Historia Inmediata


Memoria

 

Professor  Jairo Omar,
 
Li atentamente a sua consideração sobre memória e discordo de sua conceituação. A memória coletiva traduz o imaginário de uma comunidade .Evidente que não reproduz os fatos "tais" como aconteceram, pois são lembranças reconstruídas com fragmentos de várias memórias. Essas memórias são construtoras de identidades e base das sociedades tradicionais. Nesse sentido, permite-me citar um trecho de uma comunicação que apresentei sobre as estratégias da memória :
 
" Desde as primeiras décadas  do século XX, com a obra de Maurice Halbwachs sobre os Quadros Sociais da Memória, historiadores e cientistas sociais, além dos psicólogos, reconheceram a importância de se aprofundar os estudos da memória coletiva para maior entendimento dos processos identitários dos grupos sociais. A necessidade de se conhecer a formação e a transmissão da memória coletiva dominou os autores da memória. Assim , os estudos de Pierre Nora sobre os Lugares da Memória , como noção abstrata e puramente simbólica, destinada a desentranhar a dimensão rememoradora dos objetos materiais e sobretudo imateriais que permeiam os grupos sociais, alertaram os historiadores para o poder da memória coletiva.
 
Os historiadores da   Escola dos Analles também contribuíram substancialmente para o entendimento da memória como fonte para a construção da história social  ou das mentalidades, como Jacques Le Goff , Georges Duby, Aurore Becquelin, além dos aportes recebidos de James Fentress e Chris Wickham e da  da psicologia através dos estudos de Maurice Moscovici, Denise Jodelet, Celso Sá entre outros estudiosos. Esses autoresapontaram a necessidade de se valorizar as lembranças , as recordações e asrepresentações do passado, através de um imaginário reformulado pelo tempo,anacrônico, não compromissado com verdades, compreendendo apenas informações retidas na memória, contada pelos mais velhos, ou apreendidas pela interação dos grupos sociais.
 
 As lembranças passaram a ser valorizadas, assim como a cultura popular, desde a tradição à oralidade. A história precisa se abastecer dessasmemórias, de suas estratégias de guardar ou esquecer acontecimentos, de suas astúcias em organizar as representações do  passado vivido ou imaginado, versões de uma  realidade ou  uma  irrealidade.   Os especialistas em Ciências Sociais reconhecem que  memória é feita de fragmentos dispersos,muitas vezes evasivos, frutos de uma imaginação criativa, de  lembrançasindividuais ou coletivas, versões da realidade e imaginário.
 
 A memória constitui também um espaço de divergências e confrontos, esquecimentos e silêncios, de práticas individuais  e sociais e dos espaços de apropriação. Reconfiguração e recuperação das distintas visões do passadofazem parte  da memória e de suas estratégias de lembrar, recordar, criar representações e construir   elos identitários dos grupos sociais. E estratégias de dominação são mecanismos  reveladores  de manipulação da memória coletiva como instrumento de poder".
 
Acredito , assim , ter contribuido para esclarecer algum equivoco Um abraço
 
Profa.Maria Teresa Toribio
Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ