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Rio de Janeiro, 5 de maio de 1999

Tema 1

 

Carlos Fico

Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

"A profissionalização da História no Brasil: um fenômeno recente"

 

 

RESUMO:

A profissionalização da História no Brasil é um fenômeno recente, pois até meados do século XX era bastante pequena a prática da pesquisa histórica. Hoje nota-se, no país, uma considerável produtividade na área de História, o que sugere que as últimas décadas foram decisivas para a configuração do atual patamar. A presente comunicação, num primeiro momento, procurará demonstrar o papel altamente significativo da implantação dos programas de pós-graduação em História, desde os anos 1970, nesse processo de consolidação da História. Do mesmo modo, buscará evidenciar a evolução da produção histórica nos anos 1980, fase que pode ser considerada como de efetiva profissionalização do historiador brasileiro, vale dizer, sua configuração como especialista afinado com tendências internacionais, capaz de manejar teorias, métodos e técnicas atuais, integrando um mercado de contínua produção de trabalhos reconhecidos como relevantes pela comunidade científica e por outros setores, como a mídia especializada.

Num segundo momento, a comunicação buscará sublinhar traços da atual produção histórica brasileira, discutindo-os à luz da chamada "crise da História" e tentando detectar os caminhos de superação da mencionada crise pelos historiadores brasileiros. Portanto, algumas das principais características da História que se pratica hoje no Brasil serão sumariadas e discutidas, a saber: (a) diluição das abordagens metodológicas estritas e o surgimento de pesquisas que não são exclusivamente de História Social, História Política ou História Econômica, mas que – num possível esforço de renovação – situam-se em áreas de fronteira; (b) "crise de identidade do ofício do historiador", isto é, uma certa pulverização das especialidades tradicionais e uma conseqüente multiplicação de objetos que dificultariam tanto a percepção de uma unidade teórico-conceitual da disciplina quanto a identificação de uma pragmática metodológica do ofício; (c) ceticismo quanto às teorizações totalizantes, a opção por objetos discretos e a busca por equacionamentos conceituais ad hoc, traços que definiriam a maioria dos trabalhos e que estão bastante correlacionados com as críticas provenientes da lingüística, filosofia e teoria literária acerca da impossibilidade gnoseológica de referência ao real; (d) persistência da crença no poder das fontes documentais de serem "vestígios" que permitem acesso ao real – o que sugere uma contradição/tensão com o aspecto anterior; (e) evolução dos temas e especialidades: surgimento de novos temas, abandono de enfoques tradicionais, tentativas de renovação de tendências (como a História Política).