Historia Inmediata/ Debates


¿Es posible una historia inmediata?

 
 
Sobre a história do tempo presente

“Fazer história imediata é ser
Georges-Jacques Danton levado
ao cadafalso, falando ao povo
de sua relação com a revolução
e explicando o significado da sua morte.”

Jean Lacouture

Fazer história do tempo presente merece uma atenção redobrada. Os historiadores não cansam de perguntar a que veio esse com a história do presente. Poderíamos nesse ponto passarmos despercebidos, como alguém que nos chama e fazemos de conta que não ouvimos. Não dá, porém, para fazer ouvidos de mercador.

É preciso pontuar, porém, que fazemos história bem antes que história do tempo presente. Jean-françois Sirinelli nos diz que “o historiador trabalha sobre o passado, mesmo que próximo, isto é, sobre o que está abolido ”. O historiador do presente trabalha sobre um passado mais próximo, com os acontecimentos indefinidos ou até mesmo no meio dele. Acreditamos que “a história do presente é primeiramente e antes de tudo história ”.

Mas não teimamos em admitir que não exista singularidades a mais nesse tipo de história. Bem mais do que as especificidades da história tida como clássica, vemos que passamos por certos momentos tão somente nosso. A história do presente requer uma atenção toda especial para as fronteiras de sua disciplina no momento que a história e as outras disciplinas explodem as fronteiras entre si. No nosso metier as confusões com os jornalistas (principalmente os bons jornalistas) e sociólogos são intermináveis. Perguntas como quem invadiu o território alheio se não tem sentido em várias disciplinas das ciências sociais, aqui ela ressuscita.

Uma outra questão sempre levantado contra esse tipo de história é que o historiador sofre as influencias de seu tempo. Eric Hobsbawn na Era dos Extremos - O breve século XX, admite que relutou em iniciar tal tarefa devido à “consciência dos assuntos públicos”  que lhe trariam a criação de opiniões e preconceitos sobre a época. Não é necessário dizer que tais medos não foram suficientes para que ele deixasse de realizar uma brilhante obra sobre seu século (seu século de vida, já que ele se considera um homem do século XIX, enquanto historiador). Hobsbawn declara: “recorri ao conhecimento, às memórias e às opiniões acumulados por uma pessoa que viveu o breve século XX na posição de observador participante” . Além de vencer as dificuldades de ser participante, então, o autor ainda ultrapassa os seus preconceitos e de outros, para poder considerar as suas ações enquanto agente histórico do processo, utilizando sua memória como fontes do processo. Ele abre caminho para se entende!
r que a história enquanto o historiador está presente é mais do que possível: é necessária.

Nenhuma construção histórica, seja ela desse século ou dos séculos passados, está imune aos preconceitos e desvios dos historiadores. Isto é, nada garante de antemão, que trabalhar com uma pesquisa de duzentos ou trezentos anos atrás, afasta o historiador dos preconceitos de seu tempo. É verdade que o historiador do presente leva consigo toda a carga que acumulou de sua época para a discussão com as fontes, e que a história que forja não está imune de sua personalidade, ideologia ou interesse de classe. Mas da mesma forma, o historiador do passado não está ileso de tais desvios. O resultado da pesquisa só tem uma cara: a do historiador, seja ele do presente ou clássico. Isso não quer dizer uma confirmação simplista da máxima que toda história é uma história do tempo presente por que é feita a partir do tempo do historiador. Mas que toda história é pensada a partir do tempo do historiador que vai buscar no passado (mesmo o próximo) as interlocuções para a compreensão da reali!
dade.

Jean Lacouture, em a história imediata , discutindo a possibilidade dessa história diz: “o que faz ao mesmo tempo a especificidade e a fraqueza desse tipo de história, é o fato de que o pesquisador imediato, ao contrário do historiador, ignora o epílogo.”  Ele não tem o suporte da sabedoria do final do jogo ou dos números anteriormente sorteados na loteria. A construção histórica proposta, torna-se, então, mais difícil. “o historiador do presente e do imediato não dispõe dessa arma inelutável que possui o historiador clássico, conhecer a seqüência numa duração bastante longa. Ele deve manifestar uma prudência particular, não se arriscar na prospecção em função de um presente que não pode ser senão provisório” .

Por outro lado, o historiador não está viciado pela certeza do que aconteceu. Para exemplificar, Marc Ferro em uma entrevista para a televisão inglesa a respeito da Revolução Russa, falou do Domingo Vermelho, quando os camponeses foram até o palácio de inverno fazer algumas reivindicações e, ao mesmo tempo, mostrar apoio ao czar. A resposta foi uma investida da guarda, atirando contra os manifestantes. Segundo Ferro, com aquele ato o czar tinha decretado seu futuro. A tomada do poder pelos mencheviques era uma questão de tempo. Falar do Domingo Vermelho com o peso da história é uma coisa, fazer sem imaginar o que aconteceu é outra coisa. Em outras palavras, a história mostrou que não tinha outra opção para o imperador. Um historiador daquele período veria várias possibilidades para o evento. Várias ações poderia ter desviado os rumos dos acontecimentos daquele Domingo em diante. Mas hoje, ao olharmos para o episódio, vemos a derrota do czar como inevitável. A análise do hist!
oriador que trata o presente, sendo um bom historiador, o faz com uma venda no rosto que o possibilita analisar os acontecimentos imune dos preconceitos da certeza do que virá. O que pode ser um problema para a história do presente pode ser também uma vantagem.

Se há especificidades que trabalham contra esse tipo de história, outras só podem ser usadas por que se trata da história próxima. Nós podemos como ninguém utilizar depoimentos para percebermos mais alguma coisa que o escrito, o gravado ou o filmado não conseguiu representar. A fonte oral para o historiador do presente é um complemento que pode substituir as fontes que não foram liberadas ainda; pode perceber certas intenções e sentimentos diante de certos acontecimentos; corrigir algumas distorções do documento escrito; preencher certas lacunas de eventos. Nenhum outro documento daria ao pesquisador a subjetividade que a fonte oral propicia. Sendo tratado com todos os cuidados da profissão por bons historiadores, o depoimento é a arma por excelência do historiador do tempo presente.

Algumas vantagens da história do presente, sem esquecer das dificuldades e diferenças, precisam da lembrança dos seus profissionais toda vez que se aventuram em praticar seu ofício. Serve como uma reafirmação de seu propósito e de sua coerência. Na maior parte das vezes, é feito com satisfação.  Os companheiros de profissão que se ocupam da historia clássica têm outras afirmações com que se preocupar. Ninguém está salvo, principalmente depois de vermos Hobsbawn desculpar-se do seu século XX, dessa reafirmação. É bom pensarmos que, apesar disso, toda história deveria levar um só verbete: História. Acreditamos no que nos lembra Sirinelli “por seus motivos, seus métodos, suas fontes, a história do presente não difere em nada da história do século XIX ”.
 
Jean Mac Cole Tavares Santos
UECE/ UFC