Historia Inmediata


Ataque a EE.UU

 
Muito já se falou e escreveu a respeito dos atentados ao World Trade Center e ao Pentágono e seus desdobramentos, mas queremos aqui aproveitar a oportunidade para discutir de que maneira estes atentados influenciaram na nossa forma de perceber as diferenças, de perceber o outro. Perceber no sentido de olhar o outro e considerar a sua existência como algo concreto.

O conflito entre o Ocidente e o Oriente é muito antigo, tão antigo que remontarmos a sua gênese seria inviável. Portanto, a nossa reflexão partirá do contexto em que o "pensamento moderno" (Ocidental) dará origem a instituições próprias, tais como o Estado Nação, e construirá um conceito de "civilização".

Foi no final do período que convencionou-se chamar de Idade Média, na Europa, que a noção de civilização começa a tomar força. Esta "civilização" nascia do conflito com o "não civilizado", isto é, era do seu oposto, o "bárbaro", que nascia o "civilizado". E quem era o bárbaro naquele momento? Podemos responder que o bárbaro era todo aquele que não estava moldado ao padrão que os europeus ocidentais estavam construindo, ou seja, eram, primeiramente, os não cristãos, os que não se organizavam politicamente em Estados, aqueles que não desejavam se enquadrar no novo modelo econômico que se implementava (o mercantilismo, ou, capitalismo comercial), aqueles que não legitimavam a suas instituições jurídicas no antigo Direito Romano, em resumo, era o "outro", e este "outro" eram, também, os muçulmanos.

Ao conceito ocidental de "civilização", construído naquele momento, associou-se outro, o de que existiria uma "superioridade" dos povos "civilizados" sobre os "não civilizados". Esta idéia, forjada talvez por interesses econômicos, mas impregnada no imaginário dos homens e mulheres do Ocidente ("civilizado"), legitimou a exploração e a eliminação dos mais diversos povos, entre estes, os povos que habitavam as terras que hoje denominamos de América e África. Foi da tentativa de eliminação do "outro", do diferente, que a civilização ocidental foi estendendo as suas fronteiras e se fortalecendo. Porém esbarrava no Oriente, cujos povos possuíam uma organização político-administrativa bastante complexa e forças militares numerosas e treinadas, o que dificultou, mas não impediu, a expansão do Ocidente na Ásia, expansão esta que também conhecemos por imperialismo e que se aprofundou a partir do século XIX. Porém, numerosas regiões da Ásia mantiveram identidades radicalmente conflit!
antes com as identidades forjadas no Ocidente, constituíram-se num permanente "outro", e passaram a ser satanizados pelo modelo capitalista (ocidental). Os holofotes ocidentais caíram desde então sobre o "outro" não no sentido de percebê-lo como diferente, mas sim, objetivando ofuscá-lo, transformando-o em "bárbaro", em "não ser": os orientais não seriam orientais, eles seriam os não-ocidentais, e por isso não desenvolvidos, não competentes e, o que talvez se constitui como o mais grave, eles seriam o oposto do bem, eles seriam o mal. E com a mesma intransigência que o "Ocidente" se voltou para o "Oriente", o "Oriente" se voltou para o "Ocidente"; é como a imagem refletida no espelho que nos mostra de forma invertida.

É a partir desta reflexão que queremos discutir os desdobramentos dos atentados de 11 de setembro que, acreditamos, constituem-se como novos marcos desta histórica percepção  -  a do "outro" como o oposto que deve ser eliminado  -   devido a dimensão das suas repercussões.

Novamente, como que se repetindo o procedimento de vários séculos, não se procurou compreender os motivos que levaram o "outro" a cometer os atentados, pelo contrário, as reações desencadeadas foram as de julgar os atos por si só como violentos, próprios de "bárbaros" que desejam destruir a "civilização", ou, do "mal" contra o "bem". Feito o julgamento, há de se punir os "culpados", mas será que o "culpado" é realmente o "outro"? Assim como o "Ocidente" respondeu aos ataques com uma guerra considerada "justa", os ataques terroristas também não podem ser percebidos como uma resposta "justa" ao terrorismo há séculos perpetrado contra os povos do "Oriente"? Não continuamos nós a satanizarmos aquilo que desconhecemos?

Mesmo aquelas interpretações que procuravam fugir da massificação provocada pelas sucessivas imagens das duas torres desabando em meio ao fogo, como que remetendo à visão do inferno de Dante, apresentavam o "outro" (mais especificamente o muçulmano) não como o diferente, mas como um igual, o que ele também não é. A visibilidade conferida por estas interpretações remetem a uma tentativa de encontrar pontos convergentes entre as concepções de mundo "cristãs" e as concepções de mundo "islâmicas", quando necessitamos, isto sim, compreender o que há de diferente entre estas concepções.

A partir do momento em que, desarmados dos nossos preconceitos, conseguirmos dialogar com, e não para, o Oriente, procurarmos perceber e sermos percebidos, reconhecer a existência do diferente e sermos, também, reconhecidos na nossa diferença, então, talvez, estaremos buscando a convivência e o respeito.  E neste momento, em que se agravam os conflitos entre árabes e israelenses, em que os Estados Unidos assume a função de um "Tribunal da Santa Inquisição" que há de purificar a terra do "mal", em que a geopolítica internacional desequilibra-se de uma maneira que não se via desde o final da Segunda Guerra (1939-1945), é de vital importância esta aproximação, diálogo e compreensão do, e com, o "outro".

Viegas Fernandes da Costa 
historiador e professor 
Colégio Metropolitano (Indaial - SC - Brasil)
viegasfc@terra.com.br