ainda hoje, são pretexto de juizos negativos (por vezes, demasiado simplistas e abusivos) sobre a colonização portuguesa na Índia. Seja como for, Gama não tinha seguramente a grandeza de um estratega como Afonso de Albuquerque, de um guerreiro-intelectual com Duarte Pacheco Pereira ou de um capitão como D. João de Castro.

A construção da imagem épica de Vasco da Gama está, seguramente, relacionada com o protagonismo que adquire do enredo dos Lusiadas, que desde cedo foram tidos, em Portugal e no estrangeiro, como o poema lusitano por excelência. Mas, durante os séculos XVI, XVII e XVIII, Vasco da Gama teve concorrentes muito sérios na galeria dos "heróis do Oriente». Nessa época em que as várias casas aristocráticas se disputavam em tomo dos seus heróis, raramente a pena dos cronistas ou dos autores de panegiricos deixava de ser influenciada por estratégias políticas das grandes familias para valorizar os seus antepassados. E pela India passaram representantes de todas as grandes e. médias linhagens - Albuquerques, Castros, Saldanhas, Noronhas, Menezes, Albergarias, Almeidas. Se passarmos em revista os grandes relatos históricos desta época, Gama não ocupa aí, seguramente, um lugar central, nem sequer semelhante aos de Afonso de, Albuquerque ou de D. João de Castro, que tinham deixado um rosário de ditos, de façanhas e de gestos exemplares. Para além de escritos informados e inteligentes.

Gama e a redenção da Pátria.

É no século passado que a figura de Vasco da Gama ganha a importância que hoje tem no imaginário da história de Portugal. Calhou que o centenário da viagem de Vasco da Gama coincidiu, há cem anos, com um período de crise da consciência nacional. A partir dos anos 70, tinha-se instalado, nos círculos intelectuais, a ideia de "decadência". A Pátria estaria doente, de. uma doença causada pelo fanatismo religioso, pelo centralismo régio e, paradoxalmente, pela sangria demográfica e corrupção moral trazidas pelos descobrimentos. Esta doença corroera as virtudes cívicas, o altruísmo patriótico, o sentido de grandeza. Fizera de Portugal um país mesquinho, e não em dimensão territorial, e tornara-o na vítima de eleição dos imperialismos rompantes, entre eles, o inglês. 0 remédio para estes males seria a restauração do sentido patriótico por meio da recordação - promovida por grandes cerimônias cívicas e populares dos grandes heróis do passado. Tudo isto servido num quadro de uma ideologia revolucionaria e anti-monárquica, nacionalista e antibritânica. Os centenários foram aproveitados para isso. Camões, que .morrera com a Pátria" e cantara - em tom já melancólico - as suas glórias, foi celebrado em 1880, ainda no rescaldo a primeira grande vitória eleitoral dos republicanos. Pombal, transformado num herói do laicismo, é glorificado em 1882. Em 1890, os círculos católicos respondem com o centenário de Santo Antõnio. Nesta Época em que o iberismo é popular nos meios intelectuais de vanguarda, ninguém se lembrou do centenário de Aljubarrota, pelo que Nono Alvares Pereira C D. João 1 foram deixados para OS fastos nacionalistas do Estado Novo (1931). Em 1894, é a vez de D. Henrique, cuja imagem de asceta, cientista e propagador da Fé, era mais consensual. E, em 1898, as comemorações de Vasco da Gama, promovidas, sobretudo, pela Sociedade de Geografia.