Debates


¿Qué historia vamos a enseñar en el nuevo siglo?

 
Fim de ano é tempo de avaliações globais. Clima terrorista que compactuamos e reproduzimos perversamente. Acreditamos, ou fingimos acreditar, que é para o bem do filho. Entre o catatau de matérias a serem estudadas, a de história bate todos os recordes. Além do livro didático, viciado em datas e fatos concretos, enormes TD’s reforçam o conteúdo e o terror.

Vejo minha filha estudando: “Quem instituiu as armas e o hino do Ceará?” “Quem regeu o hino do Ceará pela primeira vez?” “Quem fez a letra e o hino do Ceará?” “arrrgh... odeio história”. Claro que ela odeia. Mas quem, tendo que decorar um  monte de coisas inúteis, também não odiaria? Quem, doutores ou mestres, sabemos essas grandes cousas de cor? Quem, se não somos especialista no assunto, lembramos, sem a ajuda da pesquisa, datas e nomes como estes? De nada serve para a construção da minha filha, para a sua vida, para o seu crescimento cognitivo, para a sua inteligência, infância, alegria e beleza o que se está propondo como ensino de história.

Os argumentos em favor desse tipo de história beiram a hipocrisia. Dizem: “é preciso respeitar o nível cognitivo das crianças”; “desenvolver nelas um espírito cívico”; “deixar que elas descubram as relações sozinhas com o passar do tempo”. Os argumentos mascaram a preguiça, a falta de informação, o amadorismo e a ideologia dominante. Inocente ou perversamente, nossos mestres estão reproduzindo, a pretextos mil, um tipo de ensino que bitola, que vicia, que estimula a decoreba, que enaltece vencedores, que absolutiza relações, que conforma. E o pensar, elaborar e escrever onde ficam?

Nível cognitivo? Pois vejam essa: “Pai, onze de setembro foi instituída as armas do Ceará... olha pai, foi no mesmo dia do atentado aos EUA!” Tem alguma coisa a ver entre o símbolo armas do Ceará e o atentado? Para Anna Odara de dez anos tem. Para as crianças, as relações são construídas por elas. Até que nós adultos damos os ultimatos e desfazemos suas fantasias, seus engodos, suas relações e transformamos a história em uma estrada aberta, asfaltada, limpa e de mão única.

Anna Odara odeia história e me pede desculpa toda vez que diz isso: “desculpa pai”. Ela odeia história meio que dizendo que ama o pai apesar dele ter escolhido uma profissão que ela aprendeu ser tão chata. “Desculpa Odara”. Vejo que sou eu que devo pedir desculpa por não fazer nada capaz de tirá-la dessa idéia de decoreba.

Na academia, na universidade, estamos constantemente repensando o ensino de história. É uma preocupação presente em salas de graduação e pós-graduação: seminários e encontros discutem e propõem formas, alternativas, novos métodos. Porém, salvo alguns casos, essas idéias não têm chegado às salas de aula da educação básica onde realmente as coisas acontecem (ou não acontecem). Não se cogita repensar, parar, avaliar, recomeçar! Dar o conteúdo é sempre a maior preocupação. Tomemos cuidados senão daqui a pouco estaremos dizendo para nossas crianças que é necessário ensinar (e decorar) assim, devido ao mundo competitivo em que vivemos, ao funil do vestibular, ao novo mundo do trabalho...Será que não já dissemos?

Jean Mac Cole Tavares Santos
Pai da Anna Odara
Mestre em História social
Doutorando em Educação
UFPB