Grupo Manifiesto Historia a Debate


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Buenos dias a todos los colegas y amigos de HaD!

Me perdoem a impertinência, se este for o caso, mas me parece muito aborrecido discutirmos e-mails sem fim sobre correção ortográfica ou não dos colegas hispano-hablantes que não manejam tão bem a língua de Cervantes. Aliéas, este é o meu caso, também. Mas não vou deixar de escrever em espanhol (melhor seria dizer, portunhol), nem falar em determinadas situações porque cometo erros. Nós, por aqui, pelo menos um boa parte, não nos aborrecemos quando um estrangeiro fala ou escreve nosso português como seus acentos sonóros ou escritos de modo pesado. Os franceses gostavam de dizer que os espanhóis falam sua lingua como se fossem uma "vaca"! Soa grosseiro, não é mesmo? Mas seria o mesmo que condenar um índio Pataxó, ou um retirante nordestino que não consegue e não pode falar um português castiço! Muitos franceses reconhecem que eles mesmos não são muito dotados em línguas. Alguns dos meus amigos franceses ainda hoje se aborrecem quando lhes mostro os erros de francês que Proust cometeu ao escrever A la recherche du temps perdu! Precisamos todos da linguística, mas nunca seremos linguistas. Aqui no Brasil que é um imenso continente, foi e será impossível, sob as condições de existência de um capitalismo que cada vez mais corta gastos com a educação em todos os níveis, fazer com que os profissionais falem e escrevam corretamente a língua de Camões. Tudo bem: é necessário algum rigor. Mas não façamos disto um fetiche, pelo menos com os "estrangeiros"!

Gostaria de chamar suas atenções também para algo que, antes de ser da ciência, me parece ser também do bom senso, no que concerne as relações entre a história e a sociologia, e as demais disciplinas cientísficas. À reflexão é a do bom senso também. A história é uma totalidade. Mas nós, inclusive porque não vivemos mais que 120 anos, somos uma parcialidade, e portanto, uma relatividade. Por conseguinte, o mais que podemos aspirar é sermos totalizantes na perspectiva. Assim, quando Marx disse o que disse - de conhecer uma única ciência, a ciência da história, quis, ao mesmo tempo, enfatizar a totalidade dos processos históricos e relativizar a inevitável divisão social do trabalho entre as nossas disciplinas e, portanto as suas naturezas científicas de alcances relativos.
Não vejo como os sociólogos possam estudar outra coisas senão a história, a vida. Sim, o fazem como se fossem economistas, reduzindo os processos sociais às suas categorias mais lógicas e eliminando suas riquíssimas mediações. Isto deu a ilusão aos diversos sociólogos de serem mais "cientistas" que os historiadores, porque pareciam desembocar sempre numa "teoria" geral e que, realmente, esta era a finalidade de seu labor. Em compensação, os historiadores se acreditaram mais científicos porque colhiam com suas narrativas mais "fatos", quer dizer, mais elementos da historicidade, o que lhes faziam, no entanto, perder de vista o movimento de totalização que só é possível através da teoria. Mas se só é possível construir uma teoria se eliminarmos muitas categorias "menores" dos processos históricos sociais, só é possível à esta mesma teoria ser científica se não perder o contato, jamais com o concreto-real.

Ao admitirmos isto só temos uma saída ao "xeque mate": considerarmos a inevitável interpenetração das partes no todo e, portanto, a sua “transparcialidade” ou o que me parece melhor, a sua “transdisciplinaridade”. O objeto do sociólogo, do antropólogo, do economista, do etnólogo, do arqueólogo, e mesmo o do físico e do químico, é a história, assim como o dos historiadores. Porque como dizia Prigogine não é possível eliminar a historicidade mesmo do universo. Uma estrela é como um ovo frito: depois de explodir jamais voltará ao seu estado original. É por isto que o homem não entra duas vezes no mesmo rio! Mas nem por isto jogaremos fora "crianças com a água suja do banho". Entraremos no rio duas ou tres vezes pelo menos, como historadores, sociólogos, economistas e etc., mas sem complexos, nem fetiches, por favor!

Lhes envio um grande abraço desde Bahia.

Jorge Nóvoa
Universidade Federal da Bahia







 

 

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