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Mesa K

Mesa K

Carlos Fico

Departamento de História

Universidade Federal do Rio de Janeiro - Brasil

INTERVENÇAO PARA A MESA REDONDA "HISTORIA Y DISCURSO,

NARRACIóN Y FICCIóN" (III/K)

Os historiadores demoraram muito tempo para comentar o

questionamentos propostos pela teoria literária sobre as limitações prefigurativas que os códigos e convenções retóricos impõem à estrutura formal da narrativa histórica, inclusive determinando a relevância dos fatos e organizando o relato. 0 livro de Hayden White é de 1973. o artigo de Lawrence Stone, publicado pela Past and Present em 1979, que iniciou famoso debate sobre o "ressurgimento da narrativa", ainda entendia narrativa como "organização de materiais numa seqüência cronológica". No âmbito desse debate, Eric Hobsbawm ampliou a discussão quando identificou os enfoques "micro" e "macro", bem como Roger Chartier, que chamou a atenção para o problema dos "vestígios documentais", que deviam ser encarados como verossímeis (inspirando-se no chamado "paradigama do indício", originalmente italiano) . Nenhum dos dois, porém, tratou do problema das limitações prefigurativas. De fato, foi Carlo Ginzburg quem, em 1988, no seu artigo publicado por Tijdschrift voor Filosofie, enfrentou diretamente a questão, pensando-a em termos da retórica clássica (enargeia vs demonstratio). David Carr, por seu turno, defendeu que a própria estrutura da narrativa se insere nos fatos, posição contrária à de Louis Mink. São recentes, portanto, as "respostas" diretas dos historiadores de renome internacional às provocações da teoria literária. Em sua maior parte essas respostas apenas enfatizam uma "crença" no poder que teríamos de "contar a verdade sobre a história" (Hobsbawm, Eric. On History. New York, 1997). Notese que as críticas de White não afirmavam que a existência da dimensão fictícia e imaginária de todos os relatos signifique que os acontecimentos não tenham acontecido ("qualquer tentativa de descrever os acontecimentos deve levar em conta diferentes formas de imaginação e uma filosofia da história"). Portanto, cabe perguntar: por que demoramos tanto tempo para "legitimar" (ou entender) o interlocutor? Por que nos afeta tanto o questionamento original? Podemos ficar tranqüilos - como parece estar Keith Windschuttle (The killing of Hístory. New York, 1997), para quem os tropos literários seriam "meros recursos estilísticos secundários"? Podem os historiadores controlar tais códigos e convenções retóricos? Devemos inserir a disciplina "Teoria Literária" em nossos cursos?