JORNAL DA REDE ALCAR
Ano 4, N. 40 - 1 de abril de 2004

Editores Responsáveis:

José Marques de Melo (UNESCO/UMESP) / email: marquesmelo@uol.com.br e Francisco Karam (FENAJ/UFSC) / email: fjkaram@terra.com.br

Edição digital – Profa. Maria Cristina Gobbi, Keila Baraçal e Larissa Didone (UMESP)

Sítio digital – Prof. Clovis Geyer e Ana Paula de Souza (UFSC)

------------------------------------------------- 
Rede Alfredo de Carvalho para o resgate da memória da imprensa e a construção da história da mídia no Brasil
-------------------------------------------------

Colaboradores desta edição: Colaboradores desta edição: Adriana Moreira (Covilhã, Porugal), Andral Nunes Tavares (Campos – RJ), Ivone Ferreira (Covilhã, Porugal), Juçara Brittes (Vitória – ES), Luiz Carlos Barreto (Rio de Janeiro, RJ), Maria Cecília Guirado
(Marília – SP), Rosa Zeta de Pozo (Lima, Peru).

-------------------------------------------------

www.jornalismo.ufsc.br/redealcar

www.metodista.br/unesco/redealcar

-------------------------------------------------

Sumário:

Noticiário da Rede Alcar

Encontro de Florianópolis: GTs selecionam contribuições
relevantes para a História da Mídia no Brasil

Comitê Nacional via projetar ações da Rede Alcar para o quadriênio 2005-2008

Núcleo Paulista promove ciclo sobre História e Mídia

Núcleo Maranhense resgata a contribuição do
Professor Marques de Melo para a História da Imprensa

Grupo da Rede Alcar em Marília (SP)

 

Capítulos de História da Mídia

O futuro "incerto" das televisões

Imprensa operária gaúcha: um século de História

Portal do Jornalismo Brasileiro

"Páginas de resistência": livro sobre a imprensa comunista do Pará

O olho da história: fotojornalismo e história contemporânea

História Imediata: Santiago de Compostela debate novos paradigmas historiográficos

 

Série 200 anos da imprensa brasileira

Trajetória da mítica figura do jornalista e empresário Roberto Marinho/Gabrtel Collares

-------------------------------------------------

Noticiário da Rede Alcar

Encontro de Florianópolis: GTs selecionam contribuições relevantes para a História da Mídia no Brasil

O II Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho está programado para se realizar em Florianópolis, de 15 a 17 de abril de 2004, organizado pelo Departamento de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC - , sob a liderança do Prof. Dr. Francisco Karam. Além da conferência inaugural do jornalista português Luis Humberto Marcos e das mesas redondas sobre o tema central – História do Ensino de Jornalismo e das Profissões Midiáticas – , registradas na última edição deste Jornal, o evento congrega, em seus Grupos de Trabalho – GTs – algumas dezenas de pesquisadores de todo o país. As sessões dos GTs estão agendadas para os dias 16 de abril – 11 às 13 horas e 16:30 às 19:30 horas e 17 de abril – 11 às 13 horas, onde os autores de estudos recentes sobre História da Mídia terão a oportunidade de apresentar seus trabalhos, discutindo-os com os pares que participam dos respectivos Grupos de Trabalho.

São 119 (cento e dezenove)  trabalhos, assim distribuídos:

1) GT História do Jornalismo: 29 (vinte e nove)

2 e 3) GT História da Publicidade e da Propaganda: 14 (catorze)

4) GT História das Relações Públicas: 08 (oito)

5) GT História da Mídia Impressa: 17 (dezessete)

6) História da Mídia Sonora: 24 (vinte e quatro)

7) História da Mídia Visual: 07 (sete)

8) GT de Mídia Audiovisual 10 (dez)

9 História da Mídia Digital: 05 (cinco)

10) História da Mídia Educativa: 05 (cinco)

Transcrevemos, a seguir, a lista dos trabalhos selecionados em cada GT:

2o. Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho

Florianópolis, 15 a 17 de abril de 2004

1) GT História do Jornalismo

Coordenadora: Marialva Barbosa

Universidade Federal Fluminense (UFF)

 Diário Carioca – O Primeiro Degrau para a Modernidade
Nilson Lage
(Doutor, Professor da UFSC), Tales Faria (Editor / Revista Istoé) e
Sérgio Rodrigues (Editor / No Mínimo)

Os jornalistas e sua greve: consciência de classe e debate político
Marco Antonio Roxo (Doutorando em Comunicação – UFF)

Inventando tradições: os historiadores e a pesquisa inicial sobre o jornalismo
Richard Romancini (Doutorando em Comunicação – ECA/USP)

Tematização da cultura no jornalismo brasileiro –
Notas sobre a emergência das bases sociais
do jornalismo cultural entre 1808 e os anos 1950

Sérgio Luiz Gadini (Doutor, Professor da Universidade Estadual de Ponta Grossa/PR)

Como escrever uma história da imprensa?
Marialva Barbosa (Doutora, Professora da UFF)

Zona de sombra sobre o jornalismo
Beatriz Marocco (Doutora, Professora da UNISINOS)

A mídia como geradora de identidade e história
Maria da Conceição Silva Soares e
Vanessa Maia Barbosa de Paiva Rangel
(Mestres, Profs. FAESA-ES)

Fatos versus texto: história do conceito de objetividade no século XX
Mário Messagi Júnior
(Doutorando em História e Prof. da Universidade Federal do Paraná)

Teorias da Notícia: uma tentativa de construção
Andrelise Daltoé (Professora da UNIPAR e
UNIVEL e Mestranda da UNISINOS)

Jornalismo e Lingüística: uma proposta de InterComunicação
Érika de Moraes (Professora da UNESP e
Doutoranda em Lingüística IEL – UNICAMP)

Discussões sobre a intrínseca relação entre memória, identidade e imprensa
Ana Lúcia Enne (bolsista PRODOC/CAPES na Universidade Federal Fluminense)

A história do jornalismo em Novo Hamburgo: apontamentos iniciais
Neusa Maria Ribeiro (Professora da Feevale e UNISINOS; Doutoranda da UNISINOS) e
Maria Alice Bragança (Mestre, Professora da Feevale)

Imprensa Piauiense e os Ideais Republicanos –
A atuação do jornalista David Moreira Caldas no Piauí

Ana Regina Barros Rego Leal (Professora da Universidade Federal do Piauí))

A presença feminina na imprensa potiguar
Otêmia Porpino Gomes (Professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte,
Doutoranda em Educação – UFRN)

Gazeta de Alagoas: 70 anos de história
Lídia Ramires (Mestranda de Letras e Lingüística da Universidade Federal de Alagoas)
Rossana Gaia (Professora do CEFET-AL e Doutoranda de Letras e Lingüística da UFAL)

A opinião do jornalista brasileiro: no período colonial e na ditadura militar
Carina Paccola (Professora da Universidade Norte do Paraná – UNOPAR)

Na fundação da primeira escola de jornalismo do Brasil
Cásper Libero gera o conceito de jornalismo moderno

Gisely Valentim Vaz Coelho Hime (Doutora, Professora da UniFIAMFAAM)

Vitorino Prata Castelo Branco: pioneiro no ensino de jornalismo
Elizabete Kobayashi (Professora da UNIVAP)

Vitorino Prata Castelo Branco e o primeiro curso livre de jornalismo no Brasil
Osni Tadeu Dias (Mestre, Professor da UNIGRAN – Dourados/MS)

José Reis - A trajetória de um educador
Linair de Jesus Martins Giacheti (Professora da Uni FMU)

Os primeiros repórteres do Brasil
Maria Cecília Guirado (Jornalista, Doutora e Professora da Universidade de Marília)

Ensaio da trajetória e do pensamento de Adísia Sá
Maria Érica de Oliveira Lima (Doutoranda em Comunicação Social (UMESP).
Profa. de Comunicação FAE (São João da Boa Vista/SP) e FPM (Itu/SP).

A Voz das Mulheres em Maura de Senna Pereira, a primeira jornalista catarinense
Andressa Braun (Acadêmica do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina e
pesquisadora da Rede Alfredo de Carvalho)

O jornalismo econômico ontem e hoje: resgate histórico de sua expansão no Brasil
Hérica Lene (Mestre em Comunicação pela UFF, Professora da FAESA - ES).

A arte da palavra. Alceu Amoroso Lima e o jornalismo como missão civilizadora
Marcelo Januário (Mestrando de Comunicação– ECA/USP)

A história dos sentidos a partir dos paramentos
João Barreto da Fonseca (Mestre, Professor da FAESA – ES)
Bolsista da FIOCRUZ).

O discurso do Jornal O Globo e a construção do "Sujeito 174"
Danielle Ramos Brasiliense (Aluna da Pós-Graduação em História do Brasil da UERJ e

Cronologia da Notícia
Thais Mendonça (Doutoranda em Comunicação e Professora da UNB)

Memórias e identidades na construção jornalística de biografias não lineares
Felipe Pena (Professor da Universidade federal Fluminense)

2) GT História da Publicidade

e 3) GT História da Propaganda

Coordenador: Adolpho Queiroz
Universidade Metodista de São Paulo (Umesp)

 "O Estado de S. Paulo" e a guerra do Iraque: um estudo sobre propaganda ideológica
Adolpho Queiroz, Kleber Carrilho, Livio Sakai, Milton Pimentel Martins,
Patrícia Polacow
e Victor Kraide Corte Real (Universidade Metodista de São Paulo/UMESP)

A difusão da cultura publicitária por meio de uma agência laboratório
Amanda Fontoura Zanotto (Coordenadora e Professora do curso de Comunicação Social:
Publicidade e Propaganda da Universidade Paranaense – UNIPAR)

O produto solidário: o terceiro setor na propaganda brasileira
Rosana Borges Zaccaria (Coordenadora do Curso de Comunicação Social –
Habilitação em Publicidade e Propaganda – Universidade Metodista de Piracicaba/SP)

A propaganda republicana: estratégias de
comunicação política contra a monarquia brasileira

Victor Kraide Corte Real (Publicitário e mestrando em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo)

Golpe de 64: quarenta anos de revelações
Livio Sakai (Mestrando em Comunicação Social/UMESP)

Acusadores ou acusados? – A troca de papéis do PSDB e do PT
nos episódios Eduardo Jorge e Waldomiro Diniz

Kleber Carrilho (UMESP)

Tendências da publicidade no rádio AM de Rio Claro/SP:
um estudo do programa Bom Dia Sucesso, de Ney Paiva

Paulo Sérgio Tomazielo e Ricardo Santana (Faculdades Claretianas, Rio Claro/SP)

Propaganda ideológica: um estudo de caso da revista Maranhense
Marla Medeiros (Faculdades Integradas Alcântara Machado – FIAM/SP)

A relação televisão e processos políticos frente à convergência tecnológica:
quais as mudanças que chegam com a tv digital interativa?

Adriana Omena (Faculdades Claretianas, Rio Claro/SP e doutoranda ECA/USP) e
Débora Tavares (Faculdades Prudentes de Morais, ITU/SP e doutoranda UMESP)

Sociedade de Letras: o texto publicitário no final do século XIX
Mário Messagi Júnior (Professor da Universidade Federal do Paraná e doutorando em História – UFPR)

A evolução histórica da Publicidade radiofônica no Brasil (1922-1990)
Clóvis Reis (Doutor em Comunicação e Professor da
Universidade Regional de Blumenau/Furb)

O hino nacional brasileiro nas eleições presidenciais de 2002:
uma propaganda ideológica e a releitura de seu significado
Luciene Belleboni (Professora da Universidade Metodista de São Paulo)

O marketing social na história da criação de marcas
Rodrigo Piemonte (Universidade Paranaense – UNIPAR)

História da Imprensa em Capivari (1897 – 2004)
Lincoln Franco (Universidade Metodista de Piracicaba/SP)

 

4) GT História das Relações Públicas

Coordenadora: Cláudia Moura
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)

 Governo Médici: discurso oculto na comunicação institucional
Heloiza Matos (ECA/USP e Faculdade Cásper Líbero/SP)

De Chapa Branca à Interlocutora Qualificada:
a trajetória da atividade de assessoria de imprensa no Brasil e no RS

Laura Maria Glüer (Faculdade Metodista – IPA/RS)

Central de Atendimento 0800 do Senado Federal: uma história de conquistas para o cidadão
Marcia Yukiko Matsuuchi (Relações Públicas - Senado Federal/DF)

Contextualizando as Relações Públicas como atividade do campo profissional
Sonia Aparecida Cabestré (Universidade do Sagrado Coração – Bauru/SP)

Ensino das profissões midiáticas: trajetória do Curso de Comunicação da UFSM
Eugenia Maria Mariano da Rocha Barichello
(Doutora, Professora da Universidade Federal de Santa Maria)

A trajetória dos Projetos Experimentais Estágio do
Curso de Relações Públicas da Universidade do Vale do Itajaí / SC

Ediene do Amaral Ferreira (Relações Públicas, Coordenadora do Curso de
Comunicação Social-Relações Públicas da Univali e Mestre em Comunicação Social pela PUCRS);
João Carissimi (Relações Públicas, Professor do Curso de Comunicação Social-
Relações Públicas da Univali e Mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS)

Relações Públicas e Modernização: o Curso Especial da EBAP
Odilon Sergio Santos de Jesus (Especialista em Relações Públicas e
mestrando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e
Culturas Contemporâneas da Faculdade de Comunicação/Universidade Federal da Bahia.
Relações Públicas na Universidade Estadual de Feira de Santana)

Descaminhos das Relações Públicas na Bahia: bastidores de uma institucionalização
(Questionando a forma de implantação do primeiro
curso universitário de Relações Públicas da Bahia)

Joanita Nascimento Souza Neta ( bolsista de Iniciação Científica UNEB) e
Júlio César Lobo (Professor da FAPESB)

5) GT História da Mídia Impressa
Coordenador: Luís Guilherme Tavares
Núcleo de Estudos de História da Imprensa da Bahia (NEHIB)

 As crônicas-folhetinescas e a imprensa carioca no Segundo reinado:
retrato da entrada da modernidade no Brasil no século XIX
Ariane Patrícia Ewald (Orientadora e Professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro);
Aurea Domingues Guimarães, Carolina Bragança Sobreira,
Clarice Furtado de Oliveira e Emilene Araújo de Souza
(estudantes de graduação / bolsistas)

A imprensa da região tocantina e a luta pela
emancipação política do norte de Goiás na década de 1950

Aurielly Queiroz Painkow (Bacharel em Comunicação Social e
Jornalista da Unidade de Comunicação e Marketing do Sebrae –Tocantins)

Motivos para festa?
Caio Rodrigues Albuquerque (Faculdades Integradas Toledo / Araçatuba-SP)

O Jornalismo e os mecanismos de agendamento das rotinas sociais:
um estudo do jornal A República (Natal-RN) durante a Segunda Guerra Mundial

Carmem Daniella Spínola da Hora Avelino (Jornalista, Mestranda em Estudos da Linguagem e Assessora de Comunicação Social - Fundação de Apoio à Educação e ao Desenvolvimento do Rio Grande do Norte)

Imprensa e cidade: diários da "vida besta"
Elton Antunes (Professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais e
doutorando na Universidade Federal da Bahia)

Livro-reportagem: amealhando experiências para contar uma história
Gabriela Weber de Morais (Repórter do Jornal de Santa Catarina –
Blumenau e bacharel em Comunicação Social –
Habilitação Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Maria)

O precursor da imprensa mineira
Jairo Farias Mendes (Doutorando em Comunicação Social pela
Universidade Metodista de SP e professor da PUC Minas Arcos)

Machado de Assis: a crônica no jornal / o jornal na crônica
Jeana Laura da Cunha Santos (Jornalista, Doutora em Teoria Literária e
Professora do Curso de Comunicação Social da Faculdade Estácio de Sá - São José, SC)

O Diário de Notícias da Bahia e a influência nazista: 1935-1941
José Carlos Peixoto (Jornalista e Mestre em História Social pela Universidade Federal da Bahia)

A evolução gráfico-visual na mídia impressa brasileira
José Ferreira Junior (Doutor, Professor adjunto do Departamento de
Comunicação Social da Universidade Federal do Maranhão).

Elementos para uma história da imprensa na Bahia: a revista Viverbahia (1973-1980)
Júlio César Lobo ( Professor da FAPESB e orientador) e Milena C. Oliveira (bolsista PIBIC-FAPESB)

Folha do Norte (1891-1894), o jornal pioneiro da imprensa tocantina
Lailton da Costa (Especialista em Ciências da Informação pela USP
e Professor do Curso de Jornalismo do Centro Universitário de Palmas -Tocantins / Ceulp/Ulbra);
Irenides Teixeira (Mestre em Comunicação e Mercado pela Cásper Líbero e
Professora do Curso de Jornalismo do Centro Universitário de Palmas -Tocantins (Ceulp/Ulbra); e
Aurielly Painkow (Bacharel em Comunicação Social e
Jornalista da Unidade de Comunicação e Marketing do Sebrae-Tocantins)

A arte da palavra: Alceu Amoroso Lima e o jornalismo como missão civilizadora
Marcelo Januário (Mestrando na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo)

A evolução das logomarcas e logotipos em televisão e em mídia impressa
Márcio Fernandes (Jornalista, professor da Universidade Paranaense,
mestrando em Comunicação e Linguagens pela Universidade Tuiuti do Paraná);
Letícia Garcia
(Jornalista, professora do curso de Jornalismo da Universidade Paranaense,
especialista em Docência do Ensino Superior pela UNIPAR);
Francismar Formentão (Acadêmico do 4º ano do curso de Jornalismo da
Universidade Paranaense e participante do Grupo de Estudos em Comunicação da UNIPAR)

Impressos no Maranhão: uma primeira leitura sobre a fundação da imprensa local
Roseane Arcanjo Pinheiro ( Jornalista e Pesquisadora da Associação Maranhense de Imprensa)

No começo de tudo, a participação popular
Sonia Zaramella (Jornalista, Mestre em Ciências da Comunicação pela USP, P
rofessora do Curso de Comunicação Social da UniRondon em Cuiabá e
Professora Aposentada do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Mato Grosso)

Imprensa e Grande ABC: 100 anos depois
Valdenizio Petrolli (Professor da Universidade Metodista de São Paulo)

 

6) GT História da Mídia Sonora (Rádio, Disco)
Coordenadora: Ana Baum
Universidade Federal Fluminense (UFF)

Nas ondas da fé
João Batista de Abreu (Professor da Universidade Federal Fluminense e Doutorando da UFRJ)

Rádio e futebol: gritos de gol de Norte a Sul
Alda de Almeida (Professora da Universidade Veiga de Almeida) e
Márcio Micelli (jornalista e co-autor da pesquisa)

O rádio no contexto da propaganda nacional
Roberta Baldo (Coordenadora do Curso de Publicidade &
Propaganda da Universidade do Vale do Paraíba – UNIVAP)

Radionovela: cenas longe dos olhos
Eveline Alves (Jornalista e Radialista da Universidade Federal de Pernambuco) e
Wilma Morais (Doutora, Professora da Universidade Federal de Pernambuco)

1954: um retrato do rádio na época de Vargas
Ana Baumworcel (Professora de Radiojornalismo da Universidade Federal Fluminense)

Elementos para uma construção sociohistórica de programas radiofônicos - a música e o apresentador
Graziela Soares Bianchi (Jornalista e pesquisadora na Unisinos)

Conspirações sonoras: a Rádio Globo e a crise do governo Vargas (1953-1954)
Lia Calabre (Doutora e pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa)

Das ondas do rádio às vias de fato: consternação e revolta popular em Porto Alegre
Luiz Artur Ferraretto (Doutor e Professor da Universidade Luterana do Brasil)

Rádio e Sino: a hora do Angelus
Cida Golin (Doutora, Professora da Universidade de Caxias do Sul
e editora de publicações do Museu de Artes do RS) e
Bárbara Salvatti (bolsista de iniciação científica da Fundação de Amparo à Pesquisa do RS)

Mídia e Memória: uma análise dos documentos sonoros
das emissoras de rádio na cidade do Natal-RN (1945-1955)

Adriano Lopes Gomes (Doutor e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte) e
Alexandre Ferreira dos Santos (Acadêmico de graduação em Radialismo da UFRN)

O Repórter Esso e Getúlio Vargas
Luciano Klöckner (Jornalista, Doutor e Professor da PUCRS, Unisinos e ESPM)

Vozes de Cuiabá 50 anos após a morte de Vargas
Mariângela Sólla López (Jornalista, Professora da Universidade Federa
l do Mato Grosso e da UniRondon) e
Vera Lúcia Leite Lopes (Jornalista e Professora da Universidade Federal do Mato Grosso)

Anotações para a História do Rádio em Pernambuco
Maria Luiza Nóbrega de Morais (Coordenadora do trabalho,
Professora da Universidade Federal de Pernambuco) e
co-autoria dos pesquisadores André Luiz de Lima e Bárbara Marques

Getúlio Vargas e o rádio, uma convergência de histórias
Sonia Virgínia Moreira (Doutora, Professora da Universidade Estadual
do Rio de Janeiro e presidente da INTERCOM – gestão 2002/2005)

Morte de Getúlio, política e rádio na Bahia
Ayêska Paulafreitas (Professora da Universidade Estadual de Santa Cruz –UESC / Bahia)

O Rádio mineiro e a cobertura do suicídio de Getúlio Vargas
Nair Prata (Jornalista, Doutoranda e Professora no Centro Universitário de Belo Horizonte)

Histórias do Rádio de São José do Rio Preto –
a Rádio Bambu Rachado, as Novelas da Difusora e a Boate da Independência

Vera Lúcia Guimarães Rezende
(Jornalista e Professora do Centro Universitário de Rio Preto / São José do Rio Preto - SP)

A atuação do Rádio no Grande ABC
Domingo Glenir Santarnecchi (Jornalista, Advogado,
Apresentador da TV São Caetano e
professor e assessor de imprensa da Faculdade Editora Nacional de São Caetano do Sul)

Participar do ‘Clube do Guri’ era como hoje aparecer na televisão":
um estudo sobre a programação infantil no rádio gaúcho (1950-1966)

Marta Adriana Schmitt (Mestranda em Música na Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

CAROS OUVINTES : Os 60 anos do Rádio em Florianópolis
Antunes Severo (Professor de Marketing, Mestre em Administração
e Profissional da Comunicação em Santa Catarina)

Evolução do radiojornalismo paraibano
Moacir Barbosa de Sousa (Doutor e Professor da Universidade Federal da Paraíba)

Radiodifusão, cultura e participação popular:
a valorização do local pela Rádio FM Municipal de Piracicaba

Paulo Sérgio Tomaziello (Jornalista,
Doutorando e Professor do Centro Universitário Salesiano de São Paulo - UNISAL),
Ricardo Santana (Mestrando na ECA-USP),
José Jorge Tannus Jr.
(Mestre e Coordenador do Curso de Comunicação Social do UNISAL –
unidade de Americana), Maria da Graça Ortolani Arruda
(Professora na Faculdade Prudente de Morais – Itu/SP;
no Centro Regional Universitário Espírito Santo do Pinhal – SP;
e na Faculdade SENAC de Turismo e Hotelaria de Águas de São Pedro – SP)

Nas ondas da PRJ-2: fragmentos da história dos 64 anos da
Rádio Clube Ponta-Grossense pelas vozes da emissora

Karina Janz Woitowicz (Mestre e Professora da Universidade estadual de Ponta Grossa)
Anderson Machado Oliveira, Fábio Antônio Burnat e Thiago Bauer (acadêmicos de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa)

Rádio Suite: ecos da Rádio Sociedade numa FM do século 21
Lilian Zaremba (Doutora, pesquisadora e produtora radiofônica da MEC-FM RJ)

7) GT História da Mídia Visual (Fotografia, História em Quadrinhos, Cartazes)
Coordenadora: Sonia Luyten
Universidade de Santos (Unisantos)

 A experimentação gráfica e lingüística em José Bonifácio, o Desbravador.
Alexandre Valença Alves Barbosa (Mestrando da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo e professor na Universidade Santa Cecília e Universidade Monte Serrat)

O TICO-TICO: um marco nas histórias em quadrinhos no Brasil (1905-1962)
Maria Cristina Merlo (Mestre em Histórias em Quadrinhos pela
Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo e
Professora Universitária do curso de
Comunicação Social da Universidade Anhembi-Morumbi – São Paulo)

As histórias em quadrinhos de conteúdo erótico: afrodisíaco visual ou pornocomics?
Flávio Mário de Alcântara Calazans (Prof. Doutor Livre-Docente do Instituto de Artes
da UNESP e Prof. da Faculdade de Comunicação Cásper Líbero)

Histórias em Quadrinhos - Informação e comunicação
literário-imagética como necessidade original ontológica:
para uma educação universitária além dos fonemas.

Gazy Andraus (Doutorando em Ciências da Informação e
Documentação pela ECA-USP; Bolsista do CNPq)

Os Mangás na Tradição dos Animes
Patrícia Maria Borges (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo)

A fotorreportagem entendida como história em quadrinhos: análise de uma reportagem da revista O Cruzeiro
Antônio Aristides Corrêa Dutra (Designer gráfico da Escola de Saúde Pública da
Fundação Oswaldo Cruz e mestre em
Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro)

Do bico de pena aos mais avançados programas gráficos
Maria Alice Romano Caputo (Mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo e
pesquisadora do Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos da ECAUSP) e
Leonora Soledad Souza e
Paula
(Mestranda em Literatura Comparada da Universidade Federal de Minas Gerais)

8) GT História da Mídia Audiovisual (Cinema, Televisão)
Coordenadora: Ruth Vianna
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS)

 O surgimento da tv local e artesanal nas Terras de Fronteira do Brasil Meridional
Ada Cristina Machado da Silveira
(Doutora, Professora do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Santa Maria) e
Micheli Seibt (Acadêmica do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Santa Maria e
bolsista de iniciação científica)

O menosprezo ao som na informação televisiva
Som-ambiente: o grande esquecido nos estudos específicos da comunicação audiovisual
(estudo casuístico dos telejornais brasileiros e espanhóis 1995-2000)

Ruth Penha Alves Vianna (Departamento de Comunicação Social –
Jornalismo da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul e
Pós-doutoranda na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo)

Imagem e Cotidiano: história da TV Coroados-Londrina (PR)
Ederval Camargo Rocha (Historiador, Especialista em História Social. Professor do
no Colégio Adventista de Palmas/Tocantins e aluno do curso de Jornalismo do Ceulp/Ulbra)

História da telenovela no Brasil - um passeio pelas criações de Gilberto Braga
Danúbia Andrade (Acadêmica do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Juiz de Fora e bolsista de iniciação científica)

Mídia audiovisual – a experiência da tv sudoeste no Paraná
Toni André Scharlau Vieira (FADEP/ UNISINOS)

O Esquema É Notícia
Letícia Renault (Jornalista e Mestre em Comunicação Social pela UFMG.
Professora do Curso de Jornalismo do Centro Universitário FUMEC em Belo Horizonte)

História do Cinema Brasileiro – Os ciclos de produção mais próximos ao mercado
Renato Márcio Martins de Campos (professor e Pesquisador do Centro Universitário de Araraquara)

A História da Televisão no Paraná: um jeito próprio de fazer parte da televisão brasileira
Rosa Maria Cardoso Dalla Costa (Professora da Universidade Federal do Paraná)

A difícil relação entre imagem e som no audiovisual contemporâneo
Luciene Belleboni (Mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP e
Professora da Universidade Metodista de São Paulo e Universidade Metodista de Piracicaba)

A TV Jornal e os anos 60: glórias e crises de uma emissora local
Aline Maria Grego Lins (Professora da Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP)

9) GT História da Mídia Digital (Web e NTCs)
Coordenador: Walter Lima
Faculdades Integradas Alcântara Machado (UniFIAM)

 Comunicação Digital, uma mídia recente, a Intranet:
sua formação e configuração na comunicação e infromação
André Quiroga Sandi (Professor da Feevale/RS e Mestre em Comunicação pela Unisinos)

A relação entre as linguagens dos meios de comunicação digitais e analógicos
Patrícia Maria Borges (Pontifícia Universidade Católica / SP)

O jornalismo e as tecnologias de informação on line: do Telégrafo à Internet Móvel
Paulo Henrique de Oliveira Ferreira
(Mestrando na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo)

Jornalismo on line: como os internautas catarinenses avaliam duas propostas diferentes na Internet
Sandro Lauri da S. Galarça
(Professor da Universidade do Vale do Itajaí e Mestrando em Comunicação e
Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

Entraves para consolidação dos conceitos digitais
Walter Teixeira Lima Junior (Prof. UniFiam/Faam – SP)

10) GT História da Mídia Educativa
Coordenadora: Marlene Blois
Universidade Carioca (UniCarioca)

 A Internet – Um novo espaço de comunicação na Educação
(a experiência da primeira universidade virtual)
Marlene Montezi Blois (Professora e Diretora-Executiva da UniVir – Universidade Virtual do Brasil),
com a colaboração de Luciene Gonçalves Silva (Revisora de textos de cursos à distância)

Rádio Educativa de Campinas: a experiência inovadora de uma emissora pública municipal
Profa. Dra. Ivete Cardoso C. Roldão e Profa. Ms. Cláudia Lúcia Trevisan
(Pontifícia Universidade Católica de Campinas)

 As mídias e a educação no Brasil – um longo caminho do rádio até a web
Marlene Montezi Blois (Diretora de Educação da UNIVIR)

O Rádio Educativo no Brasil - de Roquette-Pinto a Luiz Inácio Lula da Silva
Liara Avelar (Rádio MEC – Rio de Janeiro)

Educação à Distância no Senai/SC
Margarete Lazzaris Kleis (Núcleo de Educação e Tecnologia do Senai/SC)

VOLTAR

Comitê Nacional via projetar ações da Rede Alcar para o quadriênio 2005-2008

O Comitê Nacional da Rede Alcar tem sua reunião ordinária de 2004 prevista para o dia 16 de abril, quinta-feira, às 20h30 no Hotel Praiatur, Florianópolis, onde se realiza o II Encontro Nacional de História Midiática Brasileira.

A reunião será presidida pelo Prof. Dr. José Marques de Melo, contando com a presença dos membros fundadores da Rede Alcar, entre eles Ana Arruda Callado, Marialva Barbosa e Esther Bertoletti, além dos coordenadores dos núcleos estaduais em funcionamento: Francisco Karam (Santa Catarina), Luis Guilherme Pontes Tavares (Bahia), Edgard Patrício (Ceará), Sandra Freitas (Minas Gerais), Juçara Brittes (Espírito Santo), Maria Luiza Nóbrega (Pernambuco), Roseanne Pinheiro (Maranhão), além de representantes dos núcleos de São Paulo, Rio Grande do Sul e outros estados em formação.

Nessa ocasião, os coordenadores de núcleos estaduais deverão fazer um breve relato das atividades desenvolvidos e dos projetos em andamento.

O comitê debaterá ainda a agenda dos encontros nacionais programados para os anos 2005, 2006 e 2007.

VOLTAR

Núcleo Paulista promove ciclo sobre história da Mídia

Entidade centenária dedicada à preservação da memória da sociedade paulista, o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo – IHGSP – iniciou no dia 8 de março de 2004 o Ciclo de Estudos denominado "História da Comunicação – Itinerário da Mídia em São Paulo", contando com a participação de meia centena de pesquisadores, professores e estudantes.

Trata-se de iniciativa coordenada pelo Prof. Dr. José Marques de Melo, professor emérito da Universidade de São Paulo e membro efetivo do IHGSP cujo patrono é Alfredo de Carvalho, pioneiro dos estudos históricos sobre a imprensa brasileira.

O ciclo foi programado no período de 8 de março a 7 de junho, com sessões semanais que se realizam nas tardes de segunda-feira (das 14 às 17 horas), na Sala de Conferências do instituto, situada no oitavo andar do Edifício Ernesto de Souza Campos, à Rua Benjamin Costant, n. 158, no bairro da Sé, centro da capital paulista.

Aberto a historiadores e comunicadores, bem como a estudantes universitários e outros interessados na trajetória da cultura midiática paulista, o evento está sendo divulgado através da Rádio USP, TV Mackenzie (Canal Universitário de SP) e jornal Diário de S. Paulo, organizações que apóiam a iniciativa do IHGSP. Também respaldam o ciclo a Cátedra UNESCO de Comunicação da Universidade Metodista de São Paulo e a Rede Alfredo de Carvalho para o Resgate da Memória da Imprensa e a Construção da História da Mídia no Brasil.

Informações gerais sobre essa iniciativa estão disponíveis no site: http://geocities.yahoo.com.br/ihgsp2004/ciclomidiasp.html

Sessão de abertura

O ciclo de estudos "História da Comunicação – Itinerário da Mídia em São Paulo" foi aberto solenemente pela Profa. Dra. Nelly Martins Ferreira Candeias, que mencionou a tradição dos estudos históricos cultivada há 110 anos pela entidade, sendo aquela promoção uma homenagem do IHGSP aos 450 anos da cidade de São Paulo. Ela agradeceu a iniciativa do Professor Marques de Melo, integrante da nova safra de historiadores convidada a integrar o quadro de membros efetivos do IHGSP, onde passa a desenvolver uma linha de estudos sobre a História da Comunicação Paulista.

Em seguida, a Dra. Nelly Candeias passou a palavra ao Coordenador do Ciclo, tendo o Prof. Dr. José Marques de Melo explicado que sua intenção é a de reunir três dezenas de estudiosos da comunicação que fizeram estudos prévios sobre a memória comunicacional da terra dos bandeirantes, difundindo tais conhecimentos para estimular a atividade de uma nova geração de pesquisadores, consciente da preservação da memória midiática estadual. Ele esclareceu que tal projeto constitui um desdobramento da Rede Alfredo de Carvalho, criada em 2001, na cidade do Rio de Janeiro, possuindo hoje núcleos regionais na Bahia, Espírito Santo, Pernambuco, Ceará, Maranhão, Santa Catarina, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Ao final do ciclo que se inaugurava, o Professor Marques de Melo espera que os seus participantes venham a estruturar o Núcleo Paulista da Rede Alfredo de Carvalho.

O terceiro orador foi o Prof. Dr. Manasses Claudino Fonteles, Reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, representando o conjunto das entidades que se associaram ao IHGSP para realizar o ciclo de estudos. Ele disse que sendo um organismo educacional enraizado há mais de 130 anos na vida cultural paulista, o Mackenzie sente-se honrado em contribuir para iniciativa dessa natureza, não apenas divulgando o ciclo em seu canal televisivo, mas também agregando estudos produzidos por intelectuais presbiterianos. O Dr. Fonteles aproveitou a oportunidade para saudar a cidade de São Paulo no ano do seu aniversário, dizendo que desfrutara a vida cultural paulistana durante a sua formação universitária, retornando ao Ceará, sua terra natal, para aplicar os conhecimentos médicos aqui assimilados. Agora, ao assumir a reitoria da Universidade Mackenzie, sentia-se na obrigação de retribuir à sociedade paulista o legado com que fora brindado na sua juventude. Desta maneira, colocava-se à disposição do IHGSP para desenvolver novas parcerias, enaltecendo a idéia do Professor Marques de Melo, alagoano aqui radicado há quatro décadas, que , como tantos outros nordestinos emigrados, vem trabalhando para reconstituir a memória cultural de São Paulo e do Brasil.

Introdução à História da Mídia

Após a solenidade de abertura do ciclo, realizou-se a primeira sessão de estudos, tendo como tema "História e Mídia em São Paulo". Dela participaram três historiadores da comunicação, sendo dois membros efetivos do IHGSP, os professores Antonio Costella e José Marques de Melo, além da jovem professora Gisely Hime.

Os três expositores foram assim apresentados pelo Prof. Dr. Valdenizio Petrolli, co-organizador do ciclo:

O professor Antonio Costella iniciou sua carreira docente na Faculdade de Jornalismo Cásper Líbero, tendo lecionado também na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e na Universidade de Taubaté. Autor de mais de uma dezena de livros, dentre eles o ensaio "O Controle da Informação no Brasil" (Vozes, 1970) e o manual "Comunicação – do grito ao satélite" (Mantiqueira, 1978). Ganhador do Prêmio Luiz Beltrão de Ciências da Comunicação – 2003, na categoria Maturidade Acadêmica, dedica-se atualmente, em tempo integral, ao Museu da Xilogravura, por ele fundado na cidade de Campos do Jordão.

A professora Gisely Hime pertence à nova geração de historiadores uspianos, tendo conquistado os graus de Mestre e Doutora em Jornalismo na Escola de Comunicações e Artes, pesquisando fenômenos e personagens da História da Imprensa. Atualmente leciona no Centro Universitário Alcântara Machado, onde coordena a Cátedra de Jornalismo Octávio Frias de Oliveira.

O professor José Marques de Melo é docente fundador da Escola de Comunicações e Artes da USP, onde defendeu em 1973 a primeira tese de Doutorado em Jornalismo do Brasil. Ao se aposentar naquela instituição, foi convidado a dirigir a Cátedra UNESCO de Comunicação, mantida pela Universidade Metodista de São Paulo. Publicou, no ano passado, duas obras significativas no campo da História da Comunicação: História Social da Imprensa (Edipucrs) e História do Pensamento Comunicacional (Paulus).

Itinerário midiático paulista

Em sua exposição, o Professor Antonio Costella resgatou a trajetória dos meios de comunicação em São Paulo, rotulando-a como "história tardia". Ele disse que, no panorama da história tardia brasileira (conforme delineada pelo professor Marques de Melo em sua tese de doutorado), a imprensa paulista somente floresceu depois de 1827, precedida por uma experiência de jornalismo manuscrito, de caráter naturalmente simbólico, porque restrita a um pequeno número de leitores.

Ele justificou esse desenvolvimento lento da imprensa, atribuindo-o ao atraso que caracterizou a sociedade paulista durante o século XIX, cujos jornais de repercussão nacional viriam a ser contemporâneos do movimento republicano e da expansão da economia cafeeira.

Somente quando São Paulo se industrializa, os meios de comunicação coletiva aqui ganham impulso, como foi o caso do telégrafo, do telefone e mais tarde do rádio, cujas iniciativas pioneiras mostram-se sintonizadas com os avanços liderados pelo núcleo decisório do país, instalado na cidade do Rio de Janeiro.

Se ficou a reboque dos centros nacionais nos casos da mídia impressa e da mídia sonora, São Paulo seria a locomotiva a liderar o desenvolvimento da indústria audiovisual. Caso emblemático é o da televisão, aqui lançada em 1950 por Assis Chateaubriand. Idêntico vanguardismo se daria no caso da tecnologia das fibras óticas, traduzindo o dinamismo dos institutos de pesquisa tecnológica financiados pelo governo paulista.

Fontes históricas paulistas

A exposição da professora Gisely Hime, intitulada "Para conhecer a Hisória da Mídia: fontes paulistas", foi dividida em duas partes distintas.

Inicialmente ela destacou a significação da imprensa como fonte histórica, explicando que os historiadores da moderna sociedade paulista não podem prescindir da consulta às coleções de jornais e revistas, correndo o risco de omitir aspectos fundamentais da vida cotidiana, nem sempre registrados nos documentos convencionais.

Num segundo momento, ela descreveu os resultados preliminares de uma pesquisa documental que vem realizando com a participação de bolsistas de iniciação científica do Centro Universitário Alcântara Machado. Trata-se de uma análise das fontes históricas sobre a mídia paulista que estão sendo produzidas nos cursos de pós-graduação das universidades paulistas.

Ela vem catalogando e ordenando o conhecimento histórico sobre imprensa, jornalismo e outros fenômenos midiáticos enfeixado nas dissertações de mestrado e teses de doutorado defendidas nos departamentos de Jornalismo e de História da Universidade de São Paulo. Num segundo momento, serão analisadas as fontes disponíveis nos mesmos departamentos da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Quais as tendências perceptíveis nas fontes já identificadas ? O foco principal dos estudos é a relação entre mídia, poder, ideologia e política. Do ponto de vista metodológico, trata-se principalmente de estudos vinculados à corrente da análise de discurso. Um filão que emerge entre os historiadores da comunicação paulista é o dos estudos sobre a mídia segmentada: feminina, esportiva, sindical etc.

Autores paradigmáticos

A comunicação do Prof. Dr. José Marques de Melo, subordinada ao tema "Midiologia Paulista: os autores paradigmáticos do IHGSP", focalizou os seguintes tópicos:

1) Durante a segunda metade do século XIX e princípios do século XX, aos Institutos Históricos coube papel significativo na reconstituição da trajetória dos processos comunicacionais brasileiros.

 2) No caso paulista, o papel desempenhado pelo IHGSP foi decisivo para a construção dessa História Midiática, estimulando o trabalho de autores paradigmáticos. Suas obras serviriam como ponto de referência para o desempenho das gerações posteriores.

3) Revisando a produção historiográfica dessa instituição, durante o seu primeiro século de atividades (1894-1994), constata-se um forte viés elitista, figurando a comunicação erudita como objeto hegemônico de pesquisa. Em posição secundária, do ponto de vista quantitativo, acham-se a comunicação massiva e a folkcomunicação.

 4) No quadro seminal da pesquisa histórica sobre a comunicação paulista, destaca-se a figura polifacética de Affonso de Freitas, que, discrepando dos seus companheiros de geração, demonstrou interesse não apenas pela comunicação das elites, mas também pelos emergentes processos da comunicação massiva e pelos fluxos comunicacionais protagonizados pelas classes subalternas.

 Calendário

O ciclo de estudos sobre o itinerário da mídia em São Paulo prossegue de acordo com o seguinte calendário:

Março

Dia 15 – Proto-História Midiática
14h30 - Anchieta, precursor da folkcomunicação – F. de Assis Fernandes
15h30 – Mídia caipira no país dos bandeirantes: luso-hegemonias, afro-resistências – Cristina Schmidt
16h30 – Cordel na terra da garoa: a comunicação dos bandeirantes tardios – Joseph Luyten

Dia 22 – Itinerário da Imprensa
14h30 – Biografia de um jornal paulistano – Laércio Arruda
15h30 – Biografia de um jornal do interior paulista – Samuel Pfromm Neto
16h30 – Trajetória da imprensa sindical no ABC paulista – Valdenizio Petrolli

Abril

Dia 12 –Itinerário da Televisão
14h30 –Antenas paulistanas: imagens em branco e preto - Osmar Mendes Jr.
15h30 – A saga de Ivani Ribeiro: folhetins coloridos – Fátima Feliciano
16h30 – Imaginário paulista: do livro à telinha – Sandra Reimão

26 – Itinerário do Rádio
14h30 – O rádio com sotaque paulista – Antonio Adami
15h30 - Paulicéia radiofônica: gêneros e formatos – André Barbosa
16h30 - O rádio paulistano na era da internet – Lígia Trigo

Maio

3 – Itinerário do Cinema
14h30 –Vera Cruz: aventura cinematográfica paulista – Antonio de Andrade
15h30 –O neobandeirantismo da Caravana Farkas – Alfredo d´Almeida
16h30 – Imaginário paulistano: do livro à tela – Helena Bonito

10 - Itinerário do Jornalismo
14h30 – O front noticioso paulista: de Badaró a Herzog – Audálio Dantas
15h30 – A vanguarda sindical – José Hamilton Ribeiro
16h30 - A tribo dos caçadores de notícias - Jorge Cláudio Noel Ribeiro Jr.

17– Itinerário da Propaganda
14h30 – A propaganda republicana – Célio Debes
15h30 - Do reclame ao marketing – Adolpho Queiroz
16h30 - Anúncio da fé: a ofensiva presbiteriana – Gilson Novaes

24 - Itinerário das Relações Públicas
14h30 – 90 anos de RP: as mutações profissionais – Waldemar Kunsch
15h30 - Eduardo Pinheiro Lobo: a construção de um mito – Mirtes Torres
16h30 – Teobaldo Andrade: a legitimação acadêmica – Maria Stella Thomazi

31 – História em processo: inovações midiáticas
14h30 – Informatização da imprensa: bandeirantes midiáticos – Ruth Vianna
15h30 – Quadrinhos paulistanos: de Agostini a Maurício – Sonia Luyten
16h30 – Webmídia: capítulo paulista da história emergente – Walter Lima

Junho

Dia 7 – Encerramento do ciclo:
Instalação do Núcleo Paulista da Rede Alfredo de Carvalho

Informações
Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo
Rua Benjamin Constant, 158 – Centro
(Situada no trecho compreendido entre o Largo de São Francisco e a Praça da Sé)- Período da tarde
Fone: 3242-3582
Email: ihgsp2003@yahoo.com.br

VOLTAR

Núcleo Maranhense resgata a contribuição do Professor Marques de Melo
para a História da Imprensa e para os estudos comunicacionais no Maranhão


Autora: Roseane Pinheiro – Coordenadora do Núcleo Maranhense da Rede Alcar
Email: ami-ma@bol.com.br

1) Tese do professor José Marques de Melo, primeiro Doutor do Jornalismo brasileiro, explica atraso da implantação da imprensa no país através de fatores sócio-culturais

A chegada da Família Real ao Rio de Janeiro, em 1808, é um marco da chegada da imprensa em território nacional. Transportadas pela Nau Meduza, as primeiras oficinas tipográficas vinham suprir as necessidades administrativas do Governo Português, cujos representantes emigraram às pressas para a colônia fugindo da ameaça francesa. No entanto, tais razões não explicam a totalidade daquele contexto, estudado por pesquisadores como Alfredo de Carvalho, Nelson Werneck Sodré e Juarez Bahia.

Por que o Brasil só conheceu a imprensa em 1808? O que teria emperrado o processo de instalação das primeiras tipografias? Não é por acaso que este tema tenha feito história em outro momento. Em 1973, o professor José Marques de Melo, primeiro Doutor do Jornalismo brasileiro, retomou com fôlego a investigação através da tese "Fatores socioculturais que retardaram a implantação da imprensa no Brasil", defendida na Escola de Comunicações e Arte (ECA/USP), obra relançada em 2003 com o título História Social da Imprensa (Editora EDIPUCRS).

Ao comemorar trinta anos, a tese reafirma sua vocação para instigar novos debates sobre a origem da imprensa no Brasil e o entendimento de sua gênese no século XIX. Com aguçado espírito crítico, o professor agrega percepções mais abrangentes sobre os fatores que retardaram a implantação da imprensa, geralmente relacionada aos interesses políticos de Portugal.

Marques de Melo, fundador da Rede ALCAR, movimento nacional pela preservação da história do jornalismo, analisou, da seguinte forma, o primeiro momento da imprensa brasileira, após a vinda da Corte: "... a implantação da imprensa não constituiu uma iniciativa isolada, mas vinculou-se a um complexo de medidas governamentais capazes de proporcionar o apoio infra-estrutural para a normalização das atividades da Coroa Portuguesa, aqui instalada de modo provisório (...) as circunstâncias pelas quais a Corte emigrara para a colônia impunham um conjunto de necessidades a que a imprensa viria inevitavelmente a atender".

Esclarecendo seu posicionamento sobre o fato, o pesquisador afirma que não rejeita a hipótese de que Portugal poderia também ter suas razões políticas para evitar que a imprensa se desenvolvesse no Brasil, entanto frisa que não existiu legislação expressamente restritiva à instalação de tipografias no Brasil. Cita as determinações de 1706 e 1747, que considera ações isoladas, não podendo configurar uma política sistemática contra a implantação da imprensa.

A leitura de Marques de Melo sobre a atuação dos governantes portugueses uniu a questão econômica à política: "Isso significava uma defesa dos interesses metropolitanos, assegurando o privilégio das iniciativas manufatureiras para as regiões européias e reservando aos territórios ultramarinos o papel de consumidores dos produtos industriais do Reino". Somou-se a essa observação a condescendência de Portugal em relação aos autores brasileiros, autorizados a publicar suas obras no Reino e na colônia.

Analisando as obras de Carlos Rizzini, Moreira de Azevedo, Cunha Barbosa, Alexandre Passos e Barbosa Mello, entre outros estudiosos da imprensa nacional, o primeiro Doutor do Jornalismo no país destacou os estudos históricos de Nelson Werneck Sodré pela metodologia adotada pelo autor, caracterizada por uma diretriz econômica.

Porém, fez uma ressalva quanto ao vínculo indissolúvel entre imprensa e capitalismo, sustentado por N.W. Sodré. À máxima "ausência de capitalismo, ausência de burguesia", interligando o nascimento da imprensa à instauração do regime capitalista, Marques de Melo, sem retirar a importância dos argumentos de Nelson Werneck Sodré, se contrapôs indicando que alguns aspectos da teoria do referido autor não podem ser aceitos integralmente.

"O desenvolvimento capitalista não prescindiu da utilização da imprensa para a sua solidificação, seja através da produção de instrumentos básicos de sua engrenagem (expedientes comerciais, bancários e burocráticos de um modo geral), seja através da difusão de conhecimentos que conformariam a atuação da nova elite dirigente", explicou Marques de Melo, após apontar fragilidade nas argumentações de parte dos estudiosos, sem, no entanto, rejeitá-las no todo.

Interpretação funcionalista - O pesquisador propôs, por sua vez, outras perspectivas – a partir de um estudo mais amplo e crítico – que explicam o atraso na implantação da imprensa no Brasil. Em sua análise, à luz da interpretação funcionalista, apontou que "o retardamento não se aplica por uma única causa (política ou econômica), mas por um conjunto de circunstâncias causais, que se inter-relacionam e se influenciam mutuamente. A essas causas chamaremos de socioculturais", explanou.

Os fatores socioculturais enunciados pelo professor Marques de Melo são: natureza feitorial da colonização, atraso das populações indígenas, predominância do analfabetismo, ausência de urbanização, precariedade da burocracia estatal, incipiência das atividades comerciais e industriais, reflexo da censura e do obscurantismo metropolitanos.

O primeiro fator a contribuir para o atraso foi a ocupação do território brasileiro, onde ocorreu uma transferência quase forçada de pequenos contingentes populacionais, sem praticamente ônus para a Coroa Portuguesa, que não desejava instalar na colônia cidades ou estruturar melhores condições de vida. A exploração econômica, comandada por particulares, aconteceu à margem de um povoamento lento e com poucas incursões pelo interior.

Em um contexto parco economicamente, a implantação da imprensa esbarrou ainda na cultura indígena incipiente, ao contrário do que encontraram os espanhóis, as civilizações mais adiantadas – os maias, astecas e incas. Por sinal, os conquistadores portugueses relegaram a colônia a segundo plano e nem mesmo se interessaram em impor sua língua, o que ocorreu de fato após três séculos de ocupação. O analfabetismo da maioria da população da colônia firmou-se como outro entrave ao desenvolvimento da imprensa. Numa cultura onde o verbal tomava o espaço da cultura escrita, as tipografias não tiveram vez. Acomodando-se às condições locais, o verbal transformou-se em indispensável instrumento de propaganda ideológica.

A falta de urbanização e a vida predominante rural estancaram o crescimento econômico da colônia portuguesa, possuidora de poucas cidades. A vida resumia-se às fazendas de engenho e seus habitantes tinham uma postura quase reclusa e conviviam com um tímido comércio e um reduzidíssimo funcionalismo. Quanto à administração portuguesa, a ausência da Coroa refletiu-se no marasmo e na incompetência do funcionalismo, coordenado à distância pelo Conselho Ultramarino.

A falta de pulso firme dos governantes portugueses no comando da ocupação desmembrou-se ainda no fraco desenvolvimento comercial e industrial, privilégio das elites colonizadoras.

"Não havendo necessidade dos usuais expedientes burocráticos-mercantis (...), pelo primitivismo dos métodos comerciais imperantes e pela atuação precária da máquina estatal, a imprensa não teria utilidade maior em terras brasileiras", analisou Marques de Melo, contextualizando outra razão para o não-florescimento da imprensa aqui: a censura empreendida de forma acentuada a partir do século XVI, conforme interesses dos detentores do poder e da Igreja Católica.

As idéias nocivas ao poderio português eram barradas pelos censores. Nenhum livro ou publicação circularia no Reino ou na colônia americana sem a autorização das instâncias encarregadas da censura prévia.

Por fim, do povoamento escasso à mão-de-ferro da censura, a cadeia de fatos explicitada pelo professor Marques de Melo nos permite visualizar com maior amplitude o processo histórico que resultou na instalação tardia das tipografias no Brasil. As singularidades reunidas pelo renomado pesquisador em sua histórica tese nos dão elementos para entender o surgimento do jornalismo brasileiro nos séculos XIX e XX.

 2) Marques de Melo participou da fundação do Curso de Comunicação da UFMA

O professor José Marques de Melo participou da fundação do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Maranhão, que obteve reconhecimento em 17 de janeiro de 1977/decreto lei 79126. À frente da criação do Curso esteve o professor Fernando Moreira, diretor do Departamento de Letras e Artes, no período da administração do Reitor Ribamar Carvalho. O primeiro jornalista a ministrar as aulas práticas do Curso, o professor Sebastião Jorge, relembra os primeiros contatos com José Marques de Melo.

"Ele já era um nome respeitado na área e esses encontros se repetiram por outras décadas. Trabalhamos juntos pela criação de algumas entidades. Credenciado pelo professor Fernando Moreira, que ouviu a minha recomendação, o convidamos para ministrar aulas em São Luís. Todos nós que fazíamos parte do quadro docente tivemos que nos submeter a curso de pós-graduação, em convênio, inicialmente, com a USP, para podermos lecionar: uma exigência do MEC".

O professor José Marques de Melo contribuiu, conforme Sebastião Jorge, para a elaboração da grade curricular do Curso de Comunicação Social. "Criou-se entre ele e o Curso um laço profissional forte e afetivo. O professor é, sem dúvida o maior estudioso da Comunicação na América Latina", ressaltou o pesquisador, acrescentando que o Curso de Comunicação Social da UFMA não foi o primeiro a ser criado em São Luís.

"A fundação do Curso deve-se ao esforço e a boa-vontade do professor Fernando Moreira, que contou com o empenho e o interesse de todos os professores", avaliou Sebastião Jorge, que integrou a equipe pioneira do Curso de Comunicação da Universidade Federal do Maranhão.

3) Pesquisador com projeção internacional

O professor José Marques de Melo é jornalista, professor universitário, pesquisador científico e consultor acadêmico. Nascido em Palmeira dos Índios (Alagoas), obteve os títulos de Bacharel em Jornalismo (Universidade Católica de Pernambuco, 1964), Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais (Universidade Federal de Pernambuco, 1965) e Pós-Graduado em Ciências da Informação Coletiva (Centro Internacional de Estudos Superiores de Comunicação para a América Latina, Quito, Equador, 1966).

Começou a trabalhar como jornalista, em 1959, integrando as equipes dos jornais e revistas de Alagoas, Pernambuco, São Paulo e Rio Janeiro. Colaborou ainda como articulista dos jornais O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, Correio Braziliense (Brasília), Zero Hora (Porto Alegre), Diário do Grande ABC (São Paulo), Diário de Pernambuco (Recife) e A Tarde (Salvador).

Iniciou a carreira acadêmica em 1963 como Monitor da Cadeira de Teoria e Prática do Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco e a partir de 1966 como Assistente do Professor Luiz Beltrão, no Instituto de Ciências da Informação da UNICAP (Recife), transferindo-se logo em seguida para São Paulo.

Docente-fundador da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), onde ingressou, em 1967, por concurso público. Foi o responsável pela implantação do Departamento de Jornalismo e Editoração, unidade que dirigiu durante vários anos. Essa atividade foi somente interrompida durante o regime militar, quando esteve impedido de exercer a docência em universidades públicas brasileiras.

Grupo de estudo - Anistiado em 1979, reassumiu sua cátedra na USP, exercendo-a em regime de dedicação exclusiva ao ensino e à pesquisa. Durante a gestão do Reitor José Goldemberg, foi escolhido pela comunidade acadêmica e por ele nomeado em 1989 para exercer o cargo de Diretor da ECA-USP, mandato cumprido até 1993, findo ao qual decidiu aposentar-se da instituição. Ali permanece até hoje, colaborando voluntariamente como docente e orientador da pós-graduação, além de coordenar o Grupo de Estudos sobre Pensamento Jornalístico Brasileiro.

Primeiro Doutor em Jornalismo titulado por universidade brasileira (1973) foi agraciado com bolsa de pós-doutorado da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de S. Paulo) para realizar estudos avançados de comunicação nos Estados Unidos, onde contou com o respaldo acadêmico do MUCIA (Consórcio Universitário do Meio-Oeste, integrado pelas universidades de Wisconsin, Minesotta, Indiana, Illinois e Michigan) durante o ano acadêmico 1973-1974.

Em 1992 foi nomeado Catedrático UNESCO de Comunicação da Universidade Autônoma de Barcelona (Espanha). Em 1996 foi agraciado com o título Tinker Visiting Professor do Institute for Latin American Studies da University of Texas at Austin (USA).

A convite do Reitor Carlos Vogt, co-fundou o LABJOR - Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas, onde colaborou como Pesquisador Senior, no período 1994-2002, vinculado ao Projeto de Estudos de Jornalismo Científico apoiado pelo PRONEX-CNPq.

Formou várias gerações de jornalistas e de pesquisadores acadêmicos, tendo dirigido mais de uma centena de trabalhos de pós-graduação (dissertações de Mestrado e teses de Doutorado) no âmbito das Ciências da Comunicação.

Atuou como pesquisador/professor visitante em várias universidades estrangeiras, tendo proferido conferências em diversas universidades, entre elas Grenoble e Bordeaux (França), Salamanca e Santiago de Compostela (Espanha), Minho e Nova de Lisboa (Portugal), Michigan State e Minesotta (Estados Unidos), Victoria e Sydney (Australia), McGill e Québec (Canada), Budapest (Hungria) e Universidad de las Americas (Colombia).

4) Acervo do pensamento comunicacional

No Brasil, o professor José Marques de Melo colaborou como professor-visitante ou ministrou aulas magnas nas seguintes universidades: Universidade do Amazonas, Universidade Federal do Maranhão, Universidade Federal do Ceará, Universidade Federal de Alagoas, Universidade Federal de Pernambuco, Universidade Federal de Juiz de Fora (MG), Universidade Federal de Sergipe, Universidade Federal da Bahia, Universidade Federal de Santa Catarina (Florianópolis), entre outras.

Publicou mais de 20 livros sobre Comunicação Social e ainda mais de uma centena de artigos em periódicos científicos, nacionais e estrangeiros, bem como em jornais e revistas de grande circulação no Brasil e América Latina.

Atualmente é docente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo, sendo Diretor Titular da Cátedra Unesco de Comunicação para o Desenvolvimento Regional.

Idealizador da Rede Alfredo de Carvalho para o Resgate da Memória e a Construção da História da Imprensa no Brasil, lidera um consórcio de instituições que desenvolvem estudos e pesquisas destinados a subsidiar o programa comemorativo dos 200 anos de implantação da imprensa em território brasileiro (2008).

Foi agraciado com as seguintes várias distinções honoríficas. Podemos citar Prêmio Wayne Danielson de Ciências da Comunicação – University of Texas (Austin, USA), Medalha Rui Barbosa do Ministério da Cultura (Rio de Janeiro), Professor Honoris Causa da Universidade Católica de Santos (São Paulo), Presidente de Honra da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação e Sócio Número 1 da SBPJor - Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo.

A Universidade Metodista de São Paulo deu o nome de "José Marques de Melo" ao Acervo do Pensamento Comunicacional Latino-Americano, inaugurado em 1999, pela Cátedra de Comunicação ali mantida em convênio com a UNESCO. Homenageado pela Universidade Católica de Pernambuco, durante as comemorações dos 50 anos daquela instituição, teve sua biografia intelectual registrada no livro Grandes Nomes da Comunicação – José Marques de Melo, organizado por Maria Cristina Gobbi.

5) AMI mobiliza estudantes e professores para II Encontro da REDE ALCAR

A Associação Maranhense de Imprensa (AMI), através do Núcleo de Estudos da Memória do Jornalismo, está mobilizando alunos e professores dos Cursos de Comunicação Social da Universidade Federal do Maranhão, Faculdade São Luís e Uniceuma, em São Luís, para participarem do II Encontro da Rede Alcar e do VII Fórum de Professores de Jornalismo, que acontecerão no período de 15 a 17 de abril, em Florianópolis.

Na UFMA, a participação no evento foi amplamente discutida em reunião departamental. O corpo docente decidiu que o Curso deverá empreender esforços para obter o apoio da Reitoria para viabilizar a obtenção de passagens e diárias para três professores da instituição. Uma equipe de docentes já está elaborando a história do Curso de Comunicação, o mais antigo em funcionamento, abrangendo três habilitações – Jornalismo, Relações Públicas e Radialismo.

Os professores e estudantes da Faculdade São Luís e Uniceuma foram também convidados a inscrever pesquisas no Encontro da Rede Alcar e no VII Fórum de Professores de Jornalismo, e poderão participar dos referidos eventos.

"Consideramos de grande relevância a troca de experiências para a sistematização do conhecimento sobre a história da imprensa no Brasil. Os pesquisadores do Maranhão não podem ficar de fora dessas discussões", afirmou a presidente da AMI, jornalista Edvânia Kátia.

VOLTAR

Grupo da Rede Alcar em Marília (SP)

A Profa. Dra. Maria Cecília (Ciça) Guirado, da Universidade de Marília (SP), enviou à redação do Jornal da Rede Alcar a seguinte carta, no dia 7 de março de 2004, que transcrevemos na íntegra:

"Obrigada por noticiarem a proposta da criação do Núcleo de História da Comunicação no Brasil. Já recebi mensagens de colegas interessados em participar...

Porém, gostaria de esclarecer que não sou de Letras. Sou jornalista, com muito orgulho, formada na UEL em 82, trabalhei em vários veículos de Comunicação, desde a extinta rádio CruzeiroAM, Folha de Londrina, Diário de São Paulo, Folha da Tarde (só pra citar alguns) e por fim, durante vários anos fiz crítica literária no Jornal da Tarde (Caderno de Sábado). Nada contra o povo das "letras", como jornalista especializada em cultura creio que há uma intrerface entre Jornalismo e Literatura... Mas...

Por favor, daria pra vocês corrigirem esse dado no site?

Um abraço e se tudo der certo estarei aí em breve!"

VOLTAR

Capítulos de História da Mídia

O futuro "incerto" das televisões públicas

Antonio Brasil (Fonte: Site Comunique-se, 22/04/2004)

A crise na BBC tem provocado um questionamento sobre o papel e o futuro das televisões públicas no mundo. Afinal, para que servem, quais são seus objetivos e principalmente quem estaria disposto a assistir ou a "bancar" esses canais de televisão? Ou seja, a questão mais importante seria perguntar, será que o público de TV realmente "quer" ou "precisa" de uma televisão pública?

Todos os defensores das televisões públicas, principalmente aqueles que trabalham e ganham dinheiro nessas instituições, declaram que o público precisa de uma televisão de "qualidade". Mas a verdade é que também não existe uma definição comum do que seria essa tal "qualidade" em televisão. Confundir qualidade com "elitismo", produção de programas culturais com orquestras sinfônicas" ou documentários do National Geographic em horário nobre, pode não ser necessariamente considerado "qualidade" pelos principais interessados, o público de televisão. Entre assistir a uma novela melosa na Globo ou a um documentário "impessoal e distante" sobre animais desconhecidos em extinção em diversas partes do mundo, pode ser que público prefira e tenha o direito de assistir as novelas. Questão de gosto não se discute. Talvez a questão seja mais complicada, envolve a necessidade de escapismo, alienação e até mesmo de "emburrecimento". Televisão pública educativa ou jornalismo de qualidade não deveria substituir educação de verdade ou partido político.

O modelo BBC

O jornalismo da BBC acreditava que enfrentar um governo legitimamente eleito pelo povo britânico era função de uma televisão pública. O relatório apresentado por um juiz independente, Lorde Brian Hutton foi muito cruel com a BBC mas também foi muito claro. Declarou que os procedimento editoriais da BBC, uma televisão pública não eram aceitáveis. Bom para a BBC e para o jornalismo de qualidade. O relatório indica que até mesmo a BBC pode errar. Instituições públicas devem ser constantemente avaliadas, principalmente pelo público, e índice de audiência não é o único parâmetro de "qualidade" ou de responsabilidade.

A verdade é que a crise está criada e o futuro da BBC é incerto. Segundo o Sunday Times, a "vingança" do governo Blair já está a caminho. O poder da BBC seria drasticamente reduzido na próxima renovação do seu contrato social em 2006.  A justificativa do governo britânico é simples. A BBC seria poderosa e rica demais. O governo ameaça mudar as regras do financiamento público independente da rede britânica. Para quem não sabe, essa qualidade e independência da BBC tem um preço. Todos os cidadãos britânicos que compram uma TV são "obrigados" a pagar por uma licença anual de cerca de 116 libras. Em um país com muitos problemas sociais, multi-étnico e com altas taxas de desemprego, essa quantia não é "café pequeno".

Morei muitos anos na Inglaterra durante os anos 70 e 80 e nunca encontrei um único brasileiro que pagasse a tal taxa obrigatória. Todos nos elogiávamos muito a BBC, a melhor TV do mundo e tudo o mais, mas ninguém pagava a tal taxa obrigatória. A desculpa era sempre a mesma. Nós somos brasileiros, temos pouco dinheiro e o mais importante, os "ingleses" jamais nos pegariam cometendo esse tipo de "infração". Nos nos considerávamos "acima" dessas obrigações peculiares do primeiro mundo. Na época, a idéia de pagar por uma televisão de qualidade era simplesmente absurda. Isso seria problema do governo. Mas afinal, quem é o tal governo?

O modelo brasileiro

Esse é o ponto da minha discussão em relação ao presente e ao futuro das televisões públicas em paises como a Inglaterra, Estados Unidos ou mesmo no Brasil. Afinal, quem estaria realmente interessado na sobrevivência dessas televisões "de qualidade"? Quem teria que "bancar" essas TVs? A resposta, pelo menos no Brasil, é muito fácil. O governo, é claro. Mas o problema é que o governo somos todos nós. O dinheiro das instituições públicas vem dos nossos impostos. Se criamos uma lei que obriga um governo estadual a repassar uma certa percentagem do orçamento público para uma televisão como a Cultura e o tal "governo" dia que não pode ou que não quer, a não ser que a televisão faça isso ou aquilo, temos muito poucos instrumentos para evitar a "chantagem". O público deixa de ser público para ser estatal. Televisão pública tem que se humilhar e esmolar todos os dias junto aos governos para obter os recursos mínimos que garantam a sua existência.

Obviamente, o modelo público da BBC seria mais conveniente. Ou paga ou vai para a cadeia. Se por acaso alguém comprar uma televisão na Inglaterra e jurar que jamais assistira a BBC porque não gosta, não quer ou mesmo porque entende inglês como tantos imigrantes, pessoas de outras culturas que só querem assistir a "outros" canais ou a vídeos, a questão ainda sim é a mesma. Ou paga ou vai para a cadeia. Não existe uma alternativa para o mundo televisivo. No modelo de televisão pública britânica, o público não tem escolha e a BBC não precisa convencer ninguém a financiar a sua programação. O último orçamento da corporação foi de R$ 12.5 bilhões. Garante a independência mas também garante muitos erros. Tem muitos programas de qualidade duvidosa na programação da BBC, o jornalismo passou a ser muito parecido com o de seus concorrentes, ou seja, competitivo e sensacionalista e a opinião do público é algo sempre muito distante. Índice de audiência passou a ser muito importante no modelo britânico de TV pública. O telespectador britânico paga caro para uma televisão que muitas vezes apresenta programas semelhantes a seus concorrentes.

Não pagou, vai preso

E ainda por cima, existe sempre a ameaça dos "olheiros" da BBC. É gente, hoje, licença de TV no Reino Unido é coisa séria. A cobrança foi terceirizada e quem não paga pode ser preso. Os cobradores agora tem uns carrinhos com antenas sofisticadas do tipo "Big Brother" que denunciam os infratores das leis de proteção à televisão pública britânica. Se você for surpreendido com uma televisão em casa e não tiver a tal "licença", mesmo que diga que "odeia" a BBC, não adianta, paga multa ou .... O impagável Michael Moore, em um dos melhores momentos do TV Nation, fez questão de "denunciar" o cruel sistema de financiamento da TV pública britânica. Na época, ele entrevistou uma mulher que foi para a cadeia na Inglaterra porque não tinha como pagar a licença. Ela declarou que estava desempregada, tinha crianças em casa e que decidiu enfrentar a BBC e a própria sorte. Ela foi presa. Ou seja, o modelo britânico de TV pública é do tipo ou paga ou paga. Não existe opção. Pelo menos até 2006, a independência da BBC está garantida. A rede britânica não precisa se submeter ao governo e ao público.

O público não banca a TV pública

No Brasil, bem que o governo do estado de São Paulo tentou convencer o público a financiar a TV Cultura. Foi sugerida a aplicação de uma taxa extra em todas as contas de eletricidade. A reação do público foi "taxativa" e negativa.  O público pode admirar a TV Cultura, mas não estaria disposto a pagar mais pelo canal. Afinal, caberia ao tal "governo" financiar futuro de uma televisão de qualidade.

Em inúmeros seminários sobre o "papel das TVs públicas no Brasil", todos concordam que deveríamos ter televisões públicas com programação diferenciada, de qualidade. O exemplo da BBC é sempre citado para ser adaptado ou copiado. Mas o problema é que o tal público de televisão pública não estaria disposto a  financiar ou arregaçar as mangas, ir para as ruas exigir essa tal TV "de qualidade". Aqui entre nós, eu tenho minhas dúvidas, se o tal público realmente "quer" uma televisão pública e se a sua programação sequer tem "qualidade". Afinal, não existe sequer uma definição do que seria essa tal qualidade. A discussão se transforma em um "impasse" e por falta de alternativas, fazemos sempre a pior opção que também é a mais segura, ou seja, tudo continua do mesmo jeito. A TV pública reclama da falta de recursos, reclama do governo, exige qualidade na programação, mas jamais exige uma "participação" dos principais interessados, o público de TV.

O modelo PBS

No entanto, existe um outro modelo de financiamento de televisão pública de qualidade. É o modelo da PBS americana. Apesar do nome, Public Broadcasting System, os executivos da rede fazem questão de dizer que a PBS não é  uma rede "pública". A PBS seria uma empresa "privada" financiada pelo "seu"  público. A principal diferença entre o financiamento da PBS e da BBC é que o público da rede americana tem escolha. Todos os dias, os funcionários, jornalistas, celebridades que trabalham na PBS pedem, insistem e tentam convencer o tal "público" de uma televisão de qualidade a "bancar" a sobrevivência da rede. É uma situação até certo ponto "humilhante" para quem não está acostumado a ver profissionais "esmolando" frente às câmeras. Mas existe um consenso de que não existe outra alternativa. Uma televisão "pública" precisa estar distante do governo e junto do público. Mas esse tal público tem que estar disposto a bancar a sua própria televisão. E por incrível que pareça, sem licenças obrigatórias ou ameaças de prisão, o público americano que "acredita" na proposta da PBS contribui regularmente. Eles pagam pequenas quantias de 20 dólares ou enormes "doações" póstumas de milhões de dólares. Mas todos confirmam a sua parceria no futuro da rede de televisão. Pagam para ter uma programação que consideram de qualidade e pelo privilégio de não terem que assistir aos famigerados "comerciais".

No entanto, como em todas as TVs públicas do mundo, os executivos da PBS também reclamam muito da falta de recursos. Mas ao contrário das "nossas" TVs públicas, eles não culpam os governos. Eles sabem que a atual situação econômica dos EUA, a competição com os novos meios e até mesmo o envelhecimento do público de TV também são culpados pela redução na arrecadação de fundos. A diferença é que esses tais executivos da rede de TV americana também culpam a si próprios pela qualidade da programação. Eles convocam o público para financiar produções independentes que se tornam alternativas para as suas próprias limitações.

Programação de qualidade, muitas vezes, é diversidade com a criação de oportunidade para jovens produtores com idéias criativas e ousadas. Para a PBS, essa é a única maneira para convencer ao público a sustentar uma rede de televisão. Eles precisam ter certeza de que vão assistir a uma televisão se não melhor,  pelo menos "diferente".

A arrogância das TVs públicas

Em verdade, a questão sobre o futuro das televisões públicas não é simples. As ameaças persistem. Mas, em minha opinião, o maior problema é que muitas TVs públicas consideram que possuem o "monopólio" da qualidade no meio. Muitos executivos de televisão pública acreditam que sabem mais sobre as preferências do público do que o próprio público. As pesquisas realizadas são sempre superficiais e tendem a confirmar os privilégios.

Em termos de jornalismo, em casos extremos como a crise recente da BBC, essas televisões públicas confundem jornalismo com militância política. Elas se esquecem dos princípios mais básicos do jornalismo como a investigação cuidadosa dos fatos. Outro pecado mortal é ignorar o "pluralismo" de opiniões ou mesmo considerar-se acima dos governos. Ao desconsiderar a diversidade da opinião pública e prestigiar o sucesso efêmero dos índices de audiência, as televisões públicas se aproximam perigosamente das TVs comerciais. A diferença tende a desaparecer junto com os recursos e o público. Mas de todas as ameaças às televisões públicas, sem dúvida, a maior ainda é a própria arrogância.

VOLTAR

Imprensa operária gaúcha: um século de História

Fernanda Reche, de Porto Alegre (*)

No dia 4 de março de 2004 estiveram reunidos no Mercado Público de Porto Alegre importantes personagens da imprensa operária gaúcha. O lançamento do livro "A imprensa operária do Rio Grande do Sul", de autoria do jornalista João Batista Marçal, contou com a presença de cerca de 150 personalidades da comunidade porto-alegrense, entre comunistas, socialistas, anarquistas e representantes de partidos políticos de esquerda.

A obra faz um esboço da história operário-sindical do RS através do mapeamento de sua imprensa. Partindo do conteúdo desses veículos de comunicação, o jornalista reconstitui os passos marcantes do movimento obreiro e organizativo do Estado, resgatando aspectos políticos importantes assinalados pela edição de jornais operário-sindicais durante o período de um século (1873-1974). Segundo Marçal, a história da imprensa operária-sindical gaúcha começa com "O Caixeiro", de 1873 (período mutualista), passando por jornais feitos por anarquistas, socialistas, comunistas, católicos e trabalhistas, até chegar à experiência de "O Coojornal", em 1974.

Segundo Marçal, o trabalho é resultado de mais de 30 anos de dedicação à pesquisa sobre a imprensa dos trabalhadores ao longo de um século. Seu compromisso foi com o resgate da história dos velhos lutadores sociais: "Esta pesquisa foi produto do meu engajamento político. É um trabalho comprometido com minha profissão e com a história dos vencidos. Para contar a versão dos coronéis, dos generais, tem bastante gente. Eu conto a trajetória dos velhos batalhadores, dos homens e mulheres que viveram e morreram na trincheira da luta de classe", afirma Marçal, que encontrou dificuldades quanto à bibliografia na área. "Os poucos livros que existem são mal escritos e não têm uma linha sobre a imprensa dos trabalhadores".

Sem bibliografia, Marçal partiu do nada. Inspirou-se em sua coleção particular de publicações sindicais e foi atrás de depoimentos de quem viveu o período. O escritor tem um acervo com mais de 20 mil peças: "E não o tenho para bonito: eu tenho para estudantes, professores, pesquisadores e lutadores sociais. Para que se espelhem um pouco nas velhas lutas, para que resgatem um pouco da história do trabalhador brasileiro". A obra apresenta o perfil de quase 300 títulos de jornais de todo o Estado e foi feita graças a centenas de entrevistas.

"Eu páro em 1974 porque reconstituí um século dos trabalhadores, tendo que estudar, inclusive, a formação da classe operária do RS, com todas as suas variantes ideológicas, todos os seus conflitos", afirma. Marçal vai até o Coojornal, que "não era propriamente um jornal operário, mas era um veículo que atuava como uma cooperativa de trabalhadores jornalistas", justifica. "Nele se escondiam os grandes rebeldes sociais daquela época, que agora podem contar a grande experiência no Brasil do jornalismo cooperativo, engajado e responsável".

Hoje, Marçal incentiva a classe operária a valer-se do arsenal tecnológico disponível, utilizando-o em benefício de seus interesses. "Na época, o impresso era o espelho dessa luta. Atualmente, as relações de trabalho são muito mais complicadas. Há a cibernética, novas formas de produção e novas formas de exploração. E há rádio, jornal, TV e Internet, toda uma parafernália que tem de ser aproveitada".

Marçal, natural de Quaraí/RS, é jornalista, radialista e historiador. Atuou em veículos como o extinto Diário de Notícias, a Zero Hora, a TV Gaúcha e diversas emissoras de rádio de Porto Alegre. Também foi editor de "A Luta" e presidente do Diretório Municipal do PSB de Porto Alegre, no período de 1997 a 1999. Entre os livros publicados por Marçal, estão Primeiras lutas operárias no RGS, Quaraí – Terra de Intelectuais e Guerreiros, personagens ilustres da minha cidade, Comunistas gaúchos – a vida de 31 militantes da classe operária, Memória Histórica dos Socialistas Gaúchos, Os anarquistas no RGS, Comerciários, fechem as portas para descansar e Marcos Faerman – Profissão Repórter.

A imprensa operária do Rio Grande do Sul é dedicada à memória de Dyonélio Machado, "um intelectual gigantesco, comunista extraordinário, que viveu e morreu coerente com as suas idéias". A obra é uma edição independente, com 290 páginas, sendo 40 de fotografias, e está à venda em duas livrarias de Porto Alegre que trabalham com reembolso postal: Martins Livreiro (Rua Riachuelo 1279, fone/fax (51) 3224.4798) e Palmarinca (Rua Jerônimo Coelho, 281, fone (51) 3226-7744).

"A imprensa operária do Rio Grande do Sul", de João Batista Marçal
R$ 30,00
290 páginas

(*) Do site Bem Informado

VOLTAR

Portal do Jornalismo Brasileiro

Para celebrar o transcurso dos 70 anos da Universidade de São Paulo, o Grupo PJ:Br difundiu na WEB a versão definitiva do PORTAL DO JORNALISMO BRASILEIRO.

O Grupo de Estudos sobre o Pensamento Jornalístico Brasileiro, criado na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). Sob a direção do Professor Emérito José Marques de Melo, está vinculado ao Núcleo de Jornalismo Comparado, integrante do Programa de Pós-Graduação do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE).

As edições experimentais do portal foram concebidas durante o ano letivo de 2003. Sua versão definitiva circulou em janeiro de 2004, tendo sido produzida por uma equipe liderada pela Profa. Dra. Ruth Vianna, que contou com a colaboração decisiva do Jornalista Marcelo Januário, bem como dos pesquisadores Carsten Burder, Márcia Furtado, Osmar Mendes Jr., além de outros participantes.

Publicações

No Portal, pode-se navegar pelo Mural do Jornalismo Brasileiro, espaço informativo constantemente atualizado, contendo referências ao trabalho realizado pelos agentes do pensamento jornalístico uspiano, seus parceiros e colaboradores.

A Revista PJ:Br - Jornalismo Brasileiro pretende lançar edições semestrais, contendo estudos, pesquisas, análises empíricas e reflexões teóricas sobre o Pensamento Jornalístico Brasileiro.

Por sua vez, o Dicionário do Jornalismo Brasileiro é um espaço referencial, com estrutura de verbetes, contendo dados de natureza biográfica, bibliográfica e hemerográfica sobre o jornalismo brasileiro.

Para acessar o portal, basta clicar: http://www.eca.usp.br/prof/josemarques

Revista científica

Publicação principal do Portal do Jornalismo Brasileiro, a Revista PJ:Br - Jornalismo Brasileiro está devidamente registrada no catálogo internacional de periódicos científicos sob o número ISSN 1806 – 2776.

A primeira edição, correspondente ao primeiro semestre de 2003, focalizou a temática "Pensadores Paradigmáticos do Jornalismo Brasileiro", resgatando as histórias de vida e as idéias de Frei Caneca, Rui Barbosa, Barbosa Lima Sobrinho, Alceu de Amoroso Lima, Cásper Líbero, Danton Jobim, Luiz Beltrão, Carlos Lacerda, Vitorino Prata Castelo Branco e Carlos Rizzini.

A segunda edição, editada durante o segundo semestre, privilegiou os ‘Pensadores Jornalísticos Uspianos: 1a. Geração (1967-1971)", reconstituindo a trajetória acadêmica de alguns dos primeiros professores do Curso de Jornalismo: José Marques de Melo, Flávio Galvão, Gaudêncio Torquato Hélcio Deslandes, Francisco Morel, e Gileno Marcelino.

Em sua apresentação, o Chefe do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA-USP, Prof. Dr. José Coelho Sobrinho destaca a inserção do novo periódico na "rede mundial do conhecimento".

"A Revista PJ:Br - Jornalismo Brasileiro está nascendo com a consciência e o objetivo de ser mais um nó que se interconecta à rede mundial do conhecimento. Neste tipo de mídia parece não haver lugar para a modéstia porque, como afirma Manuel Castells, se houver compartilhamento de códigos existirá uma globalização do capital, e o capital que está sendo investido nesta revista deverá render dividendos para o debate sobre as idéias a respeito dos processos jornalísticos produzidos por pensadores e pesquisadores brasileiros."

Destaques

Cada edição da Revista PJ:Br - Jornalismo Brasileiro inclui um dossiê de natureza biográfica.

No primeiro número, o dossiê "Marques de Melo, 30 anos" analisa o significado histórico da primeira tese de doutorado sobre jornalismo defendida no Brasil em 1973. Os textos foram escritos por Eni Simões Magro, Manuel Pares i Maicas, Mônica Kimura, Richard Romancini, Ruth Vianna, Vera Rodrigues e Wanda Schumann.

Na segunda edição, o dossiê "Quarup para Borin" reproduz a homenagem póstuma prestada ao Professor Jair Borin, primeiro ex-aluno da ECA-USP a integrar o corpo docente do Curso de Jornalismo. Assinam as matérias seus colegas Alice Mitika Koshiyama, Bernardo Kucinski, Dulcilia Buitoni, Jeanne Marie Machado de Freitas e Wilson da Costa Bueno, além de outras personalidades do mundo político.

Podem também ser encontradas nas edições inaugurais dessa revista, artigos sobre a regulamentação da profissão de jornalista, jornalismo digital, jornalismo investigativo, jornalismo digital etc.

Ao apresentar a segunda edição, a editora Ruth Vianna destaca o caráter referencial dos estudos de jornalismo desenvolvidos sob a égide da ECA-USP:

"(...) esperamos ter dado um pouco de nosso trabalho ao avanço dos estudos do jornalismo brasileiro e colaborado pelo resgate da memória de nossos pesquisadores (...) seguramente (...) tem a ECA-USP o status de referencial nacional e internacional na formação de profissionais competentes, humanos, criativos e críticos (...) Preservar a memória e trabalhar para que ela não se apague e sirva de parâmetros para posteriores estudos, que não é uma tarefa fácil, é árdua, mas que merece ser continuada com a maior dignidade possível".

Fonte: JBCC, n. 246, 05/03/04

VOLTAR

"Páginas de resistência": livro sobre a imprensa comunista do Pará

"Páginas de Resistência" traz o acervo de lutas do Partido Comunista Brasileiro do Pará e a oposição do jornal Tribuna do Pará aos tempos de autoritarismo e repressão. A pesquisa do jornalista Francisco Ribeiro do Nascimento abrange 91 edições da Tribuna do Pará, com 431 páginas e 175 títulos. A edição é da Imprensa Oficial do Estado e Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, onde será o lançamento dia 17 de março, às 18 horas, à Rua Rego Freitas, 530, sobreloja, na Capital.

Francisco Ribeiro do Nascimento, ou seu Chiquinho, como é mais conhecido na imprensa, tem 76 anos, nasceu na Ilha de Marajó, entrou no Partido Comunista Brasileiro aos 18 anos e começou no jornalismo em 1954, na própria Tribuna do Pará. Em 1958 assumiu a direção do jornal. Nesse mesmo ano o jornal deixou de circular por problemas financeiros. Sua história de vida compreende a prisão em Parintins, em 1954, quando trabalhava como técnico laboratorista e liderava uma manifestação pelo aniversário de Prestes. Em 1964, logo após o Golpe Militar, ficou seis meses clandestino para fugir de uma nova prisão em Belém do Pará.

O livro é, antes de tudo, uma homenagem àqueles que foram perseguidos pela ditadura militar: "É a minha maneira de contribuir para que fatos como a repressão e o autoritarismo não sejam esquecidos em nosso País. Meio século depois, temas como reforma agrária, conflito e assassinatos no campo, defesa da Amazônia, salários dignos e mais empregos continuam atuais e ainda hoje perturbam a sociedade brasileira. O livro é resultado do envolvimento e do incentivo de minha família e dos amigos e é dedicado a Vladimir Herzog e outros jornalistas que sofreram as conseqüências desses tempos terríveis".

Outros destaques do livro: "Uma Breve História do PCB no Pará", de Alfredo Oliveira, o texto "Doze Anos de Luta", transcrito da edição 352 de agosto de 1958, a diretoria do jornal Tribuna do Pará, textos/memória sobre o jornalista João Adolfo da Costa Pinto (ativista que lutava pela unidade do movimento sindical) e João Amazonas, presidente de honra do PC do B. Outro destaque é a homenagem aos mártires da imprensa, com dados do livro "Dossiê dos Mortos e Desaparecidos Políticos a partir de 1964". Além disso, um quadro com a relação de jornais e revistas dos anos de legalidade e ilegalidade do PCB, que existiram até 1964, com informações atualizadas pela Fundação Biblioteca Nacional em dezembro de 2001. (Fonte: Lu Fernandes Escritório de Comunicação Fone: (11) 3814.4600). Reproduzido pelo JBCC, n. 247, 12/03/2003

VOLTAR

O olho da história: fotojornalismo e história contemporânea

Ana Maria Mauad

Os grandes e não tão grandes fatos que marcaram a história do século XX foram registrados pela câmera fotográfica de repórteres atentos ao calor dos acontecimentos. Qual a natureza desses registros? Como fica a narrativa dos acontecimentos elaborada pela linguagem fotográfica? Quais são as imagens que compõem a memória coletiva do século passado? É possível falar de uma história feita de imagens? Qual o papel do fotógrafo como criador de uma narrativa visual? E da imprensa como uma ponte entre os acontecimentos e sua interpretação? Estas são as questões fundamentais que orientam as reflexões que se seguem.

A fotografia entrou para os jornais diários em 1904, com a publicação de uma foto no jornal inglês, Daily Mirror. Um atraso de mais de vinte anos em relação às revistas ilustradas, que já publicavam fotografias desde a década de 1880 (Souza, 2000. Freund, 1989). No entanto a entrada da fotografia no periodismo diário traduz uma mudança significativa na forma do público se relacionar com a informação, através da valorização do que é visto. O aumento da demanda por imagens promoveu o estabelecimento da profissão do fotógrafo de imprensa, procurada por muitos ao ponto da revista Collier's, em 1913 afirmar: "hoje em dia é o fotógrafo que escreve a história. O jornalista só coloca o rótulo" (Lacayo e Russel, 1990, p.31. Cit. Souza 2000, p. 70).

Uma afirmação bastante exagerada, tendo em vista o fato de que somente a partir dos anos 1930 o conceito de fotorreportagem estaria plenamente desenvolvido. Nas primeiras décadas do século, as fotografias eram dispostas nas revistas de modo a traduzir em imagens um fato, sem muito tratamento de edição. Em geral eram publicadas todas do mesmo tamanho, com planos amplos e enquadramento central, o que impossibilitava uma dinâmica de leitura, como também não estabelecia a hierarquia da informação visual (Souza, 2000, p. 70).

Foi somente no contexto de ebulição cultural da Alemanha dos anos 1920, que as publicações ilustradas, principalmente as revistas, ganhariam um novo perfil, marcado tanto pela estreita relação entre palavra e imagem, na construção da narrativa dos acontecimentos, quanto pelo posicionamento do fotógrafo como testemunha desapercebida dos acontecimentos. Eric Salomon (1928-1933) foi o pioneiro na conquista do ideal da testemunha ocular que fotografa sem ser notado. No prefácio de seu livro Contemporâneos célebres fotografados em momentos inesperados, publicado em 1931, ele enunciou as qualidades do fotojornalista, dentre elas as principais seriam uma paciência infinita e astúcia para driblar todos os obstáculos na conquista da imagem certa para sintetizar o acontecimento tratado.

Solomon foi responsável pela fundação da primeira agência de fotógrafos, em 1930, a Dephot, preocupado em garantir a autoria e os direitos das imagens produzidas. Questão que se prolonga até os dias de hoje, nos meios de fotografia de imprensa. Em todo caso, foi através de iniciativas independentes como essas que a profissão do fotógrafo de imprensa foi ganhando autonomia e reconhecimento. Associado à Solomon em sua agência estavam: Felix H. Man, além de André Kertesz e Brassai.

A narrativa através de imagem passaria a ser ainda mais valorizada quando surge o editor de fotografias. O editor, figura que surgiu nos anos 1930, originou-se do processo de especialização de funções na imprensa e passou a ser o encarregado de dar um certo sentido às notícias, articulando adequadamente palavras e imagens, através do título, da legenda e de breves textos que acompanhavam as fotografias. A teleologia narrativa das reportagens fotográficas tinha como objetivo capturar a atenção do leitor, ao mesmo tempo em que o instruía na maneira adequada de ler a imagem. Stefan Lorant, que já havia trabalhado em diversas revistas alemãs foi o pioneiro na elaboração do conceito de fotorreportagem (Costa, 1993, p.82).

Lorant rejeitava a foto encenada, ele, ao invés, vai fomentar a fotorreportagem em profundidade sobre um único tema. Nessas reportagens, geralmente apresentadas ao longo de várias páginas, fotografias detalhadas são agrupadas em torno da foto central. Esta tinha por missão sintetizar os elementos de uma 'estória' que Lorant pedia aos fotojornalistas que contassem em imagens. Uma fotorreportagem, segundo tal concepção, deveria ter um começo e um fim, definidos pelo lugar, tempo e a ação (Souza, 2000, p.80).

Com a ascensão do nazismo os fotógrafos deixaram a Alemanha, Salomom é morto em Auschswitz, alguns deles, dentre os quais o húngaro Andrei Friemann, que assume o pseudônimo de Capa, foram para França onde, em 1947, fundaram a agência Magun, outros, como Lorant, se exilam na Inglaterra, assumindo a direção de importantes periódicos, tais como Weekly Iillustrated. Posteriormente, com o acirramento do conflito, seguiram para os EUA, trabalhando junto às revistas Life, Look e Time (1922).

O período entre guerras foi também o de crescimento do fotojornalismo norte-americano. Destacando-se, nesse contexto, o aparecimento dos grandes magazines de variedades como a Life (1936) e a Look (1937). A primeira edição da revista Life saiu em 11 de novembro de 1936, com tiragem de 466 mil exemplares e com uma estrutura empresarial que reunia, em 17 seções, renomados jornalistas e fotógrafos da sensibilidade de um Eugene Smith.

Criada no ambiente do New Deal, a Life foi projetada para dar sinais de esperança ao consumidor, tratando, em geral de assuntos que interessavam às pessoas comuns. Objetivava ser uma revista familiar, que não editava temas chocantes, identificando-se ideologicamente com: a ética cristã, a democracia paternalista, a esperança num futuro melhor com esforço de todos, trabalho e talento recompensados, apologia da ciência, exotismo, sensacionalismo e emotividade temperada por um falso humanismo (Luiz Espada, cit. Por Souza, 2000, p.107).

A geração de fotógrafos que se formaram, a partir da década de 1930, atuou num momento no qual a imprensa era o meio por excelência para se ter acesso ao mundo e aos acontecimentos. Essa geração de fotógrafos exerceu uma forte influência na forma como a história passou a ser contada. As concerned photographs, fotografias de forte apelo social, produzidas a partir do estreito contato com a diversidade social, conformaram o gênero também denominado de documentação social. Projetos associados à rubrica de documentação social são bastante variados, mas em geral se associam a uma proposta institucional, oficial ou não.

Um famoso exemplo de fotografia engajada num projeto oficial foi o da FSA (Farm Security Administration), uma agência de fomento governamental, dirigida por Roy Stryker, através da qual a vida rural e urbana foi registrada (e devassada) pelos mais renomados fotógrafos do período: Dorothea Langue, Margareth Bourke-White, Russel-lee, Walker Evans,etc.

Por outro lado, o aumento constante da busca por imagens conduziu à multiplicação de agências de imprensa em todos os países. Elas empregavam fotógrafos ou estabeleciam contratos com fotógrafos independentes. Em geral as agências ficavam com grosso do lucro obtido com a venda das fotos e o fotógrafo, responsável por todos os riscos, não tinha controle sobre essa venda.

Esse foi um dos motivos pelos quais, em 1947, Robert Capa, juntamente com outros fotógrafos, fundou a Agência Magnum. Para esse grupo, a fotografia não era apenas um meio para ganhar dinheiro. Aspiravam a exprimir, através da imagem, os seus próprios sentimentos e idéias de sua época. Rejeitavam a montagem e valorizavam o flagrante e o efeito de realidade suscitado pelas tomadas não posadas, como marca de distinção de seu estilo fotográfico. Em geral os participantes dessa agência eram adeptos da Leica, uma câmera fotográfica de pequeno porte que prescindia de flash para as suas tomada, valorizando com isso o efeito de realidade.

Em ambos os exemplos, o que se percebe é a construção de uma comunidade de imagens em torno de determinados temas, acontecimentos, pessoas, ou lugares, podendo inclusive cruzar tais categorias. Tais imagens corroboram, em grande medida, o processo de construção de identidades sociais raciais, políticas, étnicas, nacionais, etc, ao longo do século XX.

No Brasil
O mercado editoral brasileiro, mesmo incipiente, já existia desde o século XIX, com publicações das mais diversas (Sussekind, 1987) Em 1900 é publicada a Revista da Semana, primeiro periódico ilustrado com fotografias. Desde então os títulos se multiplicaram como também o investimento nesse tipo de publicação. Um exemplo disso é o aparecimento, em 1928, da revista O Cruzeiro, um marco na história das publicações ilustradas (Mauad, 1999).

A partir da década de 1940, O Cruzeiro reformulou o padrão técnico e estético das revistas ilustradas apresentando-se em grande formato, melhor definição gráfica, reportagens internacionais elaboradas a partir dos contatos com as agências de imprensa do exterior e, em termos estritamente técnicos, a introdução da rotogravura, permitindo uma associação mais precisa entre texto e imagem. Toda essa modernização era patrocinada pelos Diários Associados, empresa de Assis Chateaubriand, que passa a investir fortemente na ampliação do mercado editorial de publicações periódicas.

A nova tendência inaugurada por O Cruzeiro, encetou uma reformulação geral nas publicações já existentes obrigando-as a modernizar a estética de sua comunicação. Fon-Fon, Careta, Revista da Semana, periódicos tradicionais adequaram-se ao novo padrão de representação, que associava texto e imagem na elaboração de uma nova forma de fotografar: o fotojornalismo.

Assumindo o modelo internacional, sob forte influência da revista Life, o fotojornalismo de O Cruzeiro criou uma escola que tinha entre os seus princípios básicos a concepção do papel do fotógrafo como 'testemunha ocular' associada à idéia de que a imagem fotográfica podia elaborar uma narrativa sobre os fatos. No entanto, quando os acontecimentos não ajudavam, encenava-se a história.

O texto escrito acompanhava a imagem como apoio, que no mais das vezes, amplifiava o caráter ideológico da mensagem fotográfica. Daí as reportagens serem sempre feitas por um jornalista, responsável pelo texto escrito, e por um repórter fotográfico, encarregado das imagens, ambos trabalhando conjuntamente. No entanto, somente a partir dos anos 40 o crédito fotográfico será atribuído com regularidade nas páginas de revistas e jornais.

Uma dupla em especial ajudou a consolidar o estilo da fotorreportagem no Brasil: David Nasser e Jean Manzon, a primeira dupla do fotojornalismo brasileiro, protagonistas de histórias onde encenavam a própria história (Carvalho, 2002, Costa, 1996). Além de Manzon, outros fotógrafos contribuíram para a consolidação da memória fotográfica do Brasil contemporâneo, tais como: José Medeiros, Flávio Damm, Luiz Pinto, Eugenio Silva, Indalécio Wanderley, Erno Schneider, Alberto Jacob, entre outros que definiram uma geração do fotojornalismo brasileiro.

A fotorreportagem marcou época na imprensa ilustrada respondendo à demanda de seu tempo. Um tempo onde a cultura se internacionalizava e a história acelerava seu ritmo no descompasso das guerras e conflitos sociais. Em compasso com a narrativa de imagens, os acontecimentos recuperaram a sua força de representação, a ponto de se poder contar a história contemporânea através dessas imagens.

No entanto, para explicar essa história, o historiador não pode bancar o ingênuo. Há que se tomar a imagem do acontecimento como objeto da história, como documento/monumento, como verdade e mentira. Indo de encontro à memória construída sobre os eventos, porque a história a desmonta, a desnaturaliza apontando todo o caráter de construção, comprometimento e subjetividade.

Ana Maria Mauad é professora adjunta do Departamento de História da UFF e pesquisadora do Laboratório de História Oral e Imagem da UFF.

Este texto faz parte da pesquisa "Através da imagem: História e memória do fotojornalismo no Brasil contemporâneo" financiada pelo CNPq, 2002-2004.


Referências bibliográficas

Carvalho, Luiz Maklouf. Cobras Criadas, São Paulo: Editora Senac, 2ª ed., 2002.
Costa, H. "Da fotografia de imprensa ao fotojornalismo", In: Acervo: revista do Arquivo Nacional, vol.6, n° 1-2, Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1993, pp. 55-74.
Costa, H. "Palco de uma história desejada: o retrato do Brasil por Jean Manzon", In: Revista do Patrimônio Histórico e Artístico, Iphan, n° 27, 1996, pp. 139-159.
Freund, Gisele. Fotografia e sociedade. Lisboa: Vega, 1989.
Mauad, A.Mª. "Janelas que se abrem para o mundo: fotografia de imprensa e distinção social, no Rio de Janeiro na primeira metade do século XX", In: Estúdios Interdisciplinarios de América Latina y el Caribe, vol. 10, n° 2, Tel Aviv, 1999.
Sousa, Jorge Pedro. Uma história crítica do fotojornalismo ocidental. Chapecó: Grifos, Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2000.
Sussekind, Flora. O Brasil não é longe daqui, SP: Companhia das Letras, 1987.

Fonte: Revista ComCiência, Labjor, Unicamp, 10.03.2004

 

VOLTAR

História Imediata: Santiago de Compostela debate novos paradigmas historiográficos


III Congreso Internacional Historia a Debate
Santiago de Compostela

14-18 de julio de 2004

CONVOCATORIA

Por tercera vez, y primera en el nuevo siglo, invitamos a los historiadores del mundo a peregrinar a Santiago de Compostela en el Xacobeo 2004 para reflexionar, y debatir juntos, sobre el estado de la disciplina de la historia y su relación con la historia inmediata.

La historia que se investiga, se enseña y se divulga, no puede ni debe quedar al margen del momento de aceleración histórica, y por lo tanto
historiográfica, que estamos viviendo.

Nos interesan las últimas novedades sobre el método y la teoría de la historia, la historiografía y la relación historia /sociedad.

Buscamos profundizar en la elaboración de una alternativa historiográfica y global para el siglo XXI que asegure una nueva primavera para el oficio de historiador y la escritura de la historia, que contribuya al fin histórico de un futuro mejor para toda la humanidad, contamos para ello con la red temática Historia a Debate y la colaboración de
340 entidades académicas de 27 países.

TEMAS

I. RECONSTRUCCIÓN DEL PARADIGMA  HISTORIOGRÁFICO

II. HISTORIOGRAFÍA GLOBAL

1. Historiografía digital

2.  Entre historiografías

III. PARADIGMAS SINGULARES

1. Historia mixta como historia global

2. Historia mundial como historia global

3. Nuevas formas de compromiso historiográfico

4. ¿Es posible una Historia Inmediata?

5. Los fines de la historia, hoy

IV. HISTORIOGRAFÍA Y  ACTUALIDAD

1. Historia y democracia

2. Historia y derechos humanos

3. Formación histórica del sujeto político

4. Idea histórica de España

5. Memoria histórica activa


MESAS REDONDAS

I. GRANDES DEBATES

A. Las formas de sociedad y sus transiciones

B. Estado y sociedad civil en la historia

C. Protagonistas individuales y colectivos en la historia

D. Tendencias colectivas e individuos en la historiografía

E. Fragmentación de la historia, globalización de la sociedad

F. Paradigmas actuales en ciencias sociales

II. HISTORIOGRAFÍA INMEDIATA

G. Grupos, redes, movimientos historiográficos

H. Conceptos históricos y actualidad

I.  Historias oficiales

J. Transiciones a la democracia

K. Retorno de la sociedad civil

L.  Pueblos indígenas, historiografía y actualidad

III. HISTORIA INMEDIATA

M. 11 de Setiembre

N. Globalización, antiglobalización, historia

O. Europa en la encrucijada histórica

P. América en la encrucijada histórica

Q. Oriente y Occidente

Temario explicado, normas de participación, ponencias inscritas y boletín de inscripción en
http://www.h-debate.com/congresos/3/menu.htm


Cordialmente,

Carlos Barros

Coordinador del III Congreso  Internacional Historia a Debate
Apartado de Correos 427
15780 Santiago de Compostela (España)
tel. 981 52 80 58
fax 981 81 48 97
h-debate@cesga.es
cbarros@wanadoo.es
www.cbarros.com


Más información en
www.h-debate.com (952428 visitas desde su creación en 1999)

NOTA FINAL:

Si quieres recibir regularmente información de HaD y seguir nuestros debates, envianos un mensaje que diga "suscribe" a
h-debate@cesga.es (somos actualmente 2131 historiadores de 50 países).

Si no eres historiador, o simplemente quieres desaparecer de nuestra base de datos, envianos un mensaje que diga "borradme" a 
h-debate@cesga.es
http://www.comciencia.br

VOLTAR

 

Série 200 anos da imprensa brasileira

Trajetória da mítica figura do jornalista e empresário Roberto Marinho

Gabrtel Collares

Doutor em Comunicação pela ECO-UFRJ. Docente da Faculdade de Comunicação da UFJF – Universidade Federal de Juiz de Fora (MG)

1 – INTRODUÇÃO

A tradição contemporânea ocidental delegava ao historiador a legitimação do acontecimento. Pierre Norra afirma que cabe agora à mídia este papel onde somente por intermédio dela é que o fato se concretiza.

"Acontecimentos capitais podem ter lugar sem que se fale deles. O fato de terem acontecido não os torna históricos. Para que haja acontecimento é necessário que seja conhecido" (1)

As versões da história fornecidas pela Imprensa forneceriam à sociedade um mosaico onde a partir da junção dos relatos fragmentados de cada veículo de comunicação compor-se-ia o "real". No Brasil, em especial, isto se torna problemático na medida em que, somado ao monopólio dos meios de comunicação, apresentam-se os donos das empresas jornalísticas como ícones transformadores da identidade nacional.

Aos empresários não é conveniente ater-se em apenas relatar o acontecido, mas sim tentar persuadir o receptor de que aquela versão produzida é definitiva. Cabe a estes homens o monopólio da história.

"Os media transformam em atos aquilo que não teria sido senão palavra no ar, dão ao discurso, à declaração, à conferência de imprensa a solene eficácia do gesto irreversível". (2)

Nas sociedades de consumo, o sistema tende a alimentar a chamada fome de acontecimentos. Pierre Norra coloca que "(...) é próprio do acontecimento moderno encontrar-se numa cena imediatamente pública, em não estar jamais sem repórter-espectador nem espectador-repórter" (3). Os meios de comunicação de massa aperfeiçoam seus dispositivos técnicos para atingir a um público consumidor cada vez mais abrangente.

Os mass media se caracterizam, entre outros, justamente por envolverem máquinas na mediação da comunicação: aparelhos que possibilitam o registro permanente e a multiplicação das mensagens, onde podem atingir simultaneamente uma vasta "audiência".

Temos diante de nós um mecanismo que se retroalimenta. Se é típico da sociedade de consumo a "fome de acontecimento", a Imprensa vai justamente oferecer ao receptor aquilo que ela julgou ser digno de configurar-se como história. Oportuno lembrar que outra característica peculiar dos meios de comunicação de massa é o fato de que são sistemas de mão única — mesmo que disponham de vários feedbacks, como carta dos leitores, telefonemas, ombudsman etc. Como afirma Pasquali:

 

"(...) comunicação autêntica é a que se assenta num esquema de relações simétricas, em uma paridade de condições entre emissor e receptor, na possibilidade de ouvir o outro e ser ouvido, como possibilidade mútua de entender-se" (4).

Detentores dos meios de produção, os empresários da comunicação no Brasil sabem que, como afirma Pierre Norra, "multiplicar o novo, fabricar o acontecimento, degradar a informação, são seguramente os meios de se defender" (5).

    1. Justificativa

      Oportuno se faz estudar a história do Brasil no século XX como pano de fundo para o desenrolar das "histórias de vida". Para tanto, optamos por acompanhar a trajetória da mítica figura do jornalista e empresário Roberto Marinho, detentor de uma das maiores corporações jornalísticas do mundo: as Organizações Globo. De acordo com Neal Gabler:

      "Quarenta anos atrás (...) a palavra celebridade raramente era usada. (...) todo mundo que aparecesse em rádio, jornais ou televisão vinha a ser bem-sucedido ou famoso. A celebridade era uma fama diferente. Sempre estivera ligada à habilidade, a alguma façanha. Como disse Daniel Boorstin, ‘a celebridade é uma pessoa conhecida por sua notoriedade’". (6)

      Interessante notar como Roberto Marinho se encaixa na definição de celebridade, uma vez que é notória sua capacidade decisória e empresarial — muitas vezes como partícipe direto — em vários momentos marcantes da história do Brasil.

      "Sim, eu uso este poder (...) tentando corrigir as coisas, procurando poder suficiente para consertar tudo o que não funciona no Brasil. A isto dedicamos todas as nossas forças" (7)

      O depoimento acima foi obtido pelo Times em uma entrevista exclusiva onde Roberto Marinho não fez questão de esconder o uso das Organizações Globo como centro-chave de poder. Um exemplo do exercício deste poder foi veiculado pelo jornal norte-americano ao citar o tratamento dispensado pelo empresário ao governador do Rio na época, Leonel Brizola:

      "Num determinado momento, eu me convenci de que o Sr. Leonel Brizola era um mau governador. Ele transformou a Cidade Maravilhosa em um pátio de mendigos e marginais. Passei a considerar o Sr. Brizola perigoso e lutei, realmente usei todas as minhas possibilidades para derrotá-lo". (8)

      Com isso, durante muitos meses o governador Brizola não pôde aparecer nos telejornais locais. Depois podia aparecer, mas não lhe era facultado o direito de falar com as próprias palavras. Simplesmente o governador era dublado pelo apresentador da Globo.

    2. Metodologia

Na tentativa de construir parte da biografia de vida do empresário e jornalista Roberto Marinho, procuramos seguir as diretrizes traçadas pelo Prof. Dr. José Amaral Argolo, do curso de Pós-graduação em Comunicação e Cultura da UFRJ. Uma história de vida pode ser levantada a partir de uma entrevista direta com o protagonista ou através de outrem. Na impossibilidade da primeira, optamos pela segunda abordagem. Para tanto colhemos depoimentos no Museu da Imagem e do Som – MIS/RJ, além de meticuloso levantamento bibliográfico e hemerográfico. Para embasar e facilitar a compreensão nos pautamos pelo relato paralelo, ou seja, seguimos uma cronologia (a partir da década de 30) amparada em notas bibliográficas. Neste processo, fez-se notar claramente a relação do nosso estudo de caso com o social e a história (e vice-versa).

De Franco Ferrarroti nos baseamos na metodologia que procura classificar em dois grandes grupos os materiais:

Como salientamos, diante da impossibilidade de uma apuração in loco, centramos nossos esforços nos materiais secundários.

Gostaríamos de destacar que, para a elaboração deste trabalho, a Biblioteca Nacional, em particular a seção de microfilmes — que dispõe de um vasto número de periódicos catalogados — foi explorada à exaustão. Além disso, outra fonte de consulta foram os arquivos disponibilizados pela internet dos grandes jornais e revistas.

Observamos ainda que elaboramos dois tipos de notas: as bibliográficas, com numeração arábica, elencadas em item especial no final da monografia, e as notas de pé de página em algarismos romanos, no decorrer do texto.

 

2 – DESENVOLVIMENTO

2.1) Roberto Marinho, uma história de vida

Roberto Marinho nasceu no dia 3 de dezembro de 1904. Em 96 anos de vida, conseguiu construir um patrimônio pessoal avaliado em mais de um bilhão de dólares. À frente das Organizações Globo, um império de comunicação com faturamento anual de U$ 5,7 bilhões, procura exercer influência direta nos rumos do país. Tanto é que na escolha dos ministros para a formação do primeiro governo civil após o golpe militar de 64, o presidente Tancredo Neves procurou "ouvir" os conselhos de Roberto Marinho:

"Eu brigo com o ministro do Exército, mas não com Roberto Marinho" (9)

Horas depois da sua eleição, Tancredo almoçou com o empresário Roberto Marinho. O encontro particular foi noticiado pelo O Globo, jornal do anfitrião. Antônio Carlos Magalhães também participou do almoço. Horas depois Tancredo anunciava que ACM seria seu ministro das Comunicações.

Tancredo morreu antes de assumir a Presidência da República e as imagens da Globo "expressaram" toda a angústia da nação. Tomou posse José Sarney, membro fundador da ARENA. O fato é que Sarney confirmou ACM como Ministro das Comunicações. Começa aí uma história de favorecimento político, improbidade administrativa e corrupção. Um dos principais fornecedores de equipamentos de Telecomunicações para o governo era a NEC Brasil, de propriedade do empresário Mário Garnero, e sua financiadora Brasilinvest, juntamente com a matriz japonesa. A Globo se prevalecerá do mau momento financeiro enfrentado pela NEC do Brasil. Não custa lembrar que foram exatamente dificuldades perpetradas pelo ministro das Comunicações, ACM, que colocaram a empresa naquela condição. O Ministério suspendeu os pagamentos e as encomendas à NEC. Sem essas encomendas, sem esses pagamentos, a NEC se descapitalizou, e foi por isso que a Globo pagou menos de um milhão de dólares pelas ações da NEC. Estranhamente, logo em seguida à compra da empresa pelo Dr. Roberto Marinho, ACM restabeleceu os pagamentos e as encomendas – que eram a razão de ser da NEC – ela já passou a valer, segundo uma avaliação dos próprios japoneses, 350 milhões de dólares.

Outro fato amplamente divulgado pela mídia foi a intervenção do Dr. Roberto Marinho na indicação do ministro da Fazenda do governo Sarney. O presidente havia ligado para O Globo a fim de pedir um nome de confiança. Marinho voou num jatinho particular para Brasília e depois de uma reunião a portas fechadas, chegou-se a um consenso: o economista Mailson da Nóbrega seria o escolhido.

A Roberto Marinho se atribui — além da indicação de figuras para o primeiro escalão do governo — a capacidade de eleger presidentes.

"Admito exercer influência, o que faço sempre com vistas ao bem de meu país"

(10)

Dos cinco filhos de Irineu Marinho, Roberto era o mais velho. Desde cedo ele se acostumou à rotina da redação pois costumava acompanhar o trabalho do pai. Certo dia, Irineu Marinho, de descendência portuguesa, sofreu um infarto fulminante enquanto tomava um banho em casa.

"Papai sofria dos rins e para aliviar as dores lombares tomava banhos quentes. Não era costume trancar-se mas aquele dia virou a chave com medo de a empregada entrar inadvertidamente. Botei a cadeira e pulei pela bandeirola. Fui ao chão, me escorando. Papai estava morto" (11)

Aos vinte e um anos, herdou o vespertino O Globo. Entretanto, Roberto Marinho resolveu deixar Euricles de Mattos — homem de confiança do pai — na direção do jornal. Como jornalista, era o que na época se chamava de pé-de-boi, ou seja, uma espécie de faz-tudo na redação. Pegava no batente às cinco da manhã e costumava sair apenas tarde da noite. Às vezes, arriscava-se a bancar o fotógrafo:

"é dele a histórica foto de Washington Luís com o Cardeal Leme às vésperas da partida para o exílio." (12)

Alguns colegas costumam dizer que não foram poucas as noites em que varou a madrugada preparando pautas para o dia seguinte. Durante anos acompanhou a impressão de O Globo. Para isso, mantinha um apartamento no 4º andar da Rua Irineu Marinho. Somente em 1931, ou seja, seis anos mais tarde, é que ele assumiu o jornal. Entretanto, Roberto Marinho não se continha apenas em gerenciar o jornal. Continuava participando das reuniões de pauta, escrevendo editoriais e saindo às ruas para apurar matérias. Ainda hoje costuma interferir na titulação e elaboração de manchetes para a primeira página.

Roberto Marinho recebeu como herança genética o temperamento explosivo da mãe, Dona Francisca — mulher ítalo-brasileira de gênio forte. Tanto é que não faltam registros de situações onde o empresário preferiu exercer os predicados de boxer ao diálogo. Certa vez um censor do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) achou por bem vetar um editorial escrito por Marinho. A resposta veio rápida: dois murros derrubaram o censor que prontamente tratou de denunciar o fato aos superiores. Correram boatos de que O Globo seria empastelado e o jornalista preso. Cogitou-se até a hipótese de Roberto Marinho pedir asilo na embaixada da Itália. Entretanto, ficou tudo por isso mesmo.

Na juventude, costumava praticar diversos esportes tais como boxe, automobilismo, pesca submarina e hipismo. Em virtude disso, pode agüentar o ritmo frenético do fechamento do jornal e os longos plantões a que se submetia. Roberto Marinho tinha um objetivo: transformar o vespertino herdado no principal veículo de comunicação do país.

Quando foi lançado, O Globo procurou se posicionar no mercado optando por ser um vespertino eminentemente carioca. Para tanto, Roberto Marinho patrocinava a Orquestra Sinfônica; foi ele também quem ajudou na organização do primeiro desfile de escolas de samba do Rio de Janeiro.

As editorias com mais destaque eram as de Política, Sociedade e Cidade. Na sua concepção, as notícias mais importantes deveriam estar necessariamente na primeira ou na terceira página.

Porém, é sabido que o sucesso do jornal se deve em grande parte ao jornalista Evandro Carlos de Andrade. Caso único na história do jornalismo brasileiro, permaneceu por quase três décadas como diretor de redação do jornal O Globo. Foi ele quem profissionalizou a redação e tornou o jornal competitivo: contratou profissionais, organizou as faixas salariais, lançou a edição de Domingo — dia em que o Jornal do Brasil reinava absoluto —, adquiriu máquinas off-set, reformou graficamente o jornal — inclusive com a introdução de cores — e partiu para a conquista dos anunciantes.

"Na primeira vez, estivemos apenas os dois, na casa do Cosme Velho. Ele queria me ouvir, saber o que eu achava que deveria ser um jornal moderno, ágil... Ao ‘fechar negócio’, ele disse: ‘Eu não agüento mais levar tanto furo!’ Embora ainda estivéssemos no apogeu da ditadura, o Dr. Roberto já tinha a percepção de que aquilo ali não ia durar. Começamos então, eu, o Zé Augusto Ribeiro e o Henrique Caban, a mexer no jornal tendo como meta principal conquistar a mocidade, a universidade. O caderno de vestibular foi idéia do Caban, assim como o suplemento do Vestibular (...) O Jornal de Bairros foi sugestão do Dr. Roberto. E não foi uma coisa assim, ‘vamos planejar um jornal assim e assim...’ É: ‘quero em uma semana’ (risos) Caderno de TV? ‘Sim, quero para Domingo’. E saiu tudo numa semana!" (13)

Em julho de 2000, Evandro Carlos de Andrade completou cinco anos à frente da Central Globo de Jornalismo. Antes, trabalhou por 24 anos como diretor de Redação do jornal O Globo. Os jornalistas que tiveram a oportunidade de trabalhar com ele são unânimes em afirmar que Evandro sempre foi um chefe duro, obsessivo, mas que, em contrapartida, sabia reconhecer o mérito de uma boa reportagem.. O mesmo se classificava da seguinte maneira:

"Eu sou a favor do Poder exercido com autoridade! (...) Eu não tenho espírito de turma, não tenho grupo de amigos, profissionais que eu proteja; eu nunca toleraria formação de igrejinha, de grupinho no lugar que eu trabalhasse! Eu trabalho voltado exclusivamente para o bom resultado!" (14)

Sobre os políticos, o diretor nunca escondeu de ninguém sua predileção por Antônio Carlos Magalhães. Aliás, tanto Evandro Carlos de Andrade como Roberto Marinho procuraram dar espaço ao político nas Organizações Globo. Nesta entrevista, Evandro discorre sobre os políticos que admira:

"Antônio Carlos Magalhães nas circunstâncias do Brasil é um grande político, porque tem uma extraordinária percepção do sentimento do povo. Ele, na Bahia, como o Sarney, no Maranhão, andam na rua sem segurança. ACM é hábil, sabe até onde vai, não ultrapassa o ponto, tenta ocupar todo o espaço que estiver disponível. Indiscutivelmente um grande político!" (15)

Embora a história oficial registre, não foi divulgado ao grande público o fortalecimento do jornal graças as benesses do governo militar. Anúncios oficiais de página inteira, isenção de impostos e outra regalias fizeram com que o vespertino desbancasse os concorrentes. Em contrapartida, O Globo portava-se como um jornal chapa-branca a favor das elites e comprometido com a ditadura. Outra estratégia adotada foi se valer da "máquina" das Organizações Globo para vender o produto jornal na televisão e na rádio.

Entre as tardes de Sábado e as manhãs de Domingo, durante anos a Rede Globo pôs no ar dezessete anúncios da edição dominical de O Globo, numa campanha cujo custo real o Jornal do Brasil nem sequer podia sonhar despender em publicidade. (16)

Para que se compreenda como as Organizações se transformaram em uma empresa familiar, é preciso discorrer um pouco sobre a vida privada do jornalista. Roberto Marinho permaneceu solteiro até os 40 anos de idade. Morava sozinho numa casa próximo ao Cassino da Urca. É deste tempo que registra-se a fama de galanteador, com atração especial por bailarinas.

"Quem aparecia com assiduidade para jantar era a atriz performática Luz del Fuego. Sem as cobras, evidentemente." (17)

A socialite Stella Goulart foi a primeira mulher e mãe de todos os seus filhos — Roberto Irineu, Paulo Roberto, João Roberto e José Roberto. Permaneceu casado por trinta anos. A separação veio quando a esposa descobriu as aventuras extraconjugais do jornalista. A segunda mulher, com quem viveu sete anos, chamava-se Ruth Albuquerque.

Anticomunista, identificava e delatava ao marido os empregados das Organizações Globo que tinham postura ideológica comprometida com a Esquerda. Taciturna, não participava de festas ou espetáculos artísticos. Implicava com alguns amigos de Roberto Marinho e mais ainda com as noras. Além disso, tinha especial predileção por felinos. Mais de uma dezena era mantida em casa por ela:

"Roberto Marinho não reconhecia mais a mulher tranqüila e culta com quem se encantara. Antes, maravilhava-se do desvelo com que Ruth cuidava dos seus gatos. Agora, não agüentava mais tantos gatos pela casa. Pulavam de dentro de armários, enroscavam-se nos seus pés. Tinha ganas de chutá-los." (18)

Mas, sem dúvida, o grande amor do empresário — e atual esposa — é a francesa Lily de Carvalho.

"Tem ciúmes dela e ela dele. Falam-se várias vezes ao dia. É comum, em meio ao almoço na TV Globo, ele a atender ao telefone e, como se não houvesse mais ninguém na sala, cair no mais puro idílio". (19)

Vale salientar que João Roberto, o filho do meio, é com quem ele tem maior identificação e intimidade. Tanto é que em meados dos anos 70, João Roberto entrou para o jornal O Globo como diagramador. Passou depois como repórter pelas editorias de Geral e de Esportes. Foi coordenador de fechamento e aprimorou o sistema de distribuição do jornal. Em 1983, o pai reconheceu suas virtudes como profissional e o alçou ao cargo de vice-presidente. O filho mais velho, Roberto Irineu, herdou outros traços do pai:

"Aguerrido, impetuoso, de visão ampla. Vibrava com as novas tecnologias. Falava de televisão a cabo, telefonia móvel, transmissão de dados via satélite anos antes de serem lançadas comercialmente. (...) Arrojado, patrocinou a idéia de montar um canal de televisão na Itália, a Telemontecarlo. Para consternação de pai e filho, o empreendimento fracassou". (20)

Não é à toa que Roberto Marinho tem reconhecida como virtude a sua visão estratégica de mercado. Em 1944, fundou a Rádio Globo para competir no já saturado meio radiofônico. Obteve depois uma concessão para operar em FM, embora não houvesse aparelhos receptores para aquele tipo de modulação. Ele acreditava que este novo formato — que oferecia menos ruído e maior fidelidade — viria para ficar. Não demorou muito tempo para a FM se popularizar.

Interessante notar que o empresário e jornalista Roberto Marinho se esforça em construir uma imagem de anti-celebridade, ou seja, prefere agir nas sombras ao invés das luzes dos holofotes. Talvez seja por isso que em duas ocasiões, onde passou despercebido, tenha enfrentado situações embaraçosas. Quem conta as histórias é o jornalista de economia, Carlos Tavares de Oliveira, amigo pessoal e dono de um folclore especial sobre Roberto Marinho:

 

"Uma vez, caminhando em Paraty, resolvemos parar em um posto de gasolina. Quando me dirigia ao bar, um enorme caminhão chegou. Da boléia, o motorista gritou para o Dr. Roberto: ‘ei, você aí, enche o tanque !’" (21)

"De outra vez, na década de 70, saímos de barco. Entusiasmados com a beleza do dia, nos afastamos de Angra dos Reis e logo nos apercebemos que era tarde. Havíamos prometido levar peixe para o almoço. Daí a pouco, encontramos um pescador numa canoa cheia de peixe fresco. O problema é que estávamos sem dinheiro. Tentei negociar: ‘O senhor me deixa levar o peixe e logo mando um empregado meu com o dinheiro’. O pescador não quis conversa: ‘De jeito nenhum, só leva se pagar!’. Tentei argumentar com veemência, mas não deu: ‘Ele não vai deixar d e pagar você, rapaz! Ele é o Roberto Marinho, do Globo!’. O pescador foi taxativo: ‘E eu com isso?!’" (22)

Apesar de possuir um patrimônio pessoal formidável, comenta-se que Roberto Marinho detesta gastar. A pequena passagem descrita abaixo demonstra a mesquinhez do empresário:

 

"Tempos houve em que sua secretária em O Globo, Dona Lygia Mello, preocupava-se em esconder as notas do alfaiate, senão ele ia querer pechinchar no preço. Tem alergia ao desperdício. Certa vez, deslocou-se de Nova York, onde tem apartamento, até Nova Jersey, só para comprar gravatas com imposto mais baixo"

(23)

Roberto Marinho entrou para a Academia Brasileira de Letras (ABL) em 19 de outubro de 1993. Aliás, é público o seu gosto pessoal pelas artes. Corrobora esta afirmação a considerável pinacoteca que não pára de crescer, onde figuram obras de Guignard, Portinari e Segall, entre outros.

Hoje, apesar da idade avançada, não mudou a rotina: acorda cedo, vai ao jornal O Globo e, no começo da tarde, segue para a TV, onde almoça e dá expediente. Sentam-se, com freqüência, à mesa de refeição com Roberto Marinho, os filhos Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto, além dos advogados Jorge Rodrigues e Jorge Serpa. Políticos como Antônio Carlos Magalhães e José Sarney, quando de passagem pelo Rio, também costumam desfrutar da boa comida regada sempre com uma boa champanhe.

"De hábitos frugais, raramente se excede à mesa. Não que faça dieta: vez por outra até encara pratos suculentos, mas a preferência é por peixe grelhado com batatas cozidas. Nunca bebeu ou fumou. No máximo brinda com champanhe, mas só toma meia taça" (24)

Há uma história pitoresca sobre o pedetista Leonel de Moura Brizola, um dos desafetos do empresário. É sabido que um dos xodós de Roberto Marinho é a bela paisagem do Jardim Botânico que se vislumbra do escritório. Recomenda-se, portanto, elogiar a paisagem. Certo dia, porém, em visita a TV Globo, Brizola feriu o orgulho do dono da sala:

"Brizola levantou-se com ar de quem finalmente ia fazer um comentário, deixando Dr. Roberto na expectativa. ‘Veja o CIEP que estou construindo ali!’, disparou Brizola, apontando para os lados da Lagoa Rodrigo de Freitas. Dizem que aí começou sua fritura na Globo" (25)

É evidente que outros fatores, principalmente os de ordem ideológica, motivaram o rompimento entre os dois. Mas a passagem mencionada pode ter sido a "gota d’água".

Sobre a relação de Roberto Marinho com os políticos, merece especial atenção o envolvimento, em meados do século passado, do empresário com Carlos Lacerda. Quando Lacerda era deputado, Roberto Marinho costumava freqüentar a Câmara dos Deputados só para ouvi-lo. Além disso, firmaram uma sólida amizade de tez ideológica. A admiração era tanta que ele colocou à disposição os microfones da Rádio Globo para quando fosse necessário. Roberto Marinho, atrelado aos ideário udenista de Lacerda, passou a conspirar com os militares para derrubar o presidente João Goulart.

"Ia disfarçado a reuniões clandestinas, o que muito o divertia, e franqueou seus microfones, câmeras e colunas de jornal para a pregação golpista de Lacerda". (26)

Certa vez, numa ida de Lacerda ao jornal O Globo, ocorreu um episódio antológico. Conta-se que o político ficou preso no elevador e, sozinho, começou a gritar por ajuda. Entrou em pânico quando os funcionários não conseguiram retirá-lo. Foi preciso quebrar a parede para liberá-lo.

Nos idos da ditadura militar, os dois se afastaram por motivos ideológicos. Lacerda passou então a atacar Roberto Marinho com veemência, acusando-o de apoiar o regime de exceção.

"A história da fortuna do Sr. Roberto Marinho, afora uma qualidade que não lhe nego, a de trabalhar todos os dias no seu jornal — e esta é a sua grande qualidade — foi feita às custas de privilégios marginais, de favores obtidos pelo medo que O Globo inspirava ou pela ambição que O Globo alimenta e cativa (...) Marinho montou uma máquina que controla do modo a seguir exemplificado. Seu pai foi fundador de O Globo. Ao transformar o Globo em órgão de uma empresa jornalística, ele ficou com 62% das ações, deixando em minoria sua mãe, a veneranda viúva de Irineu Marinho e seus irmãos Rogério e Ricardo." (27)

Certo dia, sem contar nada a ninguém, Roberto Marinho, tomado pela ira, colocou um revólver na cintura e rumou para a casa de Lacerda, na Praia do Flamengo. Decidira matá-lo. Chegando ao local, cumprimentou os seguranças, entrou no elevador e bateu à porta do apartamento. A empregada abriu e convidou-o a entrar. Depois de vasculhar a casa, Roberto Marinho percebera que, felizmente, Lacerda não estava em casa.

Estes episódios servem para mostrar que o empresário, por vezes, prefere resolver as diferenças pessoalmente.

"Roberto Marinho invadiu a pontapés a redação de um jornal carioca à procura de Gondim Fonseca, que ousara escrever falando mal de seu pai, e este só se livrou da surra porque se escondeu no banheiro. De tal artifício não se pôde valer, no entanto, o engraçadinho que, no Jóquei Clube, se divertia assustando seu cavalo com assovios. Depois de adverti-lo inúmeras vezes, apeou e meteu-lhe o rebenque". (28)

Aliás, Roberto Marinho sempre foi um chefe disciplinador, onde procura manter tudo sobre sua estrita vigilância. No final dos anos 70, por exemplo, começou a perceber que as coisas não andavam bem na TV Globo. Descobriu que todo final de tarde o uísque rolava solto na sala de Walter Clark. Proibiu, então, o consumo de álcool nas dependências da emissora. Pensava que a ordem tinha sido acatada até que um dia topou com um garçom levando uma bandeja com xícaras de chá para a sala do diretor-geral. Desconfiado, pegou uma xícara e qual não foi a sua surpresa ao perceber que se tratava de puro malte escocês. Foi a queda de Walter Clark. O empresário, após demitir o diretor-geral, assumiu o cargo e passou a conduzir, pessoalmente, a TV Globo.

"Com a demissão do diretor-executivo, herdei o salário do Walter. Um dia o contador entrou na minha sala dizendo que eu precisava receber o dinheiro referente àquele cargo, senão iria dar problema na contabilidade. Para minha surpresa, era uma fortuna!". (29)

Perguntado sobre o montante de seus rendimentos na Globo, Walter Clark forneceu as cifras. Quando foi admitido, assinou um contrato que lhe assegurava 1% do faturamento da empresa por mês. Assim pôde manter um padrão de vida que lhe assegurava motorista, mordomo, governanta, arrumadeira, cozinheira, carros importados, viagens internacionais e mansões paradisíacas, como o duplex de cobertura que possuía junto à lagoa Rodrigo de Freitas. Com indenização por deixar a "Vênus Platinada", falou-se numa cifra equivalente ao prêmio máximo da Loteria Esportiva da época, ou seja, 30 milhões de cruzeiros.

Sobre o episódio da demissão de Walter Clark, cabem outros esclarecimentos. Duas semanas antes de ser defenestrado da Globo, a Imprensa havia noticiado um possível entrevero em um restaurante da moda envolvendo o chefe do Serviço Nacional de Informações e o diretor-geral da Rede Globo de Televisão. Outro incidente, desta vez de pior monta, ocorreu alguns dias depois, na mansão de Edgardo Erickssen — assessor da diretoria da Globo, relações públicas da empresa em Brasília e, ao que se diz, pessoa de fácil acesso aos meios militares. Durante o jantar de gala, Walter Clark foi questionado por Erickssen sobre o bate-boca com o chefe do SNI. Os ânimos se acirraram e quase houve confrontação física. Walter Clark abandonou o jantar e diante do constrangimento geral, o próprio Roberto Marinho, que também estava presente, tratou de pedir desculpas aos convidados. Na noite seguinte, Marinho convocou uma reunião com a finalidade de anunciar a José Bonifácio Sobrinho (superintendente de produção) e a Joseph Wallach (superintendente administrativo) a decisão definitiva de afastar Walter Clark.

Para entender como Walter Clark havia caído nas graças de Roberto Marinho, ao ponto de em apenas um ano garantir o cobiçado posto de diretor-geral da Rede Globo, convém recordar sua postura política.

"No meio dessa agitação toda, eu acabei virando udenista. Não sei bem por que eu fiz essa opção ideológica. Acho que era o clima do final da guerra, o espírito liberal impregnando tudo, a democracia sendo cantada (...). Getúlio era o ditador odiado pela classe média, e o brigadeiro Eduardo Gomes justamente o oposto: democrata, ótima reputação e, além do mais, um tremendo boa-pinta. O tipo de cara que poderia facilmente virar herói de um garoto. " (30)

Entretanto, ao chefe que não admitia faltas graves de seus funcionários, contrapõe-se a imagem de um homem preocupado em ajudar e proteger os amigos. Tanto é que — apesar de correligionário dos ideais udenistas — Roberto Marinho nunca se furtou de dar emprego a profissionais com verniz ideológica diferente da sua. Contratou Paulo Francis apesar das críticas que haviam sido feitas pelo Pasquim. Quando soube da morte de Francis, fez questão de comparecer ao enterro no Cemitério São João Batista. Na saída, porém, não poupou um comentário ácido:

"Que pena, era um rapaz ainda muito novo". (31)

Outro jornalista que gozou da benevolência do empresário foi Franklin de Oliveira. Na época do regime militar pediram a demissão de Franklin, acusando-o de comunista, mas ouviram uma negativa: "No meu jornal mando eu!".

Ainda sobre o temperamento de Roberto Marinho, alguns o têm por brincalhão. Tanto é que contam uma conhecida história, referente à tartaruga que quiseram lhe dar de presente. Ao receber o animal, o acaricia e pergunta quantos anos pode viver em média. Respondem-lhe: "Uns 200, Dr. Roberto". Ele então replica: "Não quero não. A gente se afeiçoa ao bichinho, e é uma tristeza quando ele morre".

Roberto Marinho, um hipocondríaco de carteirinha, costuma ir ao extremo em nome da saúde. Exercita-se diariamente numa esteira automática, faz natação três vezes por semana e dorme sempre com uma máscara para ativar a oxigenação do cérebro.

O empresário não costuma falar da concorrência. Quando perguntando sobre a crise do Jornal do Brasil, responde, de forma enigmática que, para o bem do próprio Globo, é importante que o rival prospere.

"A existência dele é boa para o Globo" (32)

O diretor-presidente do Jornal do Brasil, M.F. do Nascimento Brito e a mulher, Dona Leda, freqüentam a mansão do Cosme Velho de Roberto Marinho. Também não foram poucas as vezes que o dono das Organizações Globo ajudou, financeiramente, Adolfo Bloch a sair do "sufoco". Com o dono do Estado de São Paulo, já foi mais próximo. Com o da Folha, apesar da recente parceria, a relação é cerimoniosa.

"Nunca quis ficar sem concorrente mas ao mesmo tempo se empenhou em derrotar os adversários. Atribuo isso ao esportista que ele é. Ao fim de cada prova, estendeu a mão ao derrotado" (33)

Houve tempo em que conviveu mais com outro poderoso do país: o banqueiro Walther Moreira Sales. Chegaram até a morar no mesmo prédio — Hotel Copacabana Palace —, quando ambos, em 1994, estavam separados das esposas.

 

2.2) A história da Rede Globo de Televisão

Ele já era um empresário bem sucedido no ramo da comunicação quando decidiu comprar um canal de televisão. Apesar da discordância dos irmãos, levou o processo adiante.

"Vocês não entenderam. Vou entrar nessa sozinho".

(34)

A Globo estreou no dia 26 de abril de 1965. Na verdade, fora antecedida pela TV Tupi, em 1950, seguida pela TV Excelsior, em 1960. Duas emissoras e dois projetos absolutamente diversos: a Tupi sucumbiria, em 1980, à queda do próprio império dos Diários Associados. A Excelsior enfrentaria problemas no futuro, não tendo sua concessão renovada, por ter tido a ousadia de resistir à ditadura. Transferida, numa espécie de leilão, para o grupo Bloch e Sílvio Santos, abriria caminho para a TV Manchete e o SBT.

 

"A TV Globo era a emissora mais moderna e bem equipada do Rio, embora pequena em comparação com as concorrentes. Tinha um prédio especialmente construído para abrigá-la e um conjunto de câmeras e aparelhos de videoteipe que tiniam de novos. Mas os seus primeiros meses de operação não foram felizes. Ela gastou muito dinheiro e não faturou nada. Foi aí que entrou em cena o acordo com a Time-Life" (35)

Iniciando-se com um empréstimo obscuro mediante um ainda mais obscuro acordo operacional com o grupo norte-americano Time-Life — o que é proibido pela legislação brasileira — a TV Globo aproveitaria de dois episódios, na aparência negativos, para seu crescimento:

a) o primeiro foi justamente a decisão do Congresso Nacional em dissolver o acordo da Globo com a Time-Life. Roberto Marinho não reclamou. É provável que os norte-americanos, sim, tenham acabado lesados no episódio, mas como sabiam perfeitamente os riscos que corriam, não chiaram. Nesta história surge um inimigo no caminho de Marinho: o também jornalista e empresário, Assis Chateaubriand. Ao assistir ao surgimento do reinado de Roberto Marinho, convenceu o Congresso Nacional a abrir uma CPI para investigar o empréstimo obtido pelas Organizações Globo junto ao grupo americano Time-Life. Os ânimos se acirraram, porém, quando Chateaubriand partiu para o ataque pessoal:

 

"Roberto Marinho é um cafuzo, crioulo e mameluco (...) Gostaria de sugerir que fosse submetido a um processo sumário e enviado para a Ilha de Fernando de Noronha, onde ficam os presos políticos e corruptos de cabeça raspada"

(36)

Chateaubriand tratou logo de denunciar nos Diários Associados o acordo técnico-financeiro. Nos editoriais, Chateaubriand tratou de fazer carga contra Roberto Campos, a quem acusava, na embaixada do Brasil em Washington, fazer lobby a favor dos interesses da Globo.

"Passei a sofrer violentas diatribes de Chateaubriand, que erroneamente imaginava que eu tivesse ajudado a TV Globo a obter seu contrato técnico-financeiro com o grupo Time-Life. Na realidade, a TV Globo nem pedira nem recebera qualquer apoio da diplomacia brasileira" (37)

Marinho acabou tendo que depor na comissão parlamentar de inquérito que apurava o caso Time-Life. Um fato, porém, chama a atenção. Assis Chateaubriand, ao mesmo tempo que denunciava o acordo, enviou João Calmon aos Estados Unidos na tentativa de conseguir com o grupo americano um acordo semelhante ao que obtivera Roberto Marinho.

 

"O Time-Life, na verdade, tinha financiado a construção do prédio do Jardim Botânico e a compra de câmeras, videoteipes e equipamentos de estúdio. A Globo tinha um bom prédio mas não tinha tudo que precisava. Não tinha teatro, por exemplo, nem caminhão de externas. O Time-Life seguramente não jogava dinheiro pela janela (...). A TV Globo, portanto, não tinha dinheiro e precisava melhorar o faturamento. Foi por esta razão que Roberto Marinho concedeu carta branca a mim (...). Depois da CPI, os americanos ficaram totalmente arredios, indignados com o fato de o nome Time-Life ter virado sinônimo de negociata, suborno, sujeira. A associação com a Globo foi desfeita em 1969" (38)

Outro fato explicita o descumprimento da legislação brasileira: em agosto de 1965 chega ao Brasil o americano Joseph Wallach para trabalhar como assessor técnico. Ele já havia sido diretor de uma estação do grupo Time na Califórnia. Na realidade, tratava-se de um homem de confiança dos americanos para zelar pelos interesses do grupo. Tanto é que era ele quem cuidava da administração e direção das finanças da recém-fundada TV Globo. Ele decidia juntamente com Roberto Marinho os rumos da emissora. Embora isso não pudesse aparecer para a Justiça, pois significaria a ingerência de um grupo estrangeiro no setor de Comunicações do Brasil, há provas e depoimentos mostrando o contrário. A CPI instaurada conseguiu mostrar que ele tinha amplos poderes, trabalhando diariamente dentro da própria Globo. O Banco Central prova que Wallach era quem remetia os dólares do Time-Life para as empresas de Roberto Marinho. Entre julho de 1962 e maio de 1966 a TV Globo recebeu um total de US$ 6.090.730,53. O ingresso da vultosa quantia garantiu à emissora desbancar as concorrentes nacionais.

As vantagens da ordem de seis milhões de dólares fizeram a diferença. Para se ter idéia a melhor emissora do grupo Tupi tinha sido montada com trezentos mil dólares. As enchentes no Rio, em 1966, marcaram o momento decisivo da TV Globo, quando ela fez, graças aos equipamentos, a cobertura ao vivo dos acontecimentos, enquanto os outros canais simplesmente não puderam fazê-lo.

Concluídos os trabalhos da CPI, a Globo acabou condenada a romper o contrato com o grupo Time-Life mas, passado o "calor do escândalo", os ânimos amainaram. Wallach assumiu formalmente o cargo de Superintendente Administrativo. No papel não havia mas parceria com o grupo americano embora na prática a história fosse outra. Joseph Wallach permaneceu 14 anos na emissora, recebendo um milhão de dólares por ano.

 

b) Coincidência ou não, o outro episódio ocorreu em 1969: um incêndio destruiu as instalações da Globo em São Paulo. A emissora centralizou o telejornalismo e toda a produção no Rio de Janeiro, graças ao dinheiro obtido pelo seguro, e assim garantiu a ocupação da magnífica sede do Jardim Botânico. De onde se depreende que Roberto Marinho é, acima de tudo, um excelente empresário e se, num primeiro momento, teve o máximo empenho em dar suporte e manter-se próximo ao segmento que identificava o governo ditatorial, na verdade seu interesse ia bem mais longe:

 

"a Globo não tem uma vocação necessariamente militarista, ou ditatorial, mas ela tem uma vocação governista. Onde tem governo está a Rede Globo" (39)

Na época, o incêndio que destruiu as instalações da Globo foi atribuída a grupos de esquerda.

 

"E com o dinheiro do seguro – uma bolada de 7 milhões de dólares – pudemos comprar tudo o que precisávamos, do jeito que queríamos, novo em folha. Por isso tudo, tínhamos muito o que celebrar. Tanto que, num daqueles dias, o pessoal da Globo-São Paulo me ofereceu um almoço que acabou virando uma comemoração. Os caras entravam e viam aquela zona, todos nós rindo, brindando, achavam que éramos malucos. Tinham perdido a estação num incêndio e comemoravam! É que eles não sabiam o que o seguro ia fazer por nós. Começava ali, sobre as cinzas do antigo prédio das Organizações Victor Costa, a poderosa Rede Globo de Televisão." (40)

 

2.3) Roberto Marinho: o "Cidadão Kane" brasileiro

No dia 10 de março de 1993, em Londres, divulgou-se pela primeira vez no exterior, as imagens de um documentário intitulado Brasil: Beyond Citizen Kane. Poucos dias depois, o Museu da Imagem e do Som de São Paulo, graças a uma cópia pirata obtida diretamente em Londres por uma telespectadora, fazia uma dupla apresentação do documentário, programando-se novas projeções para os dias três e quatro de junho.

Contudo, na noite do dia 2, um telefonema do Secretário de Cultura do Estado de São Paulo, Ricardo Ohtake, dirigido ao programador do MIS, jornalista Geraldo Anhaia Mello, cancelava aquelas apresentações.

 

"As versões sobre a proibição variam: Ohtake garante que não havia por que proibir, a não ser pelo fato de se tratar de uma fita pirata. Anhaia, ao contrário, acusa diretamente a intervenção de Roberto Marinho, a subserviência do governador de São Paulo e do seu Secretário de Cultura. No exterior houve uma batalha jurídica de mais de um ano entre a Globo e o Canal 4 da BBC. As Organizações Globo perderam a causa" (41)

 

Beyond Citizen Kane tem sido normalmente divulgado como sendo o documentário em torno da TV Globo e de seu multipoderoso proprietário, Roberto Marinho.

"Na verdade, a primeira observação que se deve fazer a respeito é que sua atenção se encontra centrada em Marinho e na TV Globo apenas porque ela é a exemplificação mais cabal e radical da experiência da política de telecomunicações brasileira". (42)

 

"Marinho não é nem pior nem melhor que Wainer, Chateaubriand, Saad, Bloch ou qualquer outro. Foi, apenas, mais competente e eficiente, alcançando melhores resultados em suas manobras. O episódio que culmina no papel da Globo em nossa realidade, contudo, tem de ser compreendido em sua perspectiva macro, ou seja, enquanto superestrutura social, política e econômica que viabiliza tais situações, envolvendo desde a ingenuidade de alguns segmentos sindicais e de ativistas de esquerda, que imaginaram democratizar a política de concessões de canais de rádio e televisão quando retiraram a decisão exclusiva do Presidente da República, repartindo-a pelo Congresso Nacional, até os profissionais jornalistas que, a exemplo de Armando Nogueira ou Vianey Pinheiro, só contam as verdades depois que foram despedidos da emissora". (43)

 

Como salientamos, Roberto Marinho participa direta e/ou indiretamente da política. Não foi por acaso que escreveu editorial em O Globo intitulado "Convocação", onde pedia que o PMDB e o PFL escolhessem um candidato comum para concorrer às eleições presidenciais em 1989. Na verdade, tentava sensibilizar aqueles partidos para lançar um candidato de centro-direita com o objetivo de desbancar Leonel Brizola ou ainda Luís Inácio da Silva. No editorial, afirmava:

"(...) um candidato de renovação que não se enrede em manhas e combinações inaceitáveis. Um candidato que não fuja de temas controversos e não faça do subterfúgio a suprema sabedoria política. Um candidato, afinal, com uma abordagem moderna e otimista dos problemas brasileiros, que devolva à Nação o direito de sonhar com o futuro (...) para oferecer uma alternativa melhor do que um projeto caudilhesco-populista ou um meramente contestatório". (44)

 

Em nosso país, apenas uma rede de televisão, a TV Globo, domina a audiência e promove os candidatos de preferência das elites. O restabelecimento da democracia no Brasil na década de 80 se deu mais pela concessão do que pela conquista. Porém, o regime militar deixou aos seus herdeiros a incumbência do exercício do Poder. Quando os militares implantaram a vasta infra-estrutura de telecomunicações que possibilitaram a TV Globo consolidar seu império de mídia, o fizeram na certeza de que as elites se perpetuariam. Não é segredo que nas campanhas eleitorais, a mídia assume abertamente a candidatura do sistema.

O império da Globo inclui 50 estações de rádio, a NET de TV a cabo, o sistema Globosat, os jornais O Globo, Extra e Valor Econômico – este último em parceria com a Folha, revistas, a Editora Globo, alguns web sites e participações substanciais em bancos e indústrias, entre outras. Assim, Roberto Marinho pode participar diretamente na definição dos rumos do país.Com a hegemonia, não é de se estranhar que outras empresas de comunicação façam suas pautas de reportagem a partir do que foi veiculado pelas Organizações Globo em algum de seus inúmeros produtos. Com a possibilidade de ditar a agenda setting, isto é, os assuntos que serão cobertos, não é de se estranhar que a opinião pública não tenha acesso a determinado tipo de matérias e/ou enfoques.

"A TV Globo é também a maior produtora mundial privada de seus próprios programas, sendo por isso chamada pelos estudiosos de ‘monopólio cruzado’. Fatura anualmente U$ 2,5 bilhões. A TV Globo vai além da mera distorção consciente dos fatos – ela tenta instituir a história, determinar o destino da nação. Para isso, cria continuamente uma realidade imposta e, em várias ocasiões, assumiu a vanguarda da arte de falsear e até substituir a realidade." (45)

O empenho do Dr. Roberto Marinho em derrotar o candidato da Frente Brasil Popular à Presidência da República em 1989, Luís Inácio da Silva, foi explícito. Programas na TV Globo, editoriais, reportagens, entrevistas, enfim, tudo foi arranjado para que o candidato das elites, isto é, o Sr. Collor de Mello, dispusesse de tempo no noticiário. Com isto, foi possível construir sua imagem de homem público, caçador de marajás, destemido, jovem e preparado. Enquanto isto, Lula era achincalhado como operário de idéias retrógradas, semi-analfabeto e despreparado política e moralmente. Até um caso extraconjugal do petista ocorrido décadas atrás — o romance acabou rendendo uma bela menina chamada Lurian — foi explorado pelos adversários. Dois debates foram transmitidos para todo o país. Lula claramente venceu o primeiro. Três dias antes da votação houve um segundo debate. No dia seguinte o Jornal Nacional editou e transmitiu um resumo de seis minutos, que foi assistido por 64% da audiência. A edição foi especialmente montada para deter o petista Luís Inácio Lula da Silva e eleger Fernando Collor de Mello.
No resumo Collor foi mostrado como poderoso. Colocaram no ar as melhores falas, e também lhe deram um minuto e dez segundos a mais que Lula na edição.
Após a matéria, o "Jornal Nacional" apresentou os resultados de uma enquete sobre o debate, realizada pelo mesmo instituto de pesquisa responsável pela imagem de Collor. As perguntas eram vagas. Fernando Collor venceu Luís Inácio Lula da Silva em todos os quesitos. Não foi perguntado, porém, em quem as pessoas entrevistadas votariam.
O apresentador Alexandre Garcia termina o JN dizendo: "... mantivemos um canal aberto entre a TV e seus eleitores, para que melhor se exerça a democracia..."

O Produtor de Jornalismo da TV Globo de São Paulo, Vianey Pinheiro, foi demitido após protestar publicamente sobre o resumo do JN:

"O cerne da questão é o seguinte: entre a edição do Jornal Hoje, da hora do almoço, e a edição do Jornal Nacional, o resumo do debate foi alterado pelo Alberico Souza Cruz e pelo Ronald de Carvalho. Não houve aqueles critérios básicos que nortearam a edição da manhã: tempo igual para ambos os candidatos: a questão da pergunta da réplica e da tréplica. Ficou uma coisa totalmente desbalanceada, o que eu chamo de peça publicitária e não um resumo do debate." (46)

Em 1994, foi a vez de Fernando Henrique Cardoso aparecer como o candidato ideal para, mais uma vez, derrotar as forças progressistas:

"Em 1994, além dos óbvios interesses de classe, a Globo tinha seus próprios temores, pois parte de seu império de concessões de rádio e TV, e seus projetos de TV a cabo, não tinham base legal sólida e muitas concessões caducariam nos anos próximos. A legislação brasileira, mesmo incompleta, não permite tal concentração de canais numa só empresa." (47)

Vale salientar que o mesmo discurso discriminatório foi usado novamente contra Lula em 1994. Numa tentativa de esvaziar o debate, a esposa de Fernando Henrique Cardoso, Ruth Escobar, disse: "Nesta eleição há duas opções, a escolha é entre um encanador e um Jean-Paul Sartre". A mídia como um todo funcionou como uma caixa de ressonância das elites a fim de que fosse veiculado que Lula acabaria com o Real, a inflação voltaria e o país se veria em um caos sem precedentes. A retórica usada pela Globo foi a de que Lula não estava preparado para governar, o que encontrou eco na parcela da população de baixa renda já acostumada com sua baixa auto-estima. O preconceito foi uma das armas utilizadas.

2.4) O alcance e o poder da Globo

São seis estações retransmissoras afiliadas, cobrindo 99,2% do território brasileiro ou 99,9% dos aparelhos de televisão do país, garantindo uma fatia de 78% da audiência, abocanhando 70 a 75% do total da mídia nacional que, no Brasil, na área de televisão, ultrapassa os 50%.

"O slogan "Globo e você, tudo a ver" como que institucionaliza a common view, um modo comum de visualizar a realidade, de tal forma que a audiência alcançada, e amplamente divulgada, como que tautologicamente se mescla com o conceito de credibilidade: é como se pudesse garantir que a Globo tem audiência porque tem credibilidade. Assim, mais do que um quarto poder, a Globo se torna um Poder Oculto Supra-Real que substitui outras instâncias das relações sociais, mediante a constante re-elaboração daquilo que Muniz Sodré já denominou de "simulacro", uma super realidade que distancia de tal forma a realidade original, que simplesmente a retira de qualquer outra referencialidade: ainda que alguém estivesse vendo um certo fato acontecer, só acreditaria nele à medida em que isso fosse enfocado pelas imagens da televisão".(48)


A Globo é a quarta maior rede de televisão do mundo. Perde apenas para a ABC, NBC e CBS. O início, porém, foi árduo. Não havia infra-estrutura suficiente e o capital era parco. Roberto Marinho reunia-se na sede da Globo com os diretores mas não opinava sobre programação, o conteúdo ou formato do que era levado ao ar. Isto cabia a Walter Clark e seu subordinado, Armando Nogueira. Com o tempo, o próprio Roberto Marinho passou a acumular cargos e ditar tarefas. Não é sem razão que se costuma dizer que foi uma das poucas a começar com uma cúpula profissional e se transformar em uma empresa de cunho familiar.

"Uma data serviu de marco para a regressão: 26 de maio de 1977, o dia em que Roberto Marinho demitiu Walter Clark e redividiu o poder interno. Wallach continuou cuidando da administração. José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, Boni, que havia anos tocava de fato a rede, tornou-se oficialmente o responsável pela operação da Globo. Roberto Marinho encarregou-se de supervisionar o Jornalismo. Mais: passou a almoçar diariamente e a trabalhar à tarde na emissora, na sala com melhor vista do prédio: de frente para as águas da lagoa Rodrigo de Freitas, as palmeiras-imperiais do Jardim Botânico, o mar de Ipanema. Em 1983, o primogênito, Roberto Irineu, chegou à Rede Globo e seu pai lhe deu um cargo acima do de Boni. Em 1987, os filhos de Roberto Marinho também davam ordens no Jornalismo. A Rede Globo virara uma empresa familiar." (49)

O Diretor da Divisão de Análise e Pesquisa da emissora, o panamenho Homero Icaza Sánchez, conhecido como El Brujo, traçou em meados da década de 70 o perfil do telespectador brasileiro: era mulher, casada, com mais de trinta anos, tinha filhos e trabalhava em casa. A partir do público alvo traçou-se a programação, baseada principalmente em novelas. A última novela do dia, por volta das 21h, trazia situações mais picantes e algumas cenas de nudez. O Jornal Nacional ficava estrategicamente postado entre as novelas, com o objetivo de atrair também a audiência masculina. Os editores recebiam a orientação de dar mais ênfase na forma do que no conteúdo. Daí um noticiário superficial, com frases telegráficas e vocabulário pobre.

Autor dos livros "Afundação Roberto Marinho I" e "Afundação Roberto Marinho II", publicados pela editora Tchê, Romero da Costa Machado trabalhou como auditor fiscal na Rede Globo e como controller na Fundação Roberto Marinho, chegando a ser assessor especial de José Bonifácio, o Boni. Em suas obras ele revela as ligações da Globo com o jogo do bicho, o escândalo de 100 milhões de reais do PAPA TUDO, denuncia o uso de drogas entre o alto escalão da emissora, e as transações em dólares não registradas. Perguntado sobre os motivos que o levaram a pedir demissão da Fundação Roberto Marinho, declarou:

"Saí porque sou um profissional, não tenho que me envolver direta ou indiretamente com o submundo do crime. Era impossível, depois de sair da fundação, por discordar das sujeiras e falcatruas, voltar para a TV Globo, ser assessor do Boni e ter que conviver com a escória da sociedade, como os bandidos amigos do Boni e de parte da cúpula da Globo. Esse foi o real motivo da minha saída e que viria a ser - a longo prazo - o motivo que iria enfraquecer o Boni e fazer com que a família Marinho se livrasse dele anos depois"
(50)

Na entrevista exclusiva publicada no site antiglobo.cjb.net, Romero explica como a emissora burla o Ministério da Fazenda, remunerando os funcionários com salários elevados na forma de pessoa jurídica.

"A Globo estimula que as pessoas que recebem altos salários tenham firmas (pessoas jurídicas) e recebam seus vencimentos por estas firmas. ou seja, a Globo paga mais às pessoas (através de suas firmas) pois não existe a pesada carga tributária dos salários e elas pagam menos imposto de renda através dessas empresas e deduzem quase todos os gastos como despesas, coisa que na pessoa física não podem deduzir. Se for considerado que os encargos de uma folha de pagamento podem girar em torno de 80% (oitenta por cento), este valor vai direto para o bolso do funcionário que recebe por PJ (pessoa jurídica) através de nota fiscal, ao invés de salário em carteira". (51)


Sobre o golpe do título de capitalização intitulado "PapaTudo", Romero explica que artistas da Globo, como Xuxa Meneghel por exemplo, emprestaram seus nomes e imagens em um negócio onde as Organizações firmaram um contrato para garantir exclusividade no empreendimento.

"Depois do golpe instalado, o povo ficou com o mico na mão. Não conseguia mais receber o que havia investido e jogaram a culpa na SUSEP (Superintendência de Seguros Privados) por fazer vista grossa e permitir as falcatruas. Hoje, os lotéricos que bancaram a compra do PapaTudo morreram com mais de 100 milhões de dólares em trambiques na mão, não resgatado. A população ficou com um mico ainda maior... foram cerca de 200 milhões de dólares pelo Brasil a fora. São milhões de pessoas que ficaram com trambique de 2, 3, 10 reais e que não entram na justiça porque o valor a reclamar é muito pequeno individualmente".
(52)

Outro fato que merece registro se refere a construção do Projac. Com 1.300.00 m², o "Projac", em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, é o maior centro de produção da América Latina e foi projetado para abrigar superestúdios, módulos de produção e galpões de acervo. Ao todo são quatro estúdios, de 1000m² cada, fábrica de cenários, figurinos, cidades cenográficas, centro de pós-produção e administração. O que não é dito à população é que o Projac foi construído em uma área reservada pelo governo do Rio de Janeiro para a construção de casas populares. Roberto Marinho humildemente solicitou à prefeitura uma autorização para construir sua "casinha" popular. Com a autorização em mãos, Roberto Marinho indevidamente começou a construção do Projac utilizando recursos levantados em empréstimos com a Caixa Econômica Federal para pagamento em dez anos. Podemos especular que a quitação do débito foi pago com propaganda da CEF na Rede Globo. Uma ação popular exigindo a devolução desse dinheiro foi impetrada na justiça pois a Caixa Econômica é acusada de ter feito uma operação fora da rotina, com juros abaixo do mercado. O valor desse empréstimo atualizado com juros e correção monetária chega hoje a 37 milhões de dólares.

2.5) Roberto Marinho e a conjuntura histórica brasileira

Para se entender o pensamento político-ideológico de Roberto Marinho, é necessário traçar uma breve análise histórica do cenário brasileiro. Nosso corpus percorre as décadas de 40, 50 e 60.

Em 1944 começa a ser articulada por setores liberais a futura União Democrática Nacional (UDN). Com a deposição de Getúlio Vargas em 29 de outubro de 1945, restabelece-se a ordem democrática. Uma nova constituição é aprovada e eleições são convocadas. Logo após o golpe militar o governo esteve interinamente nas mãos do presidente do Supremo Tribunal Federal, José Linhares. Realizadas em dezembro, as eleições apontaram o ex-ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra, do PSD-PTB, vitorioso. Este resultado trouxe duas surpresas: a primeira foi a derrota da UDN, grande força aglutinadora do golpe que depôs Vargas e a segunda, a vitória do candidato apoiado por Getúlio e pelo trabalhismo.

O governo Dutra apoiou-se na maioria pedessista e trabalhista do Congresso Nacional. Esse núcleo político de "centro" era justificado como defesa do governo contra os excessos dos liberais da UDN e a "ameaça vermelha" do PCB. A política econômica, com a liberalização das importações e do câmbio, fez esgotar rapidamente as reservas brasileiras. Os reflexos internos foram a alta de preços e a queda do valor real dos salários. Da tentativa de reverter o quadro, nasceu o plano SALTE (Saúde, Alimentação, Transporte e Energia).

Com o recrudescimento das greves e movimentos trabalhistas, o Tribunal Superior Eleitoral cassa, em maio de 1947, o registro do PCB e extingue o mandato de seus parlamentares. Esse distanciamento do governo Dutra em relação ao espírito liberal da Constituição de 1946 não se deve apenas pelas dificuldades econômicas. Revelam, na realidade, o quadro da guerra-fria. Não custa lembrar que em 1947 o Brasil assina o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) e, em 1948, integra-se à Organização dos Estados Americanos (OEA). Note-se, portanto, que num curto hiato de tempo o país passa de uma posição inicial liberal-democrática para uma liberal-conservadora no contexto da guerra-fria. Tal posicionamento, contudo, seria novamente alterado com o retorno de Vargas à cena política.

Em 1950, lançado pelo PTB e apoiado pelo PSP, PSD E PCB, Getúlio Vargas vence as eleições presidenciais. Entre as principais plataformas de governo estavam a criação do monopólio estatal da exploração e refino do petróleo, através da Petrobrás; proposta para criação da Eletrobrás; inauguração da Hidrelétrica do São Francisco; criação da CAPES (Campanha Nacional de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior – dirigida por Anísio Teixeira; estímulo à sindicalização e livre organização sindical; elaboração do Ministério da Saúde e reajuste do salário mínimo em 100%, em 1954.

Entretanto, já no começo de 1954, radicaliza-se a campanha antigetulista. Políticos da UDN, empresários — como Roberto Marinho —, e militares, todos conservadores, antinacionalistas e anticomunistas, defendem uma aliança total com os Estados Unidos. Acusam Vargas de preparar uma "República Sindicalista" para se manter no poder. A 5 de agosto, o atentado contra Carlos Lacerda – ligado à UDN, produz a radicalização final. Getúlio, acusado de tramar a morte de Lacerda, é pressionado a renunciar. Impotente diante da pressão, Getúlio se suicida na manhã de 24 de agosto. Assume então o vice-presidente, João Café Filho. Pouco tempo depois é substituído pelo presidente da Câmara dos Deputados, Carlos Luz. Este, destituído pelo Congresso Nacional, dá lugar ao vice-presidente do Senado, Nereu Ramos, que governa até a posse de Juscelino Kubitschek.

Em julho de 1955, temos a elaboração da Carta Brandi. Este documento idealizado pela UDN, e divulgado por Carlos Lacerda, continha acusações contra João Goulart, com vistas a impedir que seu nome figurasse na chapa como vice de JK. Entretanto, Juscelino Kubitschek é eleito pelo PSD-PTB. Mais uma vez o candidato da UDN, desta vez Juarez Távora, é derrotado pelo voto popular.

Para a sucessão de JK, a tradicional aliança PSD-PTB lançou a candidatura do general Henrique Teixeira Lott. A UDN saiu com o ex-governador paulista Jânio Quadros. Eleito com quase 50% do total, Jânio surge como uma espécie de unanimidade nacional, firmando uma imagem popular na repulsa aos partidos e aos políticos, aos burocratas e à corrupção, que ele varreria do país com sua "vassoura" moral. Apesar de tudo, o mandato durou apenas sete meses. Até o próprio partido de Jânio, a UDN, desconfiava das atitudes do presidente.

"No meio das incertezas, uma coisa é certa: os conservadores de todas as camadas sociais sentiram-se aliviados por se verem livres de um presidente ‘incontrolável’ que tinham ajudado a eleger" (53)

Para tomar posse na presidência, o vice-presidente João Goulart aceitou a implantação do parlamentarismo, através de Ato Adicional à Constituição de 1946. Foi a solução que conciliou a defesa da sucessão dentro da legalidade e as pressões da UDN que acenavam até com a possibilidade de golpe de Estado. Em 1963, através de uma política de articulação, Jango consegue apoio para recuperar os poderes presidencialistas. O programa de reformas de base de Jango põe a burguesia nacional e estrangeira em polvorosa. Amedrontam-se com a radicalização do movimento popular. Passam, então, a conspirar abertamente para a derrubada do novo governo. Um golpe militar depõe, em março de 1964, o governo Jango. No primeiro governo militar, do general Castelo Branco, estão juntos antigos liberais da UDN e do PSD, além de ideólogos conservadores, ligados à Escola Superior de Guerra. As Organizações Globo ajudaram a solidificar o regime militar através de matérias e editoriais que enalteciam as conquistas da ditadura, embora deixasse de veicular notícias que poderiam comprometer o sistema que ajudara a empossar. As funções de vigilância ideológica são centralizadas no recém-criado Serviço Nacional de Informações (SNI).

 

  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em 1988, a Central de Jornalismo da Rede Globo, comandada por Armando Nogueira, contava com um orçamento de mais de 40 milhões de dólares. Esta cifra astronômica ilustra o salto quantitativo e qualitativo da emissora desde a sua fundação, em 1965. O carro-chefe da Globo, o Jornal Nacional, tinha um público cativo de mais de 60 milhões de pessoas e era o programa de maior audiência da televisão brasileira.

Ao acompanhar a história política do país evidencia-se que as Organizações Globo, na figura de Roberto Marinho, tiveram uma relação estreita com o regime militar. Em 1972, o presidente Médici ao ser entrevistado deixou escapar o nome de sua emissora favorita: "Sinto-me feliz todas as noites quando assisto TV porque no noticiário da Globo o mundo está um caos, mas o Brasil está em paz... É como tomar um calmante após um dia de trabalho..."

Muitas foram as estratégias editoriais do grupo Globo, sob a batuta do Dr. Roberto Marinho, no apoio a ditadura . Em alguns momentos, por exemplo, optava por fazer vistas grossas, ou seja, simplesmente deixava de noticiar fatos considerados delicados:

"(...) o Jornal Nacional noticiava um imenso congestionamento na Zona Sul carioca mas ocultava que fora provocado por uma passeata de estudantes contra a ditadura. Não se podia dizer mais: ‘A censura não deixou’." (54)

Outros acontecimentos marcantes ocorreriam, fazendo transparecer ainda mais o grau de comprometimento e manipulação. Em 1982 — na cobertura daquela que era a primeira escolha direta para governador depois dos anos de chumbo da ditadura militar — a Globo se complicou. Procurou intervir para que seu candidato obtivesse sucesso no pleito, embora a vontade popular apontasse para uma vitória das forças de esquerda. Para tanto, as Organizações decidiram usar apenas os números totalizados da Proconsult — empresa contratada pelo Tribunal Regional Eleitoral. Fechadas as urnas, a Globo divulgou os números da Proconsult, segundo os quais o candidato do PDS, Wellington Moreira Franco, estava vencendo o PDT de Leonel Brizola. Ao ouvir os números e temendo fraude no resultado, Brizola se fez valer das pesquisas de boca de urna do IBOPE e do Jornal do Brasil para convocar em caráter de urgência uma coletiva. Nela, acusou a Proconsult de estar mancomunada com a Rede Globo para alterar a vontade do povo. A Globo não se abalou e continuou firme. Até que horas depois uma caminhonete da emissora foi apedrejada e começaram a chover telefonemas.

"A média era de trezentos telefonemas diários, a maioria elogiosos. Em apenas um dia a emissora recebeu 3800 ligações de protesto. A saída foi oferecer uma entrevista a Brizola. O candidato mandou avisar que só iria se a entrevista fosse ao vivo (para evitar cortes na edição) e durasse no mínimo quinze minutos. (...) A entrevista durou mais de meia hora e desde o primeiro instante Brizola insinuou que a Globo, seus donos e responsáveis participavam de uma conspiração para roubar-lhe a eleição. Disse isso em horário nobre. Armando Nogueira, que estava no quartel-general da Globo em São Paulo, viu-se obrigado a entrar no ar para se dizer ofendido e contestar Brizola. O governador ironizou Nogueira e renovou as insinuações. As eleições de 1982 abalaram seriamente a credibilidade do jornalismo da Globo". (55)

A credibilidade da emissora ficou arranhada. A argumentação de que foi induzida ao erro pelos números da Proconsult se constituíram em um frágil argumento. Isto porque o público espera da Imprensa rigor no quesito apuração. Se não agiu de má fé, foi no mínimo incompetente. Entretanto, tampouco esta saída se manteve. Descobriu-se, tempos depois, que a Globo realmente empenhara-se em fraudar as eleições. O diálogo transcrito a seguir mostra a intervenção de Roberto Marinho para assegurar uma vitória do candidato da direita na disputa do governo do estado do Rio de Janeiro. Luís Carlos Cabral, na época responsável pelo jornalismo local da TV Globo, teve o desprazer de uma "conversa" com o Dr. Roberto Marinho.

"— Você me desobedeceu! (aos berros)

Outro situação constrangedora aconteceria dois anos depois, quando o povo saia às ruas clamando por Diretas Já. Desde o final de 1983, explodiam manifestações e passeatas pela redemocratização do país. Como coloca Mário Sérgio Conti, "quanto mais gente juntavam, maior o impacto da ausência delas no Jornal Nacional". Entretanto, outras emissoras como a Bandeirantes e a Manchete noticiavam o acontecimento e eram, inclusive, alvo de simpatia popular. Nessa época começaram a pipocar slogans e palavras de ordem contra a Globo: "O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo!". Na contramão da história — de um lado o povo clamava pela democratização e de outro a Globo pelo autoritarismo — viu-se obrigada a veicular os comícios.

"Roberto Marinho permitiu, à contragosto, a cobertura. Fosse da maneira mais discreta possível, fosse do jeito que fosse, a campanha tinha que aparecer. Em 25 de janeiro de 1984, o patrão estava irredutível. Para aquele dia, aniversário da cidade de São Paulo, fora marcado um ato público na praça da Sé. Centenas de milhares de pessoas compareceram. Boni imaginou uma maneira de mencioná-la, ao mesmo tempo que cumpria a ordem de não noticiá-la. Armando Nogueira determinou que uma repórter falasse em vinte segundos que ali estava sendo comemorado com um show o aniversário de São Paulo. Não deu certo: além de omitir, a Globo passou a ser acusada de distorcer a verdade". (57)

 

Na cobertura do comício realizado na Candelária, no Rio de Janeiro, a edição não coube aos profissionais. Foi o filho mais velho do jornalista, Roberto Irineu Marinho, quem ficou responsável pelos cortes. De sua sala, especialmente adaptada, ele decidia o que mostrar ao público. Ele e o pai temiam que durante a cobertura se fizesse ver ou ouvir algo que pudesse desagradar o governo militar. Um milhão de pessoas compareceu e o evento foi mostrado, apesar dos cortes, ao vivo pelo Jornal Nacional.

Neste breve trabalho, procuramos mostrar como a ideologia dos donos das empresas jornalísticas pode comprometer a credibilidade do acontecimento, transmitido à população fatos de acordo com a angulação mais conveniente. O que caracteriza uma empresa jornalística, como salientou Bernardo Kucinski, é a defesa de interesses:

 

"A mera produção e venda de notícias e, menos ainda, de produtos culturais, como fascículos, não caracteriza uma empresa jornalística; ela alcança este status ao tentar disseminar uma ideologia e defender interesses de classe, para o que constitui um espaço público independente do Estado" (58)

O importante é deixar claro para o público que jamais teremos a notícia de um fato tal qual ele ocorreu. Teremos sempre versões deste fato. A práxis do repórter, a cultura e os valores recebidos, assim como a pauta em acordo com a linha editorial do veículo para o qual trabalha, por exemplo, já contribuem para que tenhamos uma notícia "comprometida". É falacioso, portanto, clamar por neutralidade jornalística. É condição sine qua non lutar pela democratização dos meios de comunicação.

É preciso fugir do discurso manipulatório da "imprensa livre", onde os "fatos falam por si mesmos". Ao fazer uso desta fala, os homens que detêm os meios de produção na empresas jornalísticas procuram escamotear a função de controle social exercido por seus veículos. Várias técnicas são utilizadas. Uma das mais recorrentes é empenhar-se por valorizar o chamado jornalismo informativo, onde não se faz mais uma observação criteriosa dos fatos:

"O jornalismo, em geral, tornou-se o lugar onde você pergunta não pela natureza dos fatos, mas em que você é informado da melhor localização, no verão, para assistir partidas de futebol no Pacaembu, tipo ‘saiba que’ ou ‘saiba como’ (...) Com isso, pela técnica se destrói a aura do jornalismo como fonte de formação do cidadão, porque já não informa: a descartabilidade da obra de arte do jornalismo reduz a informação a uma mercadoria, cujo destino é o mesmo dos restos do fast-food, isto é, a lata do lixo" (59)

Para que pudéssemos analisar a manipulação da opinião pública pelas Organizações Globo foi necessário aceitar que não poderíamos compreender a questão analisando apenas os canais, o discurso ou a história de vida. Mas como tudo isso se articulou à luz da conjuntura histórica e cultural de nosso país. Assim, a possibilidade de entender a atração exercida pela Rede Globo de Televisão, por exemplo, está muito menos em estudar sua produção.

"Se a televisão atrai, isso é em boa parte porque a rua expulsa. E a ausência de espaços para comunicação – ruas e praças – faz com que a televisão seja um local de encontro". (60)

Os mass media substituíram as ágoras. No Brasil, cabe a televisão definir o espaço coletivo para o debate. Devido ao alto grau de alfabetismo e ao baixo poder aquisitivo da maioria da população, a percepção popular de mundo vêm através da mídia eletrônica. Hegemônica na formatação do espaço público e dominada pelas Organizações Globo, a televisão adota uma prática hedionda. A reflexão, o debate e a ação, a partir do que foi veiculado, são substituídos e ordenados numa lógica virtual. Nesta operação catártica, não precisamos ser agentes, mas meros observadores. Oportuno lembrar mensagem publicitária veiculada pela Globo ao longo do ano 2001, quando afirmava: "Participe de um movimento social, veja novela!"

O povo como "massa de manobra" é cultivado de uma forma sutil, insidiosa, desde os idos da Doutrina de Segurança Nacional. As elites perceberam que é mais eficaz desmobilizar o povo, retirar dele a capacidade crítica e a ação, ao contrário do fascismo, por exemplo, que mobilizou as massas.

Outra constatação: na sociedade de informação temos a supervalorização da informação. Entretanto, apenas em bases quantitativas. Como disse Baudrillard, "quanto maior a quantidade de informação, menos sentido". Cada dia estamos informados sobre mais coisas, porém cada dia menos sabemos o que significam.

Se de um lado a informação a que temos acesso nos leva a ilusória sensação de que estamos participando como protagonistas da história, por outro as novas tecnologias não têm feito nada para impedir a concentração do poder e do capital.

 

  1. NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
  1. NORA, PIERRE. O retorno do fato. In: LE GOFF, Jacques. História: novos problemas. Pg. 181.
  2. Idem. Pg. 182.
  3. Idem. Pg. 185.
  4. RABAÇA, Carlos Alberto e BARBOSA, Gustavo. Dicionário de Comunicação. Pg. 120.
  5. NORA, PIERRE. O retorno do fato In: História: novos problemas. Pg. 188.
  6. GABLER, Neal. O entretenimento humano. In: Vida - O filme. Como o entretenimento conquistou a realidade. Pg. 139.
  7. HERZ, Daniel. A História Secreta da Rede Globo. Pg. 25.
  8. Idem.
  9. CONTI, Mário Sérgio. Notícias do Planalto. Pg. 163.
  10. Revista Isto é, edição 1561. Pg.. 7.
  11. Idem.
  12. PEREIRA, José Mário. Um homem chamado sucesso. In: Revista Five – Mercedes Benz, maio de 2000. Pg. 2.
  13. www.vitorsznejder.com.br. Entrevista concedida em 02/03/2000.
  14. Idem.
  15. Idem.
  16. CONTI, Mário Sérgio. Notícias do Planalto. Pg. 161
  17. PEREIRA, José Mário. Um homem chamado sucesso. In: Revista Five – Mercedes Benz, maio de 2000. Pg 4.
  18. CONTI, Mário Sérgio. Notícias do Planalto. Pg. 116.
  19. PEREIRA, José Mário. Um homem chamado sucesso. In: Revista Five – Mercedes Benz, maio de 2000. Pg 4.
  20. CONTI, Mário Sérgio. Notícias do Planalto. Pg. 120.
  21. PEREIRA, José Mário. Um homem chamado sucesso IN Revista Five – Mercedes Benz, maio de 2000. Pg 3.
  22. Idem.
  23. Idem. Pg. 4.
  24. Idem. Pg. 1.
  25. Idem.
  26. CLARK, Walter . O Campeão de Audiência. Pg. 159.
  27. HERZ, Daniel. A História Secreta da Rede Globo. Pg. 96.
  28. PEREIRA, José Mário. Um homem chamado sucesso. In: Revista Five – Mercedes Benz, maio de 2000. Pg 7.
  29. Idem. Pg. 8.
  30. CLARK, Walter. O Campeão de Audiência,.Pg. 23.
  31. PEREIRA, José Mário. Um homem chamado sucesso. In: Revista Five – Mercedes Benz, maio de 2000. Pg. 9.
  32. Idem. Pg. 11.
  33. Revista Isto é, edição 1561. Pg. 8.
  34. Revista Isto é, edição 1561, Pg. 7.
  35. CLARK, Walter. O Campeão de Audiência. Pg. 158.
  36. Revista Isto é, edição 1561. Pg. 7.
  37. CAMPOS, Roberto. A lanterna na popa. Pg. 98.
  38. CLARK, Walter. O Campeão de Audiência. Pg. 168.
  39. Idem. Pg. 206.
  40. Idem. Pg.210.
  41. HOHLFELDT, Antônio. Muito além da Tevê Globo. In: http://ultra.pucrs.br/famecos/rf5hohlf.html
  42. Idem.
  43. Idem.
  44. CONTI, Mário Sérgio. Notícias do Planalto. Pg. 154.
  45. HERZ, Daniel. A História Secreta da Rede Globo. Pg. 30.
  46. www.antiglobo.cjb.net
  47. KUCINSKI, Bernardo. A síndrome da antena parabólica. Pg. 30.
  48. MELLO, Geraldo Anhaia. Muito além do cidadão Kane. Pg. 73.
  49. CONTI, Mário Sérgio. Notícias do Planalto. Pg. 32.
  50. www.antiglobo.cjb.net.
  51. Idem.
  52. Idem.
  53. TEIXEIRA, Francisco M.P. História do Brasil Contemporâneo. Pg. 109.
  54. CONTI, Mário Sérgio. Notícias do Planalto. Pg. 34.
  55. Idem. Pg. 36.
  56. HERZ, Daniel. A História Secreta da Rede Globo. Pg. 13.
  57. Idem. Pg. 38.
  58. KUCINSKI, Bernardo. Jornalistas e Revolucionários. Nos tempos da Imprensa Alternativa. Pg. XXXIII.
  59. KUCINSKI, Bernardo. A síndrome da Antena Parabólica. Pg. 9.
  60. MARTÍN-BARBERO, Jesús. Comunicação e Cidade: entre meios e medos. In: Novos Olhares. ECA/USP. Pg. 5.

5) HEMEROGRAFIA

Revista Five Mercedes Benz. Maio de 2000.

Revista Isto É. 8 de junho de 1997.

Revista Novos Olhares – ECA/USP. Número 1, 1º semestre de 1998.

6) SITES

http://ultra.pucrs.br/famecos/rf5hohlf.html

www.antiglobo.cjb.net

www.vitorsznejder.com.br.

7) BIBLIOGRAFIA

 

  1. BARBOSA, Gabriel Collares. O desvio como espetáculo na Imprensa. Rio de Janeiro: ECO/UFRJ, 1998. Dissertação de Mestrado em Comunicação e Cultura. Orientadora: Profª Drª Ester Kosovski.
  2. CAMPOS, Roberto. A lanterna na popa. São Paulo: ed. Topbooks, 1994.
  3. CLARK, Walter. O campeão de audiência: uma autobiografia. São Paulo: Editora Best Seller, 1991.
  4. CONTI, Mário Sérgio. Notícias do Planalto. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
  5. GABLER, Neal. O entretenimento humano. In: Vida - O filme. Como o entretenimento conquistou a realidade. São Paulo: editora Companhia das Letras, 1999.
  6. HERZ, Daniel. A história secreta da Rede Globo. Porto Alegre: editora Tchê, 1987.
  7. JORGE, F. Cale a boca, jornalista: o ódio e a fúria dos mandões contra a imprensa brasileira. Petrópolis: Vozes, 1987.
  8. KUCINSKI, Bernardo. A síndrome da Antena Parabólica – ética no jornalismo brasileiro. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 1998.
  9. ________. Jornalistas e Revolucionários: nos tempos da imprensa alternativa. São Paulo: editora Página Aberta LTDA, 1ª edição, 1991.
  10. LE GOFF, Jacques. História: novos problemas. Rio de Janeiro: editora Francisco Alves.
  11. MACHADO, Romero da Costa. Afundação Roberto Marinho I. Porto Alegre: editora Tchê.
  12. MELLO, Geraldo Anhaia. Muito além do cidadão Kane. São Paulo: Scritta Editorial, 1994.
  13. RABAÇA, Carlos Alberto e BARBOSA, Gustavo. Dicionário de Comunicação. Rio de Janeiro: editora Codecri, 1978.
  14. SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Graal, 1977.
  15. TEIXEIRA, Francisco M.P. História do Brasil Contemporâneo. São Paulo: editora Ática.

8) ANEXOS

Sinopse cronológica elaborada pelo Prof. Dr. José Amaral Argolo sobre a conjuntura político-histórica brasileira a partir da década de 30

1930

Getúlio e a Revolução. Características: autoritarismo instrumental, caudilhista e regime forte.

1932

Momentos marcantes: Revolta Constitucionalista de São Paulo; convocação de eleições gerais para 1933; industrialização e instrumentalização – até então importação de tecnologias alienígenas (vide "A Noite", de Irineu Marinho, de inspiração estrangeira.

1934

Promulgada a Nova Constituição; Getúlio eleito pela Assembléia como presidente da República (quatro anos)

1935

Intentona Comunista; Decretada a Lei de Segurança Nacional

1937

Estado Novo e o Integralismo

1939

Início da 2ª Guerra Mundial; criação do DIP

1945

Crise política brasileira. Marco da produção industrial com a CSN (produtos essenciais como aço, tubos, arames etc). Getúlio é defenestrado. Posse do General Eurico Gaspar Dutra. A mídia, atrelada a Vargas, passa a ter vida própria e reverberar o que passa no exterior. Nova fase da democracia. Guerra Fria.

1950

Getúlio Vargas é reconduzido ao poder. Caráter dúbio da Imprensa passa a mitificar a figura do "pai da pátria", eleito pela vontade popular.

Brasil: 51 722 000 habitantes

1954

Atentado contra Carlos Lacerda; morre o major Rubens Vaz. Generais pedem a renúncia de Getúlio. Suicídio de Getúlio Vargas. Posses de Café Filho e Carlos Luz.

1955

Lacerda e a "Carta Brandi" contra João Goulart. JK é eleito (putsch de Lott)

1960

Inauguração de Brasília; descontentamento militar começa a se fazer latente – lembranças de Aragarças e Jacareacanga; Jânio Quadros e João Goulart vencem as eleições.

1961

Jango e as reformas de base. Campanha do Globo e outros veículos contra Jango.

1964

Militares passam de poder moderador para poder interventor. Posse do General Castelo Branco

1967

O Brasil tem nova Constituição. Aprovada a Lei de Imprensa. Assume Costa e Silva

68 a 73

Decretação do AI 5; Junta militar substitui Costa e Silva por Médice; aprovada nova lei de Segurança Nacional; Onda de violência e o amordaçamento dos órgãos de Imprensa. Cumplicidade de alguns veículos com os governos militares; PIB cresce 14% ("milagre econômico")

Até 76

Processo lento e gradual de descontração, através dos alternativos (O Pasquim, Movimento, Opinião, O Repórter, entre outros)

1979

General João Baptista Figueiredo e a anistia

1985

Nova República – Tancredo Neves/José Sarney

 

 Tribuna da Imprensa

1ª página – 01/02/1989

Este órgão, que se diz o mais sério e confiável da imprensa brasileira, saiu ontem de sua majestade e descambou para o ridículo e o baixo nível, atacando a TRIBUNA DA IMPRENSA, na figura de seu diretor-redator-chefe, Hélio Fernandes, através de preposto do sr. Roberto Marinho, com palavras do mais baixo calão e com acusações ridículas e mesquinhas.

O sr. Evandro Carlos de Andrade, além de infringir a ética profissional, os códigos morais mais elementares, ainda tenta intimidar com ameaças físicas. O preposto do sr. Roberto Marinho vestiu a carapuça de capataz e também confirmou que é mesmo submisso e subserviente a qualquer ordem de seu dono, apesar de não ter sido citado nunca pela TRIBUNA. Mas o mais importante neste episódio é mostrar que o jornal que se diz impoluto, defensor da moral, dos bons costumes, da família brasileira e da ordem, tem a boca suja, atacando com termos porcos e que não seriam usados de maneira alguma por alguém que tivesse um mínimo de boas maneiras e de educação. Eis, na íntegra, o telex enviado pelo O Globo para a TRIBUNA DA IMPRENSA.

HELIO FERNADES

VOCÊ NÃO É APENAS UM CAGÃO, UM MERDA ORDINÁRIO DE REGISTRO CIVIL FALSIFICADO QUE LEVA BANHO DE TINTA MARROM – A COR DO SEU CARÁTER – E NÃO TEM CULHÃO PARA REAGIR. VOCÊ SABE QUE EU SEI QUE VOCÊ É PICARETA, CHANTAGISTA, CALUNIADOR, ACHACADOR DE EMPREITEIROS – POR EXEMPLO, OS CONSTRUTORES DA RIO-BAHIA – VIGARISTA, MENTIROSO ESCROTO E UMA PROVA, POR NÃO ESTAR NA CADEIA, DO QUANTO É VULNERÁVEL O CÓDIGO PENAL.

AGORA, CAPATAZ, SUBSERVIENTE, SERVO, SUBMISSO E A PUTA QUE O PARIU E EU RECOMENDO QUE VOCÊ NÃO PASSE PELO MEU CAMINHO.

EVADRO CARLOS DE ANDRADE

O nosso companheiro

 

Artigo originalmente editado pelo Jornal do Brasil em 29/4/1992
e reeditado pelo jornalista Hélio Fernandes para
a Tribuna da Imprensa em 08/12/1999

 

O jornal O Globo apresentou como irregulares operações publicitárias do Banerj com o
Jornal do Brasil, rigorosamente legais e corretas do ponto de vista ético e comercial. Por
trás do recurso provinciano de procurar briga com outro jornal, fora da competição de
mercado, jazem motivos que se apresentarão sem ordem de entrada em cena, como é
natural nas farsas. Antes do fim, porém, tudo estará claro.

 

Quem fala de O Globo diz também TV Globo e, obviamente, o diretor-redator-chefe,
Roberto Marinho, "nosso companheiro", para os da casa. São o estilo e a voz do dono.
Para o público é dispensável apresentá-lo, pelos dotes de saltador cauteloso, não apenas
como empresário e figura hípica, mas também como mergulhador de fôlego. A televisão
providencia as imagens de acordo com as conveniências.

O senhor Roberto Marinho é um monoglota que aparece como empresário esportista para
os brasileiros, mas em inglês tem presença mais enfática do que em português. A revista
americana Forbes o apontou como um brasileiro de 1 bilhão de dólares, em bens
pessoais, mas os leitores e telespectadores não ficaram sabendo. Digamos que o
empresário sonega a láurea internacional ao conhecimento dos seus conterrâneos.

Os brasileiros desconhecem os caminhos pelos quais esse bilhão de dólares foi canalizado
para o bolso do companheiro diretor-redator-chefe. O fato não foi trazido na época ao
conhecimento do telespectador e do leitor, menos por modéstia que por hábito de
administrar a censura no noticiário da casa. A TV Globo omitiu, por interesse político,
o nome e a imagem da prefeita de São Paulo, Luíza Erundina, este ano (1992), na solenidade de
entrega do prêmio ao vencedor da Fórmula Um.

A tradição da Rede é esconder a História ou providenciar versões convenientes aos donos
do poder. Tudo que se sabe por ouvir dizer é a expressão da verdade, que ainda espera a
oportunidade de aparecer. Quando o presidente Juscelino Kubitschek morreu, a Rede
Globo não mostrou a multidão emocionada que o levou, a pé, do Russell ao Santos
Dumont.
No entanto, o governo autoritário havia liberado de censura o serviço fúnebre. O desejo
de agradar não tem limites.

A verdadeira Central Globo de Televisão é aquela que produziu a inversão do resultado
eleitoral de 1982, na operação de fraude conhecida como Proconsult, e a novela de terror
que também não passou do primeiro capítulo, a explosão do Riocentro, com patrocínio
implícito. Até hoje a TV Globo não deu a razão, confessada de público por ex-dirigentes
da emissora, pela qual cortou do noticiário a prova de que havia outras bombas no Puma
que explodiu antes da hora. Por que o zelo? Medo da explosão retardada da bomba de
efeito moral?

A fabulosa fortuna pessoal do senhor Roberto Marinho não resultou da receita do jornal
que ele dirige desde 1925, pela elementar e universal razão de que jornalismo como
empreendimento não enriquece ninguém em dólar. Veio dos canais da ditadura militar, sob
a qual a rede se expandiu mediante recursos não contabilizados com transparência. Não
foi, portanto, o jornalismo que dolarizou o diretor-redator-chefe na escala bilionária da
revista norte-americana. Teria sido por acaso a geléia de mocotó Imbasa? Ou seriam as
bicicletas Monark? Na condição de produtor de geléia de mocotó e fabricante de
bicicletas, ele estaria consagrado no Guiness Book, antes de ser sagrado eminência financeira.

A pré-história da TV Globo deve ser avivada para que não se perca: os primeiros tempos
foram geridos pela mão do sócio americano, o grupo Time-Life. Só mais tarde o senhor
Roberto Marinho entrou em cena, e foi quando a ditadura assumiu a dívida da emissora
com o sócio americano e passou a lidar na intimidade com o novo devedor, abrindo-lhe a
oportunidade de pagar em imagens a dívida em dólares.

Graças à rede nacional de televisão, às emissoras de rádios e ao jornal que dá nome às
Organizações Globo, a galáxia de Roberto Marinho se tornou a via-láctea da ditadura.
Proconsult e Riocentro foram as últimas prestações, quando o fim se aproximava mas
também aparecia no horizonte a democracia. O derradeiro favor, porém, foi a mobilização
para barrar a campanha das diretas, que as câmeras da televisão e as páginas do jornal
desconheceram, até cederem ao repúdio dos ditadores brasileiros. Sem uma explicação.

Sem pedir desculpas. Quando o último governo militar entrou em agonia, o oportunismo
desfraldou-se nas Organizações Globo: as críticas prepararam a adesão ao primeiro
presidente civil.
O presidente Sarney ouvia o presidente das Organizações Globo antes de
trocar seus ministros da Fazenda. Barganhavam-se favores oficiais por omissão de
notícias.

* * *

Um dia a história secreta da Rede Globo de Televisão será apurada, mas enquanto não
vem a público nada impede que os cidadãos sejam apresentados à verdade, que tanto
querem conhecer. O episódio da Proconsult explica a ojeriza das emissoras e do jornal
das Organizações Globo pelo senhor Leonel Brizola, que se elegeu por duas vezes
governador do Estado do Rio e, portanto, dobrou a frustração da barreira eletrônica
levantada duas vezes contra a sua candidatura. A tentativa de inverter a apuração da
primeira eleição direta de governador, em 1982, dá a medida exata do que representou
para toda a Rede a denúncia que o Jornal do Brasil fez e que permitiu desbaratar o conluio
de interesses retrógrados em fazer a história retroceder.

A segunda eleição do senhor Brizola matou a ilusão de que fosse eterna aquela viciosa
associação entre o governo do estado e as organizações do sr. Marinho, sobre quem o
ex-governador Moreira Franco despejou as benesses contratuais que lhe permitiram
sentir-se, como personagem de novela de televisão, dono do Banco do Estado do Rio de
Janeiro para todos os efeitos, inclusive receber publicidade eternamente.

Além dos comprometimentos episódicos, há os permanentes: as importações de material
(não é segredo) fazem-se por linhas de contrabando que a Receita Federal já tentou
desfazer. Há inquéritos abertos e não concluídos, mas edificantes. O último carnaval
estendeu a todo o País as imagens acintosas de uma aliança - essa sim, indissolúvel - entre
a galáxia do sr. Marinho e a constelação do jogo do bicho. Não foram os bicheiros que se
apossaram do carnaval carioca, mas a TV Globo que fez o serviço: deu projeção, de igual
para igual, aos do ramo da contravenção. Essa aliança se diverte afrontando a opinião
pública com as imagens de figurões da Rede sentados à mesa de almoço com os arrivistas
do bicho. E os sinais que transmitem as mensagens de narcotráfico nas entrelinhas e
telinhas? Precisa mais para explicar tudo?

A Rede Globo move-se por privilégios oficiais sem considerar jamais o interesse público.
Que lhe interessava que a Linha Vermelha viesse atender a uma antiga necessidade do
Rio? Nada. Não aceitando a vontade do eleitor, que reconduziu ao governo do estado o
sr. Leonel Brizola, a TV Globo não hesitou em opor-se à obra que completará uma parte
importante do plano viário da cidade, pensando que consegue suprimir da realidade o
governo Brizola. Esta é a mais inconseqüente forma de megalomania que
advém da manipulação dos meios de comunicação.

A denúncia vazia, que se volta como bumerangue contra quem não tinha credenciais
morais para fazê-la, é impotente para realizar o desejo de estragar a festa da inauguração
da Linha Vermelha e impedir o início da sua segunda etapa. Aquele tipo de anúncio,
aparentemente institucional, não será capaz de sustentar a Fundação Roberto Marinho na
pose de mecenas: por trás das mensagens de ciência e cultura, palpita um interesse vivo,
que nem aparece. Um tipo (intermediário) entre o dono do mundo e o benefactor. A
lavagem do Cristo Redentor foi paga pela Shell, mas a Fundação levou a fama. Os
arquivos do PCB foram parar na Fundação, mas depois que a União Soviética saiu do
mapa e os militares entre nós já estavam de pijama.
Esta novela começou mas ainda não acabou: o último capítulo é a opinião pública que vai
escrever.

TRECHOS DE DEPOIMENTOS GRAVADOS SOBRE ROBERTO MARINHO NO MUSEU DA IMAGEM E DO SOM (MIS/RJ)

  1. Paulo Cabral — Diretor-Presidente dos Diários Associados e Presidente da Associação Nacional dos Jornais. Em seu depoimento, Paulo Cabral fala sobre a personalidade de Assis Chateaubriand e de como ela influenciou a história dos Diários Associados, além do polêmico acordo da Globo com o grupo Time-Life.

(...) Quando nós rompemos com o governo da revolução. Rompemos com o governo Castello Branco em virtude do contrato do grupo Time-Life americano com as Organizações Globo. Ali começaram os nossos grandes erros. O meu grande amigo João Calmon, meu amigo afetuoso e querido, cometeu um erro grave. Eu disse a ele na época e também ao Dr. Chateaubriand:

 2) Marcello Alencar — o ex-governador Marcello Alencar fala sobre sua experiência como correspondente estrangeiro e sua participação na direção do jornal Correio da Manhã. Marcello relata também a relação entre Brizola e Roberto Marinho.

"(...) Então um dia o Brizola me ligou e disse: — Vamos, Marcello, almoçar com o velho.

  • Velho?! — É, esse Dr. Roberto.

Era o Roberto Marinho, grande inimigo dele.

  • Eu ainda sou o governador, candidato a presidente, e ele o maior empresário da comunicação. Vamos lá.

Passaram-se então três meses até que almoçamos com o Roberto Marinho. O dia em que eu contar isso eu ganho até um dinheirinho porque eu vou vender livro pra burro!

Era delicioso o confronto entre os dois. Eles estavam se admirando de uma maneira particular, até uma maneira meio apaixonada um pelo outro. Até que explodiu esse sentimento de saber quem tem mais poder (...)".

 

Voltar para o topo          Voltar para Home