Inicialmente, peço licença aos amigos de HaD, para escrever em português. Imagino que para os falantes do espanhol a compreensão não seja difícil, dada a enorme semelhança entre os nossos idiomas. Para nós, brasileiros, o espanhol é uma segunda língua, muito familiar e muito agradável para se ouvir e ler. Escrever já é um pouco mais complicado, por isso, não me atrevo.
A questão que tem sido mencionada sobre o pedido de perdão dos países ibéricos à América me parece muito diversa do "perdão" do Vaticano às vítimas da inquisição. As atrocidades cometidas pelos inquisidores da Igreja contra os "herejes" e as "bruxas" se deram em nome da fé cristã, por iniciativa da Igreja, a qual continua existindo e continua sendo a expressão máxima da religião católica. As pessoas são outras, certamente, mas a instituição continua. Assim, não haveria o menor sentido em que os católicos hoje pedissem perdão pelos crimes de seus antepassados. Mas faz sentido que a Igreja, enquanto instituição, reconheça as injustiças e barbaridades que foram cometidas em seu nome.
A questão do perdão dos países ibéricos aos povos pré-colombianos da América me parece muito diferente. Não há, neste caso, uma instituição que tenha se reproduzido no tempo e que possa se assumir como responsável pela violência do passado. Penso que a redenção dos povos indígenas só pode se dar com a inversão da perspectiva da qual se conta a história. Dou um exemplo: a história oficial afirma brasileira: o Brasil foi "descoberto" pelos portugueses. Uma história contada a partir da perspectiva do dominado, portanto do indígena, inverterá o movimento: os portugueses "chegaram". Essa pequena diferença muda toda aseqüência. Se dizemos "descobrimento", continuamos narrando as ações dos "descobridores": os primeiros contatos com o "gentio" (muito amigável, de início), a disputa com os franceses (piratas, inimigos) pela posse do território, a organização administrativa colonial, a ocupação da terra para a cultura de cana-de-açúcar (e já então os índios não eram tão amigos, pois atacavam as pacíficas vilas coloniais, e por isso tinham que ser combatidos), a adoção do trabalho escravo negro, e assim por diante. Nessa história, os índios só aparecem como cenário, como se vê num quadro famoso, estampado nos livros escolares brasileiros, que retrata a primeira missa rezada no Brasil, assistida pelos índios como se estivessem, embevecidos, diante da visão do paraíso. Ao contrário, se começamos com "os portugueses chegaram", segue-se a invasão (não ocupação, porque a terra já estava ocupada), a guerra, a escravização dos índios, a violência simbólica da cristianização pelos jesuítas etc. Melhor ainda, se conseguirmos mostrar os dois lados da mesma história.
Não se trata de dividir a história entre os bons e os maus. Trata-se, sim, de recuperar certos temas que a historiografia oficial, escrita da perspectiva européia, não considerou. Não há relato descomprometido. Mesmo com toda seriedade que envolve o trabalho científico, sabemos que não há neutralidade ideológica e que, portanto, ninguém é o detentor da verdade. Resgatar a dignidade dos povos colonizados só pode ser uma tarefa de nós mesmos e não responsabilidade dos ibéricos. Com os pés fincados na América, podemos recontar essa história, trazendo para ela os sujeitos que ficaram na sombra por quase 500 anos. Além do que, a violência, a exploração, a escravidão, a desigualdade persistiram depois da emancipação política, em todos os países da América Latina. A classe dominante "crioula" não perde para os colonizadores em atrocidades cometidas.
Por uma interessante coincidência, esse novo debate - sobre a colonização da América Latina começa no mês em que se comemora no Brasil, os 500 anos do "descobrimento". A mídia faz a festa. Nada melhor do que retomar as velhas fórmulas, os discursos fundadores da nacionalidade, (como a carta de Pero Vaz de Caminha anunciando ao rei de Portugal o "achamento" da nova terra), nada melhor do que essa grande parafernália mediática para proclamar a grandeza da pátria, o progresso alcançado, o futuro promissor, camuflando, dessa forma, os gravíssimos problemas que enfrentamos hoje. A violação das terras indígenas é apenas um, de um conjunto que seria impossível enumerar aqui, em poucas linhas (que já não são tão poucas, aliás). É também esse tipo de manipulação da história que temos que denunciar. Quanto ao perdão dos países ibéricos, mesmo que fosse defensável, o que não creio,de que nos valeria ele,
agora?

Sonia Irene do Carmo
UNESP- Brasil