Debates


Historia y género


Caras(os) Colaboradoras(es),
 
Estou muito contente por ter encontrado, mesmo que tardiamente, um fórum de debate que se concentre nas interseções estabelecidas entre História e Gênero. Tenho me dedicado aos Estudos de Gênero como campo fundamental para repensar criticamente o mundo medieval, principalmente o medievo hispânico. No Brasil, o chamado Programa de Estudos Medievais  (IFCS/UFRJ), coordenado pelas professoras Andréia Frazão e Leila Rodrigues, é um dos poucos núcleos que concentra um pequeno número significativo de pessoas dedicadas à História das Mulheres, aos Estudos Feministas e/ou aos Estudos de Gênero e suas relações com o Medievalismo. A professora Andréia Frazão tem atuado na formação de alunos e alunas no campo da graduação e pós-graduação, e desenvolve temáticas neste âmbito. No meu caso, tenho me dedicado ao estudo das relações matrimoniais nos textos jurídicos e didático-propagandísticos presentes nas Partidas de Afonso X, no século XIII. Apesar da existência dos trabalhos de M. Stone e R. González-Casanovas, tenho constatado, nos meus levantamentos e análises bibliográficas, que a temática do casamento nas fontes jurídicas mereceu pouca atenção na perspectiva de gênero, principalmente quando consideramos a História da Espanha Medieval. Quando muito, as articulações são tangenciais e ainda estão vinculadas a determinadas tendências da chamada História das Mulheres, no sentido que a colaboradora Vanesa Casanova-Fernandez critica. Nesse caso, o número de obras ainda é muito escasso, demonstrando não somente a persistência da marginalidade dos estudos hispânicos na medievalística no Brasil e em outros países, apesar do seu crescimento, como também a pouca penetração das análises de gênero no âmbito das perspectivas ligadas a essa temática e a essa parte da Europa. Concordo com Vanessa Casanova-Fernandez e ainda acrescento que é preciso pensamos a perspectiva de gênero a partir de métodos desconstrutivos em que as hierarquias, as assimetrias, as pluralidades de gênero (mulheres, homens, feminino, masculino, masculinidades, feminilidades e outras configurações “genderizadas”) e seus aspectos relacionais sejam associados à complexidade de práticas discursivas, ao tempo e às relações de poder. Portanto, tendo cuidados com os excessos das perspectivas historiográficas “idealistas” ou demasiadamente “materialistas”, conseguiremos satisfazer o duplo desejo de tornar o “gênero” uma categoria útil de análise e um instrumento de atuação política. Esse duplo desejo deve ser sempre distinguido, pois, do meu ponto de vista, corremos o risco de domesticar a categoria “gênero”, com instrumento político, e/ou torná-la anacrônica, esvaziando seu poder de interpretação histórica. Daí a necessidade de aperfeiçoarmos as relações entre o conceito de gênero, as análises das tradições historiográficas, os métodos e a necessidade de fazermos novas perguntas às documentações já vistas ou às fontes recentemente catalogadas e divulgadas. 
 
Atenciosamente,
 
Marcelo Pereira Lima (Prof. Substituto de História Medieval na Universidade Federal do Rio de Janeiro/Doutorando em História pelo PPGH/UFF)