Historia Inmediata


Ataque a EE.UU


[Artículo publicado en el diario O Povo, 30/9/01]

Dies irae dies Illa...

O grande exercício da sabedoria está na tolerância de conviver com o outro na sua diferença. Mas isso possui limites ambíguos, que são valores como liberdade e dignidade

Eduardo Diatahy B. de Menezes
Professor

[29 20h41min]

Explico logo porque escolhi, à margem do atentado de 11 de setembro, este dístico latino dos versos iniciais de hino medieval da liturgia cristã dos mortos ''O dia da ira, aquele dia que dissolverá todos os tempos numa fagulha''. Dies irae designava de fato o Juízo Final. Não quero, porém, atribuir à ocorrência a significação de ruptura do 7º selo apocalíptico.

Tomo esse verso como metáfora poética, pelo hábito de mergulhar em reflexão histórica sempre que me deparo com eventos do gênero. E acontecimentos históricos chocantes tendem a desvelar zonas sombrias da alma humana. Mas não pretendo fazer aqui nenhuma interpretação do fato. Já basta a pletora de textos que surgiu com tal presunção; alguns a afirmar que o século XXI se inicia nessa data, e outras tolices do estilo. Aliás, este século ''nasceu'' antes, com a fraude dos que vendiam pacotes turísticos para o reveillon de 1999. Se somarmos a isso à massa de desinformação divulgada agora pelas grandes redes de televisão, daremos fé a nosso Marquês de Maricá (1773-1848), em suas reflexões sobre a vaidade dos homens ''Ninguém mente tanto nem mais do que a História''.

Todavia, em tempos obscuros, de pensamento ossificado em pólos mutuamente exclusivos, mais que nunca, precisamos de reflexão e flexibilidade para iluminar nossa razão e nossas emoções. Face à indigente simplificação que força a optar entre Bush e Laden, apenas invoco algumas anotações na tentativa de captar os sinais dos tempos, desta humanidade que um dia sairá de sua atual fase primitiva.

Tais eventos fazem da História o corpo do tempo, disforme ou harmonioso segundo nosso desempenho coletivo. Walter Benjamin, em suas Teses sobre a Filosofia da História, vê, crítico, o seu processo ''A empatia com os vencedores beneficia sempre os dominadores. Como de praxe, os despojos de tais vitórias são levados em cortejos triunfais e são em geral o que chamamos de bens culturais. Desse modo, em sua grande maioria, os monumentos da civilização são também monumentos da barbárie...'

Ora, quando Bush conclama a todos para uma guerra ''santa'' do Bem contra o Mal, ignora ou finge não saber que o mártir que sacrifica a vida para destruir símbolos adversários realiza igual proeza, com heróica perfeição. Indagava Durkheim ''Quando alguém morre por uma bandeira, o faz por um pedago de pano?!' Assim, fanatismos de sinais invertidos jamais comporão um diálogo.

O sistema mundial assenta sobre uma desordem estabelecida, que assegura não a prevalência do bem sobre o mal, mas o domínio e a exploração de alguns sobre muitos. Em geral, nos chocamos com o sangue derramado ante um pelotão de fuzilamento revolucionário ou um atentado como o do WTC. Mas nossa consciência não nos imputa responsabilidade diante de um sistema que institui uma internacional da morte em amplas áreas do mundo, como na África, submetida a um genocídio de 500 anos pela ação do Ocidente cristão e civilizado.

Todos têm seus fanatismos. Religiosos, políticos, esportivos, etc. Mas na sua raiz está o primeiro deles. Aliás, fanatismo vem do latim fanum, o lugar sagrado, o templo conduta daquele que se crê inspirado pela divindade e defende sua convicção. Daí nascem divergências de mentalidade e intolerância. O grande exercício da sabedoria está na tolerância de conviver com o outro na sua diferença. Mas isso possui limites ambíguos, que são valores como liberdade e dignidade.

Na segunda parte do Fausto, Goethe atribui às Esfinges esta fala ''Sentadas diante das pirâmides, sem pestanejar, contemplamos a vida dos povos inundações, guerras e paz''. Isso se aproxima da ironia de Bernard Shaw ''A história ensina-nos que a história nada nos ensina''. Ou do iluminismo de H. G. Wells ''A história da humanidade torna-se cada vez mais uma corrida entre a educação e a catástrofe''. Já Freud, na maturidade, conclui O Mal-Estar na Civilização com esta questão penosa ''Só nos resta esperar que o outro dos dois 'Poderes Celestiais', o eterno Eros, desdobre suas forças para se afirmar na luta com seu não menos imortal adversário (Tânatos). Mas quem pode prever com que sucesso e com que resultado?'

Sentimento trágico da vida, com esperança de ganhos éticos, posto que mínimos. Os humanos são seres desamparados que nascem e se constroem na dor e no prazer. Eis o filósofo Michel Serre em lúcido comentário do atentado, de que traduzo este trecho ''Conheci a 2ª Guerra Mundial e seus milhões de mortos. Hoje, algumas mortes, mesmo trágicas, nos enlouquecem. (...) É mister pôr este acontecimento no longo curso da História. Na escala da humanidade, tal evento terrificante é um pequeno fato. É porque o homem sempre teve consciência de sua morte que se distinguiu dos animais. Esse saber capital fez nascer a cultura. Toda tragédia cria civilização. Isso ajudará a construir um mundo mais justo''.

Eduardo Diatahy B. de Menezes é professor titular da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (Uece), membro do Instituto do Ceará e da Academia Cearense de Letras (ediatahy@ibeuce.com.br)