Historia Inmediata


Intifada Palestina

 
A DESORDEM DA NOVA ORDEM INTERNACIONAL

O objetivo deste artigo é o de refletir a desordem da "ordem" internacional a partir da radicalização dos conflitos entre Israel e Palestina, que entendemos como um dos desdobramento dos atentados de 11 de setembro.  Sabemos da antigüidade dos conflitos entre árabes e israelenses, mas o terrorismo de Estado que Israel vem colocando em prática,  invadindo territórios palestinos e desrespeitando a autoridade de Yasser Arafat, é fruto de uma conjuntura de desequilíbrio internacional muito parecida com a que se percebia no início do século XX.

Na transição do século XIX para o XX a Inglaterra, até então considerada a grande potência imperial do mundo -  "o império onde o sol nunca se punha", como dizia o ditado  -  passou a sofrer a concorrência de outras potências emergentes, a Alemanha e os Estados Unidos por exemplo. Estas novas potências, buscando ampliar suas áreas de influência, passaram a cobiçar territórios já controlados pela Inglaterra ou qualquer outro país, ou territórios liberados pelo enfraquecimento de antigos impérios, como foi o caso do Império Turco Otomano, cujo enfraquecimento levou à disputa pelo controle dos Bálcãs entre a Sérvia e o Império Áustro-Húngaro. Esta nova conjuntura fez com que a Inglaterra abandonasse o seu relativo isolamento através da assinatura da Tríplice Entente com a França e a Rússia. É importante destacar que tal conjuntura internacional levou o mundo a um estado de insegurança, desencadeando uma sucessão de alianças e conflitos que vão desencadear, em 1914, a I Guerra Mundial.

Guardadas as diferenças de conjuntura histórica, queremos chamar a atenção para uma situação muito semelhante neste início de século XXI. Primeiramente porque os Estados Unidos, tal qual a Inglaterra em 1900, vem perdendo a sua posição de hegemonia internacional. É esta multipolaridade, onde se destacam os EUA, a União Européia e a China, que obriga as grandes potências a ampliar as suas zonas de influência, obrigando-as a tecer alianças e lançando-as em conflitos diversos. Ao mesmo tempo temos a  fragmentação do Império Soviético, e o gradativo enfraquecimento da Rússia, gerando "vácuos de poder" no Leste europeu e no centro da Ásia, "liberando" regiões para a influência ou domínio das atuais potências internacionais. Prova disso é a tentativa das Repúblicas do Báltico de ingressarem na OTAN e dos conflitos no Afeganistão; afinal, não foi para capturar Bin Laden que os Estados Unidos bombardeou o Afeganistão, mas sim, porque deseja impor-se em uma região estratégica da Ásia, com uma vizinhança rica em minérios e próxima da China, cujo isolamento territorial é interessante para o Ocidente.

É neste contexto de multipolaridade e consecutivo desequilíbrio internacional que Israel se aproveita da sua histórica amizade com a "Águia" para dar o "bote" final na Palestina. Aproveitando-se do discurso de "caça aos terroristas", pregado por Bush, e da desunião entre os países árabes, muitos dos quais subservientes aos Estados Unidos, como é o caso da Arábia Saudita, que Sharon legitima suas incursões na Cisjordânia, Faixa de Gaza e Colinas de Golã, à revelia das decisões da ONU. Mesmo diante da pressão dos países europeus, Israel sente-se tranqüilo pois sabe que pode contar com o apoio estadunidense, ainda que oficialmente os EUA peça para os israelenses se retirarem dos territórios ocupados.

E é preciso que  se diga que a radicalização do conflito árabe-israelense é apenas mais um desdobramento da atual conjuntura internacional, o Plano Colômbia, as ameaças estadunidenses em relação à Coréia do Norte, Irã e Iraque, entre outros, pertencem a este contexto de busca por novas zonas de influência, de derrocada da hegemonia estadunidense e ascensão de novos pólos de influência, lançando o mundo na instabilidade e ampliando os conflitos para escalas cada vez maiores.

Assim sendo, prestemos atenção para o fato de que a crise no Oriente-Médio é apenas a ponta de um enorme iceberg cuja tendência é aumentar ainda mais.

Viegas Fernandes da Costa
historiador e professor
Colégio Metropolitano (Indaial - SC - Brasil)
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