Na minha última mensagem, referi-me às comemorações dos "500 anos do descobrimento do Brasil", uma festa produzida sob medida para a mídia. Não sei se os companheiros de HaD tiveram notícias de como transcorreram as comemorações. Resumidamente, aconteceu o seguinte: as festividades oficiais foram programadas para a cidade de Porto Seguro, no estado da Bahia, local onde aportaram as caravelas dos portugueses, no dia 22 de abril de 1500.

As organizações indígenas e o Movimento Sem Terra (MST) pretendiam comparecer para realizar um protesto pacífico. Contrariando a história oficial, aparecia uma voz que pretendia mostrar o outro lado dessa história.

Entretanto, um dia antes, temerosos de que as manifestações perturbassem os ritos comemorativos oficiais, a polícia bloqueou a estrada que dá acesso a Porto Seguro, impedindo a passagem, não apenas dos manifestantes, mas também de turistas que pretendiam assistir aos festejos e até mesmo de moradores que se encontravam fora de sua cidade.

A polícia agiu com extremo autoritarismo e violência, resultando na prisão de 141 pessoas e pelo menos 30 feridos. Vê-se que, na disputa pelas versões da história, como em tudo mais, ganha quem tem o poder. Nenhuma voz dissonante contrastou com os discursos oficiais, pronunciados pelos presidentes do Brasil e de Portugal.

Ontem, dia 26, as festividades continuaram e na mesma cidade de Porto Seguro, foi celebrada uma missa, por um enviado especial do Vaticano, comemorando os 500 anos da primeira missa rezada pelos portugueses nas terras que viriam a se tornar o Brasil. Contrariando as recomendações do próprio Vaticano, para que não se permitissem manifestações de crítica, um índio Pataxó, Matalauê, vestindo os trajes tradicionais de sua tribo, e acompanhado de um grupo de índios portando uma faixa negra, subiu ao púlpito e fez um discurso, condenando a repressão do sábado. Estou transcrevendo na íntegra, abaixo, o discurso desse índio, porque considero que ele representa uma rara oportunidade de conhecer a versão dos índios brasileiros sobre a história da colonização. Segue o discurso de Matalauê:

"Hoje é esse dia que podia ser um dia de alegria para todos nós. Vocês estão dentro da nossa casa. Estão dentro daquilo que é o coração do nosso povo, que é a terra, onde todos vocês estão pisando. Isso é a nossa terra.

Onde vocês estão pisando vocês têm que ter respeito porque essa terra pertence a nós. Vocês, quando chegaram aqui, essa terra já era nossa. O que vocês fazem com a gente?

Nossos povos têm muitas histórias para contar. Nossos povos nativos e donos desta terra, que vivem em harmonia com a natureza: tupi, xavante, tapuia, caiapó, pataxó e tantos outros. Séculos depois, estudos comprovam a teoria, contada pelos anciões, de geração em geração dos povos, as verdades sábias, que vocês não souberam respeitar e que hoje não querem respeitar.

São mais de 40 mil anos em que germinaram mais de 990 povos com culturas, com línguas diferentes, mas apenas em 500 anos esses 990 povos foram reduzidos a menos de 220. Mais de 6 milhões de índios foram reduzidos a apenas 350 mil.

Quinhentos anos de sofrimento, de massacre, de exclusão, de preconceito, de exploração, de extermínio de nossos parentes, aculturamento, estupro de nossas mulheres, devastação de nossas terras, de nossas matas, que nos tomaram com a invasão.

Hoje, querem afirmar a qualquer custo a mentira. A mentira do Descobrimento. Cravando em nossa terra uma cruz de metal, levando o nosso monumento, que seria a resistência dos povos indígenas. Símbolo da nossa resistência e do nosso povo.

Impediram a nossa marcha com um pelotão de choque, tiros e bombas de gás.

Com o nosso sangue, comemoram mais uma vez o Descobrimento.

Com tudo isso, não vão conseguir impedir a nossa resistência. Cada vez somos mais numerosos. Já somos quase 6 000 organizações indígenas em todo o Brasil.

Resultado dessa organização: a Marcha e a Conferência Indígena 2000, que reuniu mais de 150 povos; teremos resultado a médio e a longo prazo.

A terra para nós é sagrada. Nela está a memória de nossos ancestrais dizendo que clama por justiça. Por isso exigimos a demarcação de nossos territórios indígenas, o respeito às nossas culturas e às nossas diferenças, condições para sustentação, educação, saúde e punição aos responsáveis pelas agressões aos povos indígenas. Estamos de luto. Até quando? Vocês não se envergonham dessa memória que está na nossa alma e no nosso coração, e vamos recontá-la por justiça, terra e liberdade." Jornal Folha de S. Paulo, 27-04-2000.

Sonia Irene S. do Carmo
UNESP, Brasil